terça-feira, 27 de outubro de 2009

ORIENTAÇÃO EM CABO-VERDE: UM SONHO TORNADO REALIDADE


Sob o título “Desporto de Orientação pode ser implementado em Cabo Verde”, o Jornal cabo-verdiano “A Semana” deu a conhecer pormenores sobre o trabalho desenvolvido nesse sentido entre a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e o Instituto de Investigação e Património Culturais de Cabo Verde. Acerca de tão interessante assunto, o Orientovar conversou com José Samper, Director Técnico da FEDO – Federação Espanhola de Orientação e traz-lhe aqui os pormenores.


Orientovar - Aproximar África da Europa ao nível da Orientação tem sido uma preocupação da FEDO nos últimos tempos. Como é que surgiu esta oportunidade de implementar o “desporto verde” em Cabo Verde?

José Samper - Estive um ano em Moçambique, na direcção dum projecto de cooperação, trabalhando na construção dum Centro de Formação para camponeses. Nessa altura comecei a pensar como poderia levar para lá a Orientação, ao mesmo tempo que me perguntava como fazê-lo num País onde as pessoas não têm sequer que comer. Mas como ‘nem só de pão vive o homem’... um belo dia quis o destino que tivesse um encontro casual com o Ministro da Educação e Desportos de Moçambique, quando fazia uma corrida no Parque António Repinga, em Maputo. A partir daqui, aulas aos escuteiros de Moçambique, cursos, criação da Associação de Orientação de Maputo… Foi assim que tudo começou.

Já este ano recebi uma chamada de Cabo Verde, mais concretamente de Jaime Puyoles, Director da AECID - Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento em Cabo Verde. Ele estava em Moçambique na mesma altura em que eu lá estive e conhecia o projecto de Orientação para Moçambique. Perguntou-me então se estaria disposto a preparar um projecto de Orientação para Cabo Verde. Nesse mesmo mês estava em Cabo Verde a trabalhar no assunto.

Orientovar - Quais as entidades envolvidas no projecto?

José Samper - Da parte espanhola são a AECID em Cabo Verde e eu, na qualidade de representante da FEDO. Do lado de Cabo Verde não estão ainda definidas as entidades, mas na Conferência de Apresentação, no passado mês de Junho, estiveram presentes os representantes da Direcção Geral de Desportos de Cabo Verde, do Desporto Escolar, Associações de Caminheiros e alunos da Faculdade de Educação Física da Universidade de Cabo Verde.

Orientovar - Em concreto, esta intervenção centra-se na Ilha de Santiago. Que condições encontrou aí para a prática da modalidade?

José Samper – Inicialmente vamos começar na Ilha de Santiago, mas o projecto é mais vasto e pretende estender-se a outras ilhas. Além do mais, do ponto de vista das condições para a prática da Orientação nas suas disciplinas clássicas, esta não é sequer a ilha mais apta, apesar de possuir boas condições para a prática da Orientação de Distância Longa, Orientação em BTT e Corridas de Aventura. Tive que desenvolver um esforço enorme para, do ponto de vista do relevo, encontrar uma área não demasiado acidentada e com vegetação, o que não é fácil tendo em conta que se trata de ilhas vulcânicas.

Orientovar - Que passos estão previstos para levar por diante o projecto e qual o ponto da situação neste momento?

José Samper – Neste momento estamos preparando um Curso de Orientação de Nível I, dirigido a formadores das Escolas e alunos do Instituto Nacional de Educação Física da Universidade de Cabo Verde. Temos já um “mapa base” de toda a ilha de Santiago, à escala de 1:10 000, com equidistância de 5 m, e a partir daqui é nossa intenção realizar mapas urbanos da Cidade da Praia, para que se arranque com o trabalho directo junto das Escolas e também pequenos mapas dos arredores da cidade para que se comece a trabalhar ao nível da interpretação do relevo. Permita-me acrescentar que na realização deste “mapa base”, muito simples, contei com a colaboração de Carlos Lisboa. Posteriormente, procuraremos desenvolver mapas de Orientação e cartas de turismo das rotas onde se verificam relações históricas entre a Espanha e Cabo Verde, nomeadamente da Cidade Velha, Fortaleza de São Filipe, Convento de São Francisco, Pousada de São Pedro e Capelas Filipinas.

