sexta-feira, 9 de outubro de 2009

GRANDE ENTREVISTA: PROFESSOR RICARDO CHUMBINHO E O ACTUAL MOMENTO DA ORIENTAÇÃO DO DESPORTO ESCOLAR


No início dum novo ano lectivo, ponto da situação sobre o actual momento da Orientação do Desporto Escolar. Uma grande entrevista com o seu Coordenador Nacional, Professor Ricardo Chumbinho, absolutamente a não perder.


Orientovar - Começaria por lhe perguntar quais os grandes desafios que se colocam à Orientação no ano lectivo 2009/2010, no âmbito do Desporto Escolar?

Ricardo Chumbinho - Penso que o grande desafio e aquilo que perseguimos há já longos anos, é o alargamento e consolidação da modalidade a todo o território nacional, de forma consistente, para que paulatinamente deixemos de assistir à quase bipolaridade que se tem vivido entre DRE Norte e DRE Lisboa e Vale do Tejo. Em termos quantitativos e qualitativos, estas têm sido as regiões que se destacam, com dezenas de escolas e centenas de alunos a participarem em quadros competitivos regulares.

O Algarve não tem existido de todo. O Alentejo começou timidamente há algum tempo a aparecer com uma ou outra escola e o ano passado tivemos já a EB2,3 Cunha Rivara com grande pujança, mas com um professor contratado e sem parceiros para organização de quadros competitivos escolares. O Centro (re)surgiu, finalmente, o ano passado, com escolas a participarem nas provas de apuramento para o ISF, apesar de apenas duas em toda uma região com grande desenvolvimento da modalidade em termos federados. E ainda assim o Norte e Lisboa e Vale do Tejo apresentam grande pujança enquanto regiões, contribuindo com quase 90% da número de escolas, mas distribuídas de forma desigual no seu interior, uma vez que no Norte estamos essencialmente a falar das zonas de Braga e Porto, enquanto em Lisboa estamos a falar da Península de Setúbal e um pouco das zonas de Sintra e Santarém.

Há contudo alguns sinais positivos que nos levam a pensar que este poderá ser um bom ano no que ao desiderato inicialmente assumido diz respeito. Na EB2,3 Cunha Rivara – Alentejo foi colocado, a título definitivo, o mesmo professor que trabalhou o ano passado em parceria com o Tiago Aires e a Raquel Costa, o que constitui uma excelente notícia para a modalidade. Por outro lado, a coordenação do Desporto Escolar do Alentejo já manifestou, por diversas vezes, a firme intenção de utilizar o exemplo desta escola para alavancar e desenvolver a modalidade, de uma vez por todas, na região. Com este conjunto de circunstâncias, a que se somam necessariamente as excelentes condições de todos conhecidas para a prática e a presença de clubes reconhecidamente dinâmicos e a apostar na juventude, o futuro da Orientação no Alentejo é necessariamente sorridente.

A situação que temos vivido na zona Centro constitui, para mim, um “quase mistério”. Tratando-se de uma região com importantes e dinâmicos clubes, excelentes áreas para a prática e onde a modalidade conhece um elevado grau de desenvolvimento, ao nível escolar tem sido pouco mais do que inexistente. Contudo, perspectiva-se que este ano se dê continuidade e até incremento ao trabalho das escolas que já o ano passado surgiram com alguma movimentação externa – EB23 Guilherme Stephens na Marinha Grande e ES Estarreja, tal como parece estar para surgir uma ou outra escola, nomeadamente na zona de Leiria, nas actividades competitivas externas.

No Algarve, infelizmente e talvez por motivos parecidos com aqueles que fazem com que também no sector federado a actividade seja residual, as perspectivas são menos sorridentes uma vez que provavelmente continuaremos sem representação. Já a Madeira e Açores são regiões que, fruto da sua autonomia, saem da esfera do sistema regular do Desporto Escolar, mas que surgem pontualmente com pequenas representações nos Campeonatos Nacionais.

