domingo, 22 de novembro de 2009

IV TROFÉU ORI-ALENTEJO: CARTOGRAFIA NÓRDICA, SIM OU NÃO?


Da segunda etapa do IV Troféu OriAlentejo e das vitórias de David Sayanda e Patrícia Casalinho, já aqui falámos ontem. Hoje debruçamo-nos sobre os mapas e sobre o tipo de cartografia nórdica apresentado, auscultando a este propósito as opiniões dos principais protagonistas: Os atletas!


“Uma prova com bastante êxito, cujo principal motivo se prende com o tipo de cartografia apresentado. As típicas rochas foram substituídas por detalhes de relevo como cotas e apenas foram apresentados os detalhes rochosos que mais se destacavam, o que facilitou muito mais a navegação. Em Portugal, estamos habituados a ter todos os detalhes no mapa, o que por vezes torna algumas partes ilegíveis, e é por este motivo que esta prova se tornou um desafio à nossa capacidade de adaptação. Esta prova foi apenas uma pequena amostra do que poderemos esperar no Meeting Internacional de Arraiolos e deixo aqui o repto para virem desfrutar da Orientação em terrenos arraiolenses.”

Lena Coradinho (GafanhOri)



“Parabéns ao GafanhOri por ter proporcionado mais uma boa manhã de prova. Apesar de ser uma Local, estiveram mais pessoas que nalgumas provas do Regional, mas julgo que o tipo de mapa chamou as pessoas. Utilizado pela primeira vez em Portugal, este tipo de cartografia foi muito bom. Nestes terrenos constitui uma ajuda grande porque apenas está representado no mapa o mais importante e relevante e não todas as pedras e pedrinhas que estão no terreno. Se utilizássemos esta cartografia noutro tipo de terreno, como o Pinhal de Leiria ou a zona de Estarreja, por exemplo, acho que não ficava a mesma coisa. O único aspecto negativo da prova, para mim, foi a cor magenta impressa no mapa que assinala o percurso estar muito clara e não se ver muito bem.”

Nuno Rebelo (Ori-Estarreja)



“Pareceu-me que este mapa era menos carregado do que seria de esperar na cartografia tipicamente portuguesa, especialmente no que diz respeito a pedras e elementos rochosos. Num terreno que, em certos sítios, apresentava grande quantidade de pedras, pareceu-me ser mais fácil a navegação pelo facto de nem todas estarem representadas... apenas as ‘obrigatórias’ e as mais significativas do ponto de vista do praticante.”

Ricardo Chumbinho (GafanhOri)



“A prova em si, com uma excelente organização, era muito rápida com os melhores atletas a baixarem todos dos 5min/km. Sobre o mapa, confesso que tenho alguma dificuldade com este tipo de cartografia. Num estágio recente na Finlândia demorei cerca de 4 dias de treino a habituar-me a estes mapas. No meu modo de navegar, uso o máximo de pormenores junto à zona do ponto e hesito muito quando tudo não bate certo a 100% (algo a melhorar). Aqui consta apenas o essencial (inúmeras rochas não representadas no mapa, sobretudo no monte a sudeste) daí que tenhamos de ter muita confiança na nossa direcção e sentido de distância percorrida. Nos nossos mapas, nós é que seleccionamos o que interessa para navegar. Neste tipo de mapas esse trabalho já está feito; apenas temos de conseguir perceber os limites entre o que está e não está representado e usar os elementos que temos no mapa. Juntamente com o Alexandre Alvarez (com quem empatei na prova) e com o Paulo Franco fizemos, após a prova, o percurso de Distância Média a um ritmo mais leve. Durante este tempo deu para entender melhor o ponto de vista do cartógrafo. Foi uma grande manhã na companhia dos Gafanhotos. Talvez em Janeiro a navegação se torne mais fácil.”

Miguel Silva (CPOC)



“Esta não foi a primeira vez que estive em contacto com este tipo de cartografia.
Pelos conhecimentos que já me foram transmitidos e pelo que já experimentei, sei que este tipo de cartografia é ‘relativo’, ou seja, é um tipo de cartografia onde apenas se representa o mais evidente, o que é muito útil em mapas com excesso de informação, mas que em terrenos como o de hoje torna a navegação muito simples, pois o mapa não contém excesso de informação, tornando a leitura muito leve e rápida. É claro que para uma introdução como esta, penso que este mapa foi adequado. A sério vai ser no Meeting de Arraiolos :).”