Orientovar - A cooperação espanhola com o Governo de Cabo Verde dirige-se a outros sectores de actividade, nomeadamente à recuperação das Capelas Filipinas. Há alguma ligação entre os dois projectos?


José Samper – Sim. Este projecto de implementação da Orientação está ligado ao desenvolvimento turístico de Cabo Verde, no sentido de dar a conhecer as suas belezas naturais e o seu património arquitectónico. Pretende-se uma difusão destes valores nos países onde a Orientação está mais implementada, sobretudo junto dos países nórdicos, mas também explorar estas potencialidades do ponto de vista desportivo e do desenvolvimento escolar.

Orientovar - Esta intervenção da FEDO em África não é inédita e o caso de Moçambique, como referiu anteriormente, é disso um bom exemplo. Qual o actual estado da Orientação em Moçambique?

José Samper - Em Moçambique realizámos quatro mapas de parques e dois mapas específicos de Orientação Pedestre. O primeiro mapa realizado foi o do Parque António Repinga, seguindo-se o da Ilha de Xefina, no ano de 2001. Foi ali que teve lugar a primeira competição de Orientação com a Liga Nacional de Escuteiros de Moçambique.

Actualmente, o desenvolvimento da Orientação em Moçambique vai progredindo muito lentamente e isto devido a diferentes causas, a primeira das quais e a mais importante aquela que se prende com a falta de meios. É impossível avançar-se com a divulgação dum desporto, qualquer que ele seja, se não se conhecem as suas regras básicas e as necessidades são máximas, mas a verdade é que não há dinheiro para pagar aos monitores formados para dar aulas nas Escolas. Inicialmente, a Orientação estava concentrada no círculo de Escuteiros, mas sentimos a necessidade de ampliar o seu conhecimento a toda a Sociedade. Todavia, a pessoa que tínhamos formado e que era o Presidente da Associação de Orientação de Maputo, partiu de Moçambique em busca dum futuro melhor, o que nos obrigou a reestruturar todo o projecto de implementação, de acordo com os membros da dita Associação. Estamos esperançados que esta nova postura possa trazer melhores resultados para a Orientação no País. Agora embarco para Moçambique, onde permanecerei desde o dia 25 de Novembro até 15 de Dezembro, para realizar alguns mapas de aprendizagem e colaborar na coordenação da nova estrutura preparada pela Associação de Maputo.

Orientovar - Estamos a falar de projectos espanhóis para dois países de língua oficial portuguesa, causando alguma estranheza não vermos nisto o envolvimento do Instituto do Desporto de Portugal ou da própria Federação Portuguesa de Orientação. Esta situação merece-lhe algum comentário?


José Samper – Por vezes a vida oferece-nos oportunidades quando e onde menos esperamos. A mim, o destino levou-me até Moçambique e devo dar graças por isso. Desde muito jovem sempre tive muito bons amigos portugueses - e continuo a tê-los! – e sempre tive uma atracção muito especial pela cultura e pela língua portuguesa. Devo salientar que, no desenvolvimento destes projectos, sempre foram de extrema importância os Regulamentos e Normas em língua portuguesa elaborados pela Federação Portuguesa de Orientação e sempre que necessitei de qualquer ajuda só tive que solicitá-la. Houve um momento, com a anterior Direcção da Federação Portuguesa de Orientação, em que esteve prevista a deslocação a Moçambique de um ou dois cartógrafos portugueses para realizar ali alguns mapas, mas dificuldades de entendimento com as instituições de Moçambique fizeram com que o projecto abortasse. Mas volto a realçar que a Federação Portuguesa de Orientação sempre colaborou e ajudou no dito desenvolvimento. Em contrapartida, também é verdade que a IOF - Federação Internacional de Orientação não colabora suficientemente na difusão da Orientação em África e na América do Sul.

Orientovar – Para terminar, que frutos espera recolher deste empenho e deste trabalho?

José Samper - Que a Orientação torne real o seu slogan “mais que um desporto”, que se assuma como uma forma de ser, uma forma de entender a natureza e que seja um laço de união entre o Norte e o Sul.

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Consulte
AQUI o artigo do diário cabo-verdiano A Semana.
[Fotos e mapas gentilmente cedidos por José Samper]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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