Penso ainda que poderemos beneficiar do facto de muitos professores que não integram os quadros de escola e que eram, até há pouco tempo, colocados por períodos de um ano lectivo, passarem a ser colocados por períodos de 4 anos na mesma escola. Este é um factor de aumento da estabilidade do corpo docente que, por sua vez, poderá contribuir para o surgimento e desenvolvimento de novos projectos, uma vez que a perspectiva de professores e escolas é a de continuidade por um período mais alargado de tempo. Acresce a este o facto de, em sintonia com o ciclo de colocação de professores por 4 anos, também os projectos que estão neste momento a ser apresentados pelas escolas e apreciados pela estrutura do Ministério da Educação, serem igualmente por um período de 4 anos.


Orientovar - A planificação de actividades e a divulgação atempada dos calendários de competição tem sido uma falha apontada à Coordenação de Orientação do Desporto Escolar em anos anteriores. Este ano o problema está ultrapassado? Já nos pode avançar quais os pontos altos do Calendário de Provas no presente ano lectivo?

Ricardo Chumbinho - Não me revejo nessa critica nem identifico esse problema, particularmente no passado recente. Efectivamente, em anos anteriores, verificaram-se algumas situações dessa natureza, especialmente em provas de apuramento para o ISF. Quando tal aconteceu, o mesmo ficou a dever-se essencialmente a alguma indefinição quanto às possibilidades de participação do nosso país, bem como quanto aos moldes dessa participação – escalões, formas de apuramento, etc. O dilema é conhecido e comum a muitas áreas das nossas vidas: pretende-se fazer mais e melhor possível com recursos normalmente escassos, o que por vezes fez arrastar para ‘timings’ algo tardios a definição e publicitação das decisões tomadas.

Importa contudo fazer notar que, no processo de apuramento para o último ISF – Madrid 2009, todo o calendário de provas de apuramento e estágios de preparação estava definido no início do ano lectivo e que, apesar de ter havido necessidade de introduzir alguns ajustamentos ao calendário inicial com a anulação do estágio de Carnaval em Mora e a introdução de um estágio em Madrid, todo o processo decorreu de forma bastante satisfatória e foi merecedor de referências elogiosas da parte de diversos quadrantes, nomeadamente professores envolvidos.

Nos Campeonatos Regionais, que no que à Orientação diz respeito apenas se têm realizado na DRELVT uma vez que as outras regiões não têm apresentado dinâmica que o justifique e a DREN tem optado por um figurino competitivo diferente, a calendarização está dependente de factores e contingências de âmbito mais alargado, uma vez que há a necessidade por parte da Direcção Regional de articular diversas modalidades em diferentes locais. Contudo, e apesar de podermos sempre melhorar em diversos aspectos, penso que a DRELVT tem conseguido, de modo geral, ‘timings’ perfeitamente razoáveis. Esta situação é ainda mais evidente nos Campeonatos Nacionais, da responsabilidade da DGIDC, uma vez que com muitos meses de antecedência ficam a conhecer-se as datas e locais de competição. Apenas a referir uma situação de excepção ocorrida em 2008, uma vez que houve a necessidade de adiar em uma semana a data inicialmente prevista por motivos relacionados com o calendário de exames nacionais do ensino secundário. Apesar de a alteração ter sido anunciada com a devida e possível antecedência, a mesma fez com os nacionais de Desporto Escolar se sobrepusessem à data do Campeonato Nacional Absoluto no Minho, o que não só trouxe grandes dificuldades à organização, como causou algum natural desconforto entre todos aqueles que contavam estar envolvidos em ambos os eventos.

De qualquer forma, nos casos dos nacionais e regionais, não só estamos a falar de competições às quais se tem acesso apenas após um apuramento prévio, como é do conhecimento geral a zona do calendário em que as mesmas recorrentemente acontecem, pelo que o conhecimento com muita antecedência dos respectivos calendários e locais assume uma importância relativa. Os campeonatos regionais acontecem habitualmente no início do 3º período e os Nacionais na segunda quinzena de Maio.

Nas competições mais importantes e significativas, aquelas em que todos os alunos e escolas participam e que são as que ocorrem a nível local, a partir das quais se geram os apuramentos para as fases seguintes, tanto quanto conheço os calendários são definidos e divulgados pelas estruturas locais logo no início do ano lectivo. No caso da DREN o quadro competitivo assenta essencialmente em provas do calendário FPO, estando o mesmo definido logo no início do ano; no caso da DRELVT é feito um calendário próprio, maioritariamente com provas organizadas e dedicadas apenas ao Desporto Escolar, sendo esse calendário definido habitualmente em Outubro.