David Sayanda (GafanhOri)



“Mais uma vez, é com agrado que me desloco ao concelho de Arraiolos para praticar Orientação. Como já vem sendo hábito, o Gafanhori apresenta sempre uma boa organização e percursos muito interessantes. O deste fim-de-semana tinha a particularidade de o mapa ter sido feito bem ao estilo dos países nórdicos (há que lembrar que estes países são pioneiros na Orientação) o que tornava as minhas expectativas mais elevadas para o que poderia encontrar. Essas expectativas foram superadas, uma vez que os mapas, por terem apenas os elementos mais vistosos e uma maior diversidade de cor (não usar constantemente pedras e falésias, apenas quando necessário), se tornam muito mais simples e de mais fácil e rápida leitura do que os mapas feitos por cartógrafos portugueses, onde se carrega demasiado nos elementos rochosos e os atletas com tanta informação não conseguem ter uma leitura que o favoreça. Outro aspecto que observei no mapa prende-se com as áreas amarelas. Estas apenas são marcadas quando são grandes e bem visíveis, permitindo assim que o mapa não tenha muitas mudanças de cor, que muitas das vezes são desnecessárias. É importante que todos os cartógrafos portugueses observem o trabalho realizado e que tentem implementar este tipo de cartografia nos nossos mapas. Afinal a Orientação portuguesa quer evoluir e não regredir…”

João Mega Figueiredo (CN Alvito)


“A 4ª etapa do OriAlentejo desenrolou-se num terreno de relevos suaves, zonas abertas (na maioria) e algumas áreas de sobreiro. É um terreno tipicamente rápido, onde a direcção de navegação é muito importante, com excepção da zona sul, onde o relevo é mais acentuado e alguma vegetação dificulta a progressão. Por todo o terreno, os detalhes rochosos são uma constante! Os detalhes rochosos e a curiosidade em como estes estariam cartografados pelas técnicas nórdicas, como anunciado no site da prova, foram sem dúvida as razões que me levaram a Bardeiras. A cartografía é de facto mais simples do que estamos habituados em Portugal. Nesta foram desenhados apenas os elementos mais relevantes e ignorados os pormenores. O trabalho da simplificação do mapa que temos de fazer em corrida fica assim facilitado. Apesar de já ter tido algum contacto anterior com este tipo de cartografia, tive algumas dificuldades no início da prova para me adaptar. As normas da IOF falam que os mapas devem ser feitos para escala 1:15 000 e os mapas 1:10 000 deverão ser uma mera ampliação dos 1:15 000. Penso que este mapa em 1:15 000 seria legível, mesmo tendo em conta o elevado número de detalhes no terreno. Um terreno destes em 1:15 000, com cartografia ‘detalhada’, seria impensável. Penso que é importante termos contacto com outro tipo de cartografias, também em mapas nacionais. O Gafanhori está mais uma vez de parabéns pela iniciativa. Não posso dizer que prefiro este tipo de cartografia em detrimento da ‘detalhada’, mas gostei! Talvez depois de praticar mais este tipo de desenho, me torne mais adepto. Venha o Meeting de Arraiolos! Obrigado ao Gafanhori por mais uma excelente organização da prova.”

Paulo Franco (COC)


“A primeira coisa que me saltou à vista, quando o recebi, é que se tratava de um mapa limpo onde, aparentemente, se podia navegar com clareza. A economia do preto permitiu evidenciar o relevo e foi a esse aspecto que me agarrei acima de tudo. Infelizmente, a equidistância era de 2,5m, e por isso as curvas de nível viam-se melhor no mapa do que no terreno. Como, no entanto, fiz a maior parte do percurso em ritmo de treino, não tive no geral grandes dificuldades de leitura. A excepção foi na zona sul, a área mais acidentada e com maior concentração de falésias, pedras e, sobretudo, afloramentos rochosos. Outra consequência positiva da depuração dos negros é que as cotas correspondentes a rochas (cinzento circulado a castanho) se destacavam bem no mapa e, como eram facilmente identificáveis no terreno, foram um óptimo apoio à navegação. O mesmo aconteceu com as árvores isoladas, que nalguns casos representavam também referências fáceis e seguras. Num terreno tão pedregoso, imagino que uma cartografia pesada teria tornado a leitura bastante mais penosa e acabaria certamente por ‘esconder’ alguns desses elementos fundamentais. Os tempos de Sayanda, Alvarez e Miguel Silva constituem, porém, o melhor argumento a favor deste tipo de cartografia.”

Manuel Dias (Individual)


[Mapa extraído do excelente texto no blogue de Miguel Silva em
http://miguelorienteering.blogspot.com/2009/11/nordic-maps-vs-portuguese-maps.html. Mais fotos da prova, da autoria de Paulo Fernandes, em http://picasaweb.google.com/paulojjf/IVTrofeuOriAlentejo2EtapaBardeiras]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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1 comentário:

Ana disse...

Um mapa com bastante piada! Ignoravam-se todas as “pedrolas” e elementos pouco significativos, e procuravam-se, somente, as rochas com alguma dimensão e/ou outros elementos relevantes. Ou como alguém disse em tom de chacota: “Esta cartografia só pode ter sido inventada por um preguiçoso…” (Preguiçoso, mas esperto, diria eu!)
Em relação à equidistância, num terreno quase plano como aquele, só podia ser de 2,5m, para não corrermos o risco de ter um mapa sem “pedrolas” e, já agora, também, quase sem curvas de nível…