sábado, 24 de outubro de 2009

GRANDE ENTREVISTA: ANTÓNIO AIRES E O ACTUAL MOMENTO DA ORIENTAÇÃO PORTUGUESA


É mais uma grande entrevista, aquela que hoje “damos à estampa” no Orientovar. O passado recente, o presente e o futuro da Orientação portuguesa são aqui analisados à lupa pelo Director Técnico Nacional, António Aires.


Orientovar - Tivemos um Verão repleto de grandes provas. Que balanço faz da participação portuguesa nas várias competições?

António Aires - A participação das Selecções Portuguesas distribuiu-se por cinco Campeonatos Mundiais ou Europeus. Na disciplina de Orientação Pedestre, tudo começou no dia 27 de Junho no 11º Grande Prémio do RA4, na Praia da Vieira, com a cerimónia organizada para todos os atletas que iriam representar as cores nacionais no EYOC – Campeonato da Europa de Jovens, JWOC – Campeonato do Mundo de Juniores e WOC – Campeonato do Mundo de Elite. Depois disso iniciou-se uma aventura conjunta para o EYOC na Sérvia e o JWOC na Itália que envolveu 19 atletas, 4 técnicos, 3 carrinhas, passagem por 5 países, muita bagagem e muita aventura. Mas muito para além da participação nas provas e dos respectivos resultados, o mais importante foi o aproveitamento que se conseguiu fazer de todo este processo. Formação permanente com os jovens, análise detalhada de todas as provas realizadas, aproveitamento da viagem para se treinar noutros locais e competir noutras provas, aumentando a experiência competitiva, criação de rotinas para educar e disciplinar o grupo, etc.

A época de Competições Internacionais encerrou com a participação no WOC na Hungria, onde 4 atletas participaram naquela que é a mais importante prova da Orientação mundial. Desta competição, para além do excelente apuramento do Tiago Romão para a Final da prova de Sprint, fica também a média de idades de 22 anos da Selecção Nacional, que reflecte só por si o potencial da nova geração de atletas.

Na disciplina de Orientação em BTT, a participação da Selecção foi dividida por 3 provas em 2 locais diferentes. Começando com uma viagem até à Dinamarca onde se realizou o JWOC – Campeonato do Mundo de Juniores e EOC – Campeonato da Europa de Elite. Em Agosto, 4 atletas deslocaram-se até Israel onde, sob um calor tórrido, decorreu o MTB WOC – Campeonato do Mundo de Orientação em BTT.
Destas participações, os excelentes resultados a nível mundial principalmente do Daniel Marques em Seniores e do João Ferreira em Juniores, escondem as enormes dificuldades em se conseguir alargar a base de recrutamento de atletas e de se conseguir trazer os jovens para esta disciplina da Orientação. E sem quantidade só se tem qualidade de forma pontual. Como contraste com a Selecção no WOC Pedestre cuja média de idades foi de 22 anos, a Selecção no WOC BTT tinha uma média de idades de 31 anos, mesmo tendo um Júnior na comitiva. Por conseguinte, torna-se cada vez mais claro que o grande objectivo para esta disciplina é a criação de condições para trazer mais jovens a praticá-la regularmente.

Orientovar - A temporada 2009/2010 marca o ponto final neste figurino duma época em dois anos civis e, nessa medida, será mais prolongada do que é habitual. Em termos orgânicos e funcionais que alterações é que isto acarreta à dinâmica da Taça de Portugal?

António Aires - Após se ter concluído que esta alteração era muito importante, quer para o desenvolvimento das Selecções, quer para colocar a modalidade a par do ritmo dos restantes países europeus, a principal preocupação foi em minimizar o impacto que estas alterações poderiam ter no nosso objectivo de fundo que é a massificação da Orientação. Assim, continuam a não existir provas da Taça de Portugal nos meses de Julho e Agosto, deixando também de ser organizadas provas em Novembro e Dezembro. No entanto, ao nível das provas Regionais e Locais, estas continuarão distribuídas por todo o ano para ir ao encontro das necessidades dos organizadores.

Relativamente à época 2009/2010, vai ser realmente uma época atípica devido às necessidades de transição, com a Taça de Portugal Pedestre com 29 percursos em 13 provas, a Taça de Portugal em BTT com 22 percursos em 11 provas e as Corridas de Aventura com 8 provas espalhadas desde Outubro 2009 até Dezembro 2010.
Esta alteração cria algumas situações estranhas, como por exemplo, a necessidade desta época 2009/2010 de Orientação Pedestre incluir dois Campeonatos Ibéricos de Orientação Pedestre (o de 2009 em Espanha e o de 2010 em Portugal).

Orientovar - No plano interno, quais são no seu entender os pontos altos da temporada?

