quarta-feira, 9 de setembro de 2009

DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI DELA...



Hoje começo pelo fim e pelo Louvor da Semana, o qual vai direitinho para Tiago Aires e Raquel Costa. Querem saber porquê? Convido-vos a mergulhar no delicioso texto de Manuel Dias e nas fotos que o acompanham e encontrarão seguramente a resposta.


Gafanhori cresce com novos mapas

Até final da presente temporada (31 Dez 2010), o Gafanhori vai produzir cerca de 40 km2 de mapas em Arraiolos. Somados aos 17 km2 já existentes, esse valor representará quase um décimo da área total do concelho: 684 km2. Neste momento estão a efectuar trabalho de campo dois cartógrafos russos (Victor e Alexander Shirinian) e um português (Alexandre Reis). Numa fase seguinte chegarão dois finlandeses e um espanhol. Os mapas anteriores, de Raquel Costa e Tiago Aires, fortalecem esta riqueza assente na diversidade de terrenos e cartografias.

O anúncio deste reforço patrimonial, apoiado pelo agrupamento complementar de empresas Monte, foi feito na jornada de encerramento da época 2008-2009, que teve lugar, domingo passado, junto à lagoa do mapa da Estrelada. Na altura, foi também enfatizado o desafio que para o clube constituirá a organização do primeiro evento nacional (9 e 10 de Janeiro, com uma das etapas a contar para o WRE) e fez-se alusão às perspectivas que os novos mapas abrem à realização de mais campos de treino internacionais em Arraiolos.

A manhã começou com uma estafeta do “parceiro desconhecido”, uma ideia que o Gafanhori trouxe dos 5 Dias de Palencia, e teve o seu momento alto na mútua homenagem que os treinadores prestaram a cada um dos atletas e que estes e as suas famílias retribuíram de forma emocionada. Depois foi uma farta almoçarada à sombra dos sobreiros e, para alguns dos mais jovens, um refrescante mergulho nas águas da lagoa.

A estafeta foi disputadíssima e propiciou confraternização. Para quem não esteve em Espanha, aqui fica uma explicação deste “jogo”. Havia dois percursos (A e B) com 8 pontos cada. Os atletas foram divididos em dois grupos: os mais fortes levaram o mapa B; os outros, o A. Fez-se partida em massa. Cada concorrente tinha de controlar um mínimo de 3 e um máximo de 6 pontos. Observado este requisito, cada um voltava à zona de partida/meta quando quisesse e ficava a fazer equipa com o primeiro elemento do outro percurso entretanto chegado. Trocavam os mapas e cada um ia controlar os pontos que o colega não tinha controlado. Ganhou a equipa cujos dois elementos primeiro se apresentaram na meta com os oito pontos controlados em cada mapa. Não importa se o primeiro elemento de outra equipa tinha chegado antes: o que determina a vitória é a chegada do elemento que fecha a equipa. Tanto pode ser o mais forte como o mais fraco, depende da estratégia inicial, do número e localização dos pontos que ficaram por controlar no primeiro loop.

Dirigindo-se a todos os presentes e fazendo o balanço da época passada, Tiago Aires enumerou vários aspectos que testemunham o espantoso crescimento deste grupo formado há apenas dois anos e meio. Sublinhou, por exemplo, que na temporada anterior, a nível de competições internacionais, o clube tivera apenas um representante no EYOC e nenhum no JWOC e que agora essas representações tinham sido, respectivamente, de 6 e 2 atletas. E que a presença no grupo de selecção sofreu um implemento de 10 para 16 “gafanhoris”.

E veio a primeira surpresa. Em vez dos habituais prémios de fim de época (atleta mais assíduo, com mais títulos nacionais, melhor aluno, etc.), cada orientista foi chamado para receber uma t-shirt personalizada com a sua foto e o registo dos principais destaques da época passada. A apresentação foi muito bem feita, criando momentos de suspense que culminavam sempre em fortes aplausos.



