sábado, 17 de outubro de 2009

WMOC 2009: CRONIQUETA


Manuel Dias no seu melhor, e mais não digo… Leiam, queridos amigos, leiam e deliciem-se.


CRONIQUETA

As desistências de Jan Solli e Etienne Bousser, candidatos ao ouro em M55 e M60, e também a do nosso José Fernandes em M50, atestam bem a dificuldade das finais A de Distância Longa nestes Mundiais de Veteranos que terminaram hoje na Austrália. O meu 13º lugar deixa-me, por isso, inteiramente satisfeito. Nestas três provas disputadas perto das Blue Mountains (duas qualificatórias e final), nem sempre com certeza fiz as melhores escolhas de itinerário, mas não cometi nenhum erro grave de navegação.

Há certamente muitas situações que gostaria de comentar no âmbito desta competição, mas acho preferível partilhar convosco outros momentos inolvidáveis desta aventura que a greve dos pilotos da TAP me obrigou a começar a 23 de Setembro, 24 horas antes do previsto. Como na altura escrevi no livro de honra do Museu do Design de Zurique, “o Acaso (Deus, dizem outros) escreve direito por linhas tortas”: Depois de dormir no aeroporto, pude revisitar a cidade e deliciar-me com uma fabulosa retrospectiva do fotógrafo Michel Comte. Tomem nota, vai ficar até 3 de Janeiro. Mas não é disso que reza esta croniqueta que alinhavei na última madrugada. Aí vai.

Esta viagem à Austrália, ganhei-a num concurso de televisão, não me custou um tusto e aqui é tudo à borla. É assim que eu tenho encarado as coisas. Os Masters 2009 são apenas mais cinco provas, menos importantes do que qualquer regional do Ranking Sul, não tenho de prestar contas disto a ninguém.

A verdade é um pouco diferente. Este projecto, nascido há um ano em Istambul quando o Peissard me disse que ia alugar uma auto-caravana para duas pessoas e que tinha um lugar para mim, custou-me uma pequena fortuna, mas a Rosário e os meus amigos mais chegados sabem que sobre isso já chorei o bastante em Lisboa. Quando, durante a escala no Dubai, me apercebi de que esta roleta dos fusos horários me ia roubar meio dia de vida (há-de devolver-mo no regresso, mas enfim), decidi pôr uma rolha na caldeira das angústias e viver o sonho do concurso televisivo.

Escrevo esta nota a 17 de Outubro, na madrugada antes da final de Distância Longa. Deixem-me continuar a ser irresponsável. Não me apetece dormir. Hei-de ir com uma noite em branco para o “Labirinto do Carwell” – é assim que se chama o mapa. Mas terei avançado mais um pouco nas 900 páginas de “As Benevolentes”, de Jonathan Littell, que em boa hora decidi pôr na mala, retirando por conta disso quase dois quilos de cuecas, meias e barras de chocolate. Não sei porque é que continuam a fazer livros tão pesados. Os editores não devem ter o hábito de ler na cama e acabar com o nariz esmurrado naquela linha em que o sono estava mesmo a chegar. Adiante.

Vamos então àquilo que quero contar: a minha noite mais fria da Austrália.

Honeysuckle Creek Tracking Station, 6 de Outubro. Ontem fizeram anos a Isilda, o Isaú e um dos filhos da Carla Guedes. Não houve ‘sms’ para ninguém. Espero que o Dionísio tenha hoje (amanhã) melhor sorte quando sairmos daqui. Às 8h da manhã do dia 7 serão ainda 10 da noite do dia 6 em Lisboa, e nessa altura já estaremos a caminho de Camberra. É do domínio do surreal esta questão das comunicacões. Neil Armstrong, primeiro humano a pôr o pé na Lua, Verão de 1969. Lembram-se? Muitos de vocês ainda não eram nascidos, mas conhecem de cor esse registo histórico. O que talvez alguns não saibam é que o primeiro lugar da Terra aonde essas imagens chegaram foi exactamente aqui, a Honeysuckle Creek Tracking Station, onde a NASA manteve uma estacão espacial entre 1967 e 1981, dando apoio à Apollo 11, Skylab e outros projectos americanos. Vejam bem, nessa altura Honeysuckle estava em contacto com a Lua e agora, 40 anos depois, não se consegue mandar uma mensagem para a minúscula povoação de Tharwa, que fica a meia dúzia de quilómetros, na outra extremidade da Apollo Road. Nem ponta de sinal no telemóvel.

Tenho a tenda montada a menos de 200 metros da plataforma onde funcionou a estação da NASA, como recordam as fotografias e o discreto aparato museológico patentes no local. A outros 200 metros, abre-se a clareira onde esta manhã esteve instalada a arena da minha sexta prova por estas bandas. Para trás ficaram os Campeonatos do Estado de Victoria e os Campeonatos Nacionais da Austrália, onde obtive o meu melhor resultado desta digressão: 2º lugar no Sprint, a 27 segundos de Paul Pacque (campeão mundial da Longa) e à frente de Nigel Davies, Eddie Harwood e outras estrelas. Para trás ficaram as noites maravilhosas de Castlemaine, Halls Gap, Benalla, Bendigo, Wangaratta e Corryong, que só encontrarão paralelo nas Fitzroy Falls e Monte Keira, com a interminável cidade de Wollongong transformada num mar de luz estendido lá em baixo, à distância. Para trás ficaram os reencontros (Tim Sands, Roy Dawson, Juahni Salmenkyla, Alice Bedwell, Sharon Crawford, Etienne Bousser, Blair Trewin, Eddie, Arthur...) e as novas amizades, entre as quais a indescritível Angela Murray, em cuja casa, nos arredores de Sydney, estenderei o colchão e o saco-cama e tomarei o primeiro duche australiano, 16 dias depois de ter saído de Lisboa.

Vá lá, não se escandalizem. Litro e meio de água num balde e uma ou outra bacia de toilette pública foram assegurando aquela higiene mínima de eslavaçar diariamente o focinho, os sovacos e as ditas partes íntimas. A verdade é que o Peissard, eu e mais a nossa autocaravana, que também se chama Apollo, não gastámos um cêntimo em pernoitas até chegar às Blue Mountains para este Masters de Distância Longa. E acreditem que temos dormido nalguns recantos verdadeiramente privilegiados. Às vezes, se calhar, à revelia de alguma cláusula legal mais obtusa. O que poupámos nos parques tem-nos dado para ajuizar a forma como o Cabernet, Merlot e Shiraz convivem com o “terroir” australiano. E a nossa classificação, por enquanto, não é nada negativa, apesar de – perdoem-me os meus amigos enófilos – as nossas notas de prova se basearem em caixas de 2 e 4 litros.

Tudo isto veio atrelado à noite glacial de Honeysuckle, e ainda não falei dela. Como praticamente todos os dias desde que aqui desembarquei a 26 de Setembro, tinha chovido durante a tarde e noite. E muito vento. E muito frio. De manhã, ao correr o fecho da tenda, houve qualquer coisa que não funcionou como de costume. E, antes de sair, ao tentar dobrar a aba do tecto exterior, foi como se tivesse partido um vidro. Toda a cobertura externa era um cristal de gelo. Eu poderia, aliviando as espias, ter levantado aquela carapaça e colocá-la de pé, ali ao lado, sem qualquer apoio.

Tive mesmo de recorrer às luvas que achara dois dias antes, perto de Thredbo, no Parque Nacional de Kosciuszko (Snowy Mountains), durante um longo passeio pelo Dead Horse Gap Track. O Eddie e o Arthur já por ali andavam de binóculos em punho naquele paraíso do “bird watching”. As cucaburras, os papagaios e as catatuas não se calavam desde antes das 5 da manhã. E eu tinha as unhas, o nariz e os pés congelados. Enfiei a tenda, por partes, em três sacos de plástico, e fui fazer as últimas imagens de cangurus na tal plataforma da NASA. Cresce por ali uma ervinha que faz as delícias destes ‘ora-bípedes-ora-quadrúpedes’. E deixam-se aproximar para as fotos, até que lá partem naqueles seus saltinhos (ironia do local) que fazem lembrar a impulsão de Armstrong na surpreendente leveza da atmosfera lunar.

Como podem adivinhar, a primeira coisa que fiz ao chegar a Camberra foi comprar um camisolão quentíssimo, umas calças forradas a pêlo, meias grossas e mais um gorro. Lá se foi quase o preço doutro bilhete de avião.

Manuel Dias



[foto de Manuel Dias na Praia da Vieira, durante a sua participação na final de Sprint do WMOC 2008]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO


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