Orientovar - Fica a sensação que a Orientação no Desporto Escolar continua a viver da carolice de alguns professores, sem que a FPO se mostre particularmente empenhada em intervir junto das Escolas, promovendo acções de formação, dotando-as de algumas ferramentas essenciais e, por via disso, alargando o número de praticantes. O que é que está a faltar?

Ricardo Chumbinho - Diz bem o Orientovar quando se refere à carolice de alguns professores que, apesar de terem uma redução do seu horário lectivo para o desenvolvimento da Orientação, vão muitas vezes bastante para além daquilo a que estariam formalmente obrigados, uma vez que são movidos não por definições meramente administrativas e burocráticas, mas sim pela paixão pelo que fazem e pelo desejo de ver crescer os projectos que abraçam. Parece-me igualmente justo referir o suporte que estes professores encontram da parte das estruturas de coordenação desde as EAE’s até à DGIDC, que têm incluído a Orientação no lote de modalidades com quadros competitivos nacionais e internacionais (há apenas 3 ou 4 modalidades que participam nos campeonatos do mundo ISF), procurando ao mesmo tempo e em articulação com a figura do Coordenador Nacional de Modalidade, garantir condições para que o trabalho no terreno ocorra da melhor forma.

Já não posso concordar, de todo, com a alegada falta de empenho da FPO em contribuir para o desenvolvimento da modalidade em meio escolar. Recordo que a FPO foi a primeira Federação a assinar um protocolo de colaboração com a DGIDC, mas que já muito antes de o Ministério da Educação ter assinado um protocolo que era perseguido pela FPO há alguns anos, a Federação assumia um conjunto de medidas tendentes a promover o desenvolvimento da modalidade nas escolas. Para além de muitas outras, recordo que foram produzidos 2 DVD’s de carácter didáctico que foram distribuídos gratuitamente por todas as escolas do país.

Reconhecendo a importância do Desporto Escolar, os diversos elencos directivos primaram sempre, de há muitos anos a esta parte, pelo aumento e consolidação de um pacote de medidas com vista à aproximação à Escola. Sem ser exaustivo, posso adiantar que as escolas têm taxas de inscrição nas provas bastante baixas, que existem vagas destinadas a professores sem necessidade de filiação, em todos os cursos promovidos pela FPO (que são divulgados pelo Ministério da Educação enquanto parceiro) e que estão definidas condições bastante especiais para a filiação de escolas enquanto clubes federados, condições estas que incluem um pacote de apetrechamento e a produção sem custos de um mapa de iniciação. Regista-se também uma forte e regular colaboração com as DRE’s e DGIDC no apoio logístico aos Campeonatos Regionais e Nacionais, nomeadamente assumindo todas as questões relacionadas com a importante utilização do sistema SI.

Para além disto e desde há longa data, a FPO alterou os seus escalões para que os mesmos sejam coincidentes com os do Desporto Escolar (tornando-os inclusivamente desfasados de algumas importantes competições internacionais federadas) e admite que figurem nos seus ‘rankings’ até ao escalão de juvenis, nomeadamente Taça de Portugal, qualquer atleta independentemente de ter ou não vínculo à FPO, a partir do momento em que registe alguma participação numa competição. Acresce ainda dizer que, para além de todos estes aspectos com carácter regular e instituído, a FPO procura sempre dar resposta, na medida das suas capacidades, às diversas solicitações pontuais que recebe ao longo do ano de diversas escolas, bem como ela próprio desenvolver acções de carácter pontual, como foi a distribuição gratuita de elevado número de bússolas provenientes do WMOC 2008.

Está ainda para breve a publicação de um manual de Orientação para professores, que será também distribuído gratuitamente por todas as escolas, para além de existirem já no seu site, na secção de Formação, diversos documentos de apoio especificamente vocacionados para a Orientação em meio escolar.

Perante tudo isto, ganha especial relevo a última parte da questão inicial do Orientovar. O que é que está a faltar? Pessoalmente penso que faltam duas grandes questões: Primeiro, que os Clubes saibam aproveitar estas vantagens oferecidas pela FPO e tenham a capacidade de desenvolver estratégias de articulação e parcerias locais que lhes permitam chegar à escola da localidade. Por muitos incentivos que sejam desenvolvidos centralmente, terá que ser a nível local que estas estratégias se implementam para poderem atingir o sucesso. Como se costuma dizer a propósito de outras matérias, também aqui é necessário “pensar global e agir local”. Penso que a realidade nos demonstra que, infelizmente, são ainda poucos os clubes que já conseguiram estabelecer essas pontes de forma eficaz e, em última análise, mais do que o Desporto Escolar, são os clubes os principais interessados e beneficiários de projectos de Orientação fortes nas escolas. Em segundo lugar, que as escolas saibam tirar vantagem das possibilidades que se lhes oferecem. São também muito poucas as escolas que têm tirado efectiva vantagem da situação já descrita. Mas do meu ponto de vista, aqui volta ao de cima a importância dos clubes, que devem ter um papel activo na aproximação à escola e na apresentação destas condições e das vantagens que tal pode representar.

Diga-se entretanto que estas vantagens não estão apenas no papel; são efectivas. Para dar um exemplo que conheço bem, a ES Palmela é clube filiado há dois anos. A filiação do clube e atletas jovens ocorreu sem custos; obteve um apoio em material (40 estacas) de acordo com uma solicitação apresentada nesse sentido; está neste momento a ser produzido sem custos, por um formando num dos cursos de cartografia da FPO, um mapa de uma zona indicada pela escola; os jovens federados pela escola passarão a ter um número de dorsal e a receber a revista FPO; e, para cúmulo, enquanto clube federado, a ESP concorreu igualmente ao programa de apoio ao associativismo da respectiva autarquia e beneficiará este ano de algum apoio acrescido relativamente àquele de que já dispunha enquanto escola.

Abriria ainda um espaço, na resposta a esta questão, para me referir a um elemento muito concreto e que pode ser a chave de alavancagem de todo um processo de desenvolvimento que se pretende atingir: o professor de Educação Física que é também praticante da modalidade. Uma observação não rigorosa, anedótica, já nos deixou perceber uma realidade que se caracteriza pelo facto de haver muitos professores de Educação Física praticantes assíduos da modalidade, que não desenvolvem nas suas escolas projectos de Orientação. Ainda mais curioso será o facto de por vezes alguns destes professores que não desenvolvem a modalidade no âmbito do Desporto Escolar... desenvolverem projectos de outras modalidades. Seguramente haverá motivos diversificados para esta situação e ainda há pouco tempo, na região de Setúbal, verificou-se uma circunstância que nos permitiu “recuperar” para a Orientação um professor vastamente conhecido no meio e que andava “roubado” noutra modalidade. Mas talvez fosse interessante estudar um pouco mais este fenómeno, encontrar as suas raízes e procurar intervir nos factores que pudessem facilitar a rentabilização destes importantes recursos.


Orientovar - Em que fase se encontra a candidatura de Portugal à organização dos Mundiais de Desporto Escolar de 2013? Será Arraiolos a receber o evento?

Ricardo Chumbinho - Portugal é candidato e já o manifestou à ISF. Falta formalizar a candidatura, algo que irá acontecer nas próximas semanas. Não posso ainda avançar com o local, sendo certo que tem que ter algumas características como as condições técnicas para a prática mas, acima de tudo, tem que poder oferecer condições logísticas de qualidade e a bom preço que permitam alojar e alimentar mais de 700 participantes durante cerca de uma semana e de forma concentrada em termos geográficos.

Orientovar - Enquanto Coordenador de Orientação do Desporto Escolar qual o seu maior desejo para o presente ano lectivo?

Ricardo Chumbinho - Gostaria de ver a modalidade praticada em mais escolas e regiões do país; gostaria de ver mais professores envolvidos em projectos de Orientação; gostaria de ver os clubes com mais estratégias de verdadeira parceria com as escolas das respectivas localidades. Gostaria, finalmente, de ver o mesmo entusiasmo, alegria, ‘fair-play’ e participação a que sempre costumamos assistir nas provas do Desporto Escolar. São o verdadeiro garante da vitalidade da modalidade.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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