sábado, 23 de maio de 2009

NA ORDEM DO DIA: PARA ONDE CAMINHA O COMPLEXO DESPORTIVO DO JAMOR?


O espaço público do Complexo Desportivo do Estádio Nacional, na Cruz Quebrada (Oeiras), prepara-se para ser drasticamente reduzido com a construção do Campo de Golfe do Jamor. Margarida Novo levanta a pertinente questão e avança com a intenção de se mover uma acção de embargo. Saiba tudo sobre um assunto que está, por imperativos de natureza económica, social, ambiental e moral, na Ordem do Dia.

Quando em finais de 2005 foi assinado o protocolo entre o Estado e a Federação Portuguesa de Golfe para a construção do Campo de Golfe do Jamor – um campo com 18 buracos que ocupará toda a área do antigo hipódromo e da actual pista de corta-mato -, a questão parecia pacífica. Manuel Pinho, Ministro da Economia e grande adepto do Golfe, enaltecia o cariz social, económico, turístico e ambiental do projecto, recordando o peso na economia da prática duma modalidade que, em Portugal, "gera 500 milhões de euros por ano, para além de criar um milhão de dormidas."

As intervenções a levar a cabo no Complexo Desportivo do Jamor e que incluem, para além do Campo de Golfe, um circuito de marcha e corrida circundante e a manutenção da pista de crosse, foram definidas pelo Ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, como “perfeitamente compatíveis na requalificação de toda uma vasta zona do Jamor.” Visivelmente satisfeito com o arranque do projecto, Manuel Agrellos, presidente da Federação Portuguesa de Golfe, afinava pelo mesmo diapasão, quando afirmava: "Que fiquem descansadas as pessoas do Atletismo. Quando for necