segunda-feira, 29 de junho de 2009

EYOC 2009: TIAGO AIRES EM ENTREVISTA


Atenções apontadas aos Campeonatos da Europa de Jovens de Orientação Pedestre EYOC Kopaonik 2009. É com grato prazer que o Orientovar dá hoje início a mais uma grande maratona jornalística, desta feita acompanhando aqueles que nos são mais queridos, os nossos jovens. Com a ajuda deles, procuraremos fazer da emoção e da partilha as palavras-chave deste espaço nos próximos dias. E, para começar, nada melhor que escutar o grande timoneiro desta nau de sonho, Tiago Aires.

.......... “Se um português marinheiro

.......... Dos sete mares andarilho
.......... Fosse quem sabe o primeiro
.......... A contar-me o que inventasse
.......... Se um novo olhar de novo brilho
.......... No meu olhar se enlaçasse
.......... Que perfeito coração
.......... No meu peito bateria”
.......... (…)
............................... Alexandre O’Neill


Orientovar - Depois dos resultados nos Mundiais de Desporto Escolar, qual o ponto da situação em termos de enquadramento e de progressão do grupo a poucos dias deste grande compromisso internacional?

Tiago Aires - Tendo em conta a idade dos atletas convocados, todos eles têm hipóteses de voltar a participar numa grande competição internacional destinada aos escalões jovens. Isto é bem demonstrativo da juventude existente e da forte aposta que deve incidir sobre estes atletas nos próximos anos. Acrescentando a isto o facto de, ao contrário do que vinha acontecendo, haver agora objectivos bem definidos, um acompanhamento diário dos atletas e uma adequada estratégia de estágios e provas, esta época tem-se constituído num verdadeiro ponto de viragem. Basta pensar que não se fazia praticamente nada, que agora já se faz alguma coisa e que se pode fazer muito mais no futuro. É unânime que o espírito de grupo, a entrega ao trabalho e fundamentalmente o acreditar que é possível ir mais além, são uma imagem de marca deste grupo, com resultados bem visíveis nos recentes Mundiais de Desporto Escolar. Tendo como pilares estas ideias, penso que se nos agarrarmos ao pilar do trabalhar mais, os resultados serão muito melhores.

Orientovar - Quais as responsabilidades da Direcção Técnica Nacional em todo este processo?

Tiago Aires - É inquestionável que o movimento que se esconde por detrás da dedicação destes jovens, de mais trabalho, de treino específico, de pensar a táctica da Orientação, de questionar e de querer melhorar, tem muito a ver com o movimento do OriJovem. Modéstia à parte, quem já passou pelo OriJovem percebe perfeitamente do que é que estamos aqui a falar. Há quatro ou cinco anos atrás, praticamente ninguém pensava em fazer treinos técnicos, por exemplo. Mas retomando a questão, o que surgiu primeiro, foi o ovo ou a galinha? Os passos tinham já começado a ser dados, os resultados começavam a ser visíveis, mas é claro que com o aparecimento duma Direcção Técnica Nacional, com o apoio institucional da Federação Portuguesa de Orientação, tudo se tornou muito mais fácil e os resultados surgem mais rapidamente. Veja-se o caso dos Mundiais de Desporto Escolar, a possibilidade dada aos atletas de terem um estágio prévio em Madrid, o facto de se juntarem antes em S. Pedro da Gafanhoeira, o facto de se convidar um técnico da Federação Portuguesa de Orientação, tudo isto são pequenos gestos que não têm grandes custos mas que, no fim de contas. fazem grandes diferenças.

Orientovar - Esta massa humana que começa a despontar é melhor do que aquela que existia há uns anos atrás?

Tiago Aires - É melhor e é maior. Há cinco anos atrás, era raro ver um atleta que já fazia Orientação desde os 9 ou 10 anos de idade. E se os havia – e o Pedro Nogueira é disso um bom exemplo -, vamos ver que tipo de provas é que faziam e verificamos que, para além de esporádicas, eram provas que tinham muito pouca qualidade, os percursos eram desadequados e por aí fora. Agora sim, já começam a aparecer atletas que fazem Orientação de qualidade desde muito novos, como é o caso do Diogo Miguel. E aqueles que hoje têm 8 e 9 anos terão outras e melhores condições ainda no futuro. No que respeita à quantidade, não me lembro de ver um escalão de Juvenis Masculinos tão apetrechado como esta época. Dantes vinham miúdos do Desporto Escolar que nem sabiam ler o mapa, ao passo que agora há mais de uma dezena de atletas com um nível impressionante. E isto é muito interessante…

Orientovar - Muito perto de ter início o EYOC, em termos globais, que resultados podemos esperar? É-nos permitido pensar em medalhas?

Tiago Aires - Acho que não! A maior parte dos nossos jovens está num processo de iniciação nas práticas competitivas internacionais, nestes eventos mais importantes. Uma medalha no EYOC não está ao alcance de qualquer um. O título de Sprint do Diogo Miguel há dois anos atrás é uma excepção a todos os níveis, não só em termos genéticos e fisiológicos, mas fundamentalmente a nível psicológico. O Diogo Miguel passava a época em Portugal praticamente despercebido e chegava lá e parece que era de outro nível. Mas penso que não se deve sequer estar a pensar em medalhas porque todos estes jovens ainda têm hipótese de, pelo menos mais um ano, voltar àquele tipo de competições. Acresce o facto deste terreno onde irão decorrer os Campeonatos da Europa de Jovens ser diferente de tudo aquilo que temos em Portugal. É um terreno muito montanhoso, com muita vegetação, o próprio Sprint não é urbano… Mas parece-me muito positivo todos eles estarem motivados para alcançar o melhor lugar possível. E se conseguíssemos, em cada um dos escalões, um lugar nos 20 primeiros já seria fantástico.

Orientovar - Como é que foi preparado este EYOC?

Tiago Aires - Não teve nenhuma preparação específica. Por ser em terrenos muito díspares daquilo a que estamos habituados, por todo o processo estar ainda numa fase muito inicial. Mas é muito importante os atletas passarem pela experiência de participar na prova mais importante da idade deles, aumentarem a competitividade, experimentarem terrenos muito diferentes, cometerem os erros e saberem depois lidar com isso… O que eu tenho procurado motivar os miúdos é para o EYOC 2010, esse sim num terreno muito idêntico ao nosso e onde nos podemos sentir mais à vontade.

No próximo ano, sim – e eles sabem perfeitamente -, queremos ficar nos seis primeiros lugares na Estafeta. E falo nas Estafetas porque essa é uma aposta forte. Nada é mais demonstrativo da capacidade de desenvolvimento duma Federação, dum país, do que a Estafeta. Porque é revelador da capacidade de união e organização de um grupo e porque é possível ganhar sem ter os melhores atletas. Isto está farto de ser provado. As Estafetas têm muito a ver com a atitude, têm muito a ver com a táctica, com a posição em que vamos, como jogamos com os elementos, com a garra, com a determinação… Exemplo disso é a Inglaterra, actual Campeã do Mundo de Seniores, com um trio de atletas que, à excepção do Jamie Stevenson, estão muito longe do top-20 mundial. Outro exemplo é o terceiro lugar da Espanha no EYOC, em Homens 16.

Orientovar - Do EYOC, estes jovens transitam para o JWOC. Com que expectativas?

Tiago Aires - Grande parte deles não vão participar no JWOC, na competição oficial, mas vão estar na prova paralela. É uma grande oportunidade de assistir ao JWOC, apoiar aqueles que estarão a competir – e este aspecto parece-me muito importante -, fazer posteriormente as provas que eles fizeram… Isto são experiências que ultrapassam em muito qualquer estágio, qualquer treino.

Orientovar - Pode-se esperar um futuro risonho para a Orientação em Portugal?

Tiago Aires - Todas estas importantes competições são passagens. Certamente que o JWOC 2012 ou 2013 será muito importante para alguns destes jovens, ainda. Mas não nos podemos focar apenas nestes. Mais importantes são aqueles que vêm de trás. Temos agora uma série de Iniciados e de Infantis com muita qualidade, temos a Carolina Delgado, a Inês Alves, a Rute Coradinho, temos o João Pedro Casal e o Bernardo Brasileiro, que com 9 anos de idade são uma coisa abismal, conseguem fazer uma prova completamente à vontade, conseguem interpretar o mapa, conseguem sair dos caminhos… Isso vai dar muito gozo daqui a uns anos... e esperemos que continue!

[Entrevista efectuada em Coruche, no dia 20 de Junho de 2009]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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