“Gente feliz com lágrimas”

Sirvo-me do emblemático título do romancista João de Melo para abrir estes últimos paragráfos. E verão porquê. Quando já toda a gente tinha recebido a sua t-shirt e o Tiago apontava para a mesa do almoço, as mães do JP e da Inês Catalão pediram uma pausa, deram a palavra à mãe da Joana Palinha (curta mas eloquente referência à aprendizagem e gratidão) e elas próprias arrastaram para o centro do “palco” uma enorme placa de cartão em cujo verso, mostrado sem mais explicações, figurava o “mapa de honra” do concelho de Arraiolos, povoado por uma praga benigna de gafanhotos, recortados em cartolina e onde cada atleta (e pai, mãe, avó...) escreveu uma mensagem para o Tiago e a Raquel. Acto contínuo, sacaram de umas faixas com insígnias e fizeram deles “comendadores” do povo.

A Raquel não conseguiu conter lágrimas de felicidade. Para não ofender a sua modéstia, deixo esta nota sem registo fotográfico, mas espero que o momento em que, antes disso, a Rosário apontou a câmara para a assistência dê uma ideia do enlevo e concentração com que os miúdos seguiram as recomendações do Tiago para a nova época. Foram momentos de grande intensidade, que certamente reforçam os laços de pertença nesta comunidade tão especial. Fui um dos poucos elementos alheios ao clube que tiveram a privilégio de partilhar esta experiência e por isso me sinto quase na obrigação de dela dar testemunho. Com isso quero também levar, aos amigos que tenho noutros clubes, a imagem destas cenas gratificantes que podem, quem sabe, servir de exemplo e inspiração noutras circunstâncias.

Permitam-me, por fim, dizer o quanto estas me fizeram lembrar outras lágrimas de felicidade. Caíram essas há quatro anos no Japão e ficaram para a eternidade gravadas numa foto que correu mundo e que o Tiago Aires teve o bom gosto de escolher para imagem de abertura das sessões de análise que encerraram cada um dos dias do 1º OriJunior, recentemente levado a cabo no concelho de Montalegre (Salto, 30 de Agosto a 4 de Setembro). Nessa foto de catálogo, a suíça Vroni König-Salmi, medalha de bronze em Distância Longa nesse WOC 2005, chora de felicidade nos braços da sua compatriota Simone Niggli-Luder, vencedora da prova. Vroni acabara de cortar a meta. Braço, mão e pescoço ainda besuntados de lama, o copo e a garrafa de plástico também pintalgados e, no dedo anular, aquilo que presumo ser uma aliança de casamento. Destaco este último pormenor porque ele remete para a importância dos casais nesta nossa modalidade.

Nos casos de Vroni König e Janne Salmi ou de Simone Luder e Matthias Niggli é, evidentemente, o palmarés individual como atletas que está em causa. Mas há outros exemplos de excelência também ao nível de organização e treino: Stefan Maj e Paulina Majova na Eslováquia, Mykola e Tetyana Bozhko na Ucrânia, Pavlina e Joe Brautigam nos EUA, Gillian and Malcolm Ingham na Nova Zelândia, Sarah Dunn e Jon Musgrave na Grã-Bretanha, Ursula e Dieter Wolf na Suíça... A lista poderia certamente estender-se por mais umas linhas.

No caso português, nem a Raquel é Costa-Aires, nem o Tiago é Aires-Costa, mas acredito que, independentemente do enorme potencial próprio, cada um deles beneficia muito da comunhão com o outro. E essa mais-valia reverte igualmente para o grupo cujo entusiasmo acaba por multiplicar o dinamismo da liderança. Enfim, um caso sério de convergência e sinergia, como raramente acontece e que ficou tão bem ilustrado, este último domingo, na Estrelada.

Manuel Dias






[fotos gentilmente cedidas por Manuel Dias]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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1 comentário:

Mário Santos disse...

Parabéns ao GafanhOri, ao Tiago e à Raquel, pelo excelente trabalho de desenvolvimento da Orientação, com um grande investimento nos jovens, cujos resultados (não só os competitivos mas também o espírito de equipa/clube) tiveram um crescimento exponencial em tão curto espaço de tempo.

Excelente!

Saudações deportivas,

Mário Santos