António Aires - O momento mais alto da temporada na Orientação Pedestre será provavelmente o regresso da Taça dos Países Latinos a Portugal, organizada pelo COC em conjunto com o Campeonato Ibérico 2010 nos dias 25 e 26 de Setembro, numa das provas “complementares” desta longa época. Relativamente à Orientação em BTT, claramente o ponto alto será a organização do Campeonato do Mundo de Seniores e Juniores em Portugal, em Julho de 2010, não só pela importância da organização em si, mas também por todos os “efeitos colaterais” positivos que acreditamos que uma organização desta envergadura provoca no desenvolvimento da disciplina em Portugal. Nas Corridas Aventura o ponto alto (embora ainda por protocolar com a FEDO) deverá ser a selecção de três equipas para representar Portugal no Campeonato Ibérico 2010, o que será inédito visto que até aqui não existia qualquer Selecção Nacional de Corridas de Aventura.

Orientovar - E no plano externo?

António Aires - Na Orientação Pedestre, a maior aposta é claramente o Campeonato da Europa de Jovens - EYOC 2010, que será organizado na vizinha Espanha, participação essa que começou já a ser preparada com um estágio no início de Setembro de todos os potenciais participantes, em terrenos semelhantes, na zona do local de Competição. Para a Orientação em BTT a maior aposta desta época está já a ser preparada desde 2008. Falo da participação no Campeonato do Mundo de Seniores e Juniores organizado em Portugal. Esta aposta não tem tido o sucesso desejado ao nível da quantidade de atletas que se conseguiu dinamizar para este projecto, principalmente ao nível dos jovens. Esta diminuta base de recrutamento leva a uma quase inexistente Selecção de Juniores para o WOC BTT 2010, o que se revela muito negativo para o desenvolvimento futuro da disciplina.

Orientovar - O sector da Comunicação e Imagem da Federação Portuguesa de Orientação tem estado demasiado apagado para aquilo que a modalidade necessita e merece. Partilha desta opinião? No seu entender, que medidas deveriam ser tomadas para inverter este estado de coisas?

António Aires - Não é uma área onde eu tenha muita intervenção, mas claramente tem existido um grande esforço da Direcção para corrigir esta situação. Mas a falta de recursos humanos e financeiros condiciona claramente este objectivo. No entanto, a Comunicação e Imagem é evidentemente um sector essencial no nosso objectivo-base de massificação da modalidade.

Orientovar - Quais os assuntos prioritários em cima da sua mesa de trabalho?

António Aires - Desenvolvimento da Orientação nas escolas: A estratégia passa por dotar as escolas, que demonstrem real interesse em incluir a Orientação no seu plano curricular ou no Desporto Escolar, de meios para o fazer, nomeadamente a criação de mapas de Orientação, percursos permanentes, conhecimentos técnicos por parte dos professores e documentação pedagógica de auxílio à organização de actividades. Tudo isto com o objectivo de não deixar apagar as pequenas chamas que vão surgindo esporadicamente nas escolas. Faz parte desta estratégia também a ligação das escolas aos clubes da área geográfica sempre que possível, de forma a garantir a continuidade do acompanhamento aos jovens e sua futura inserção no Desporto Federado.

Desenvolvimento do Livro “Orientação – Desporto com Pés e Cabeça”. Este documento, para além de ter objectivos de divulgação generalista da Orientação, terá um papel essencial no projecto de desenvolvimento da Orientação nas Escolas. Os seus conteúdos irão abranger as quatro disciplinas da Orientação em Portugal, assim como o Treino, o Traçado de Percursos, a Cartografia, Jogos Didácticos, etc.

Desenvolvimento do Trail-O em Portugal: Estamos em processo de criação de uma Comissão de Trail-O, mas este desenvolvimento passará pela formação dos técnicos dos clubes, criação de um formato estável de competições e pela interacção com as instituições de reabilitação de deficientes motores. É de referir que é nosso objectivo que esta disciplina seja inclusiva, ou seja, ter um formato que permita a sua prática em nível de igualdade por pessoas com e sem deficiência motora.

Trabalho com as Selecções de Ori-BTT: Sendo esta a época do “nosso” WOC BTT, e face à reduzida existência de técnicos para trabalhar nesta disciplina, terá de receber da minha parte uma maior atenção na preparação de treinos e estágios e do acompanhamento dos atletas.

Trabalho com as selecções de Orientação Pedestre: Tendo já uma Comissão Técnica para as Selecções constituída, esta época será de consolidação de metodologias de trabalho, ao nível do funcionamento dos estágios, acompanhamento e selecção dos atletas, etc. A principal novidade neste momento é a estruturação e organização dos estágios de fim-de-semana.

Em cima da mesa de trabalho temos também a reestruturação da carreira de Traçadores de Percursos, a análise das candidaturas para as provas da Taça de Portugal 2011, uma possível candidatura a um futuro Mundial de Desporto Escolar em Portugal, a divulgação da Orientação através de apresentações em diversos meios, etc.


Orientovar - Quer formular um voto para a temporada 2009 / 2010?

António Aires - O meu voto para esta temporada é a base do que penso que deve ser o nosso trabalho: aumentar o número de praticantes regulares de Orientação, de forma a colaborar no aumento de praticantes regulares de desporto, aumentando a qualidade de vida geral, melhorando a sociedade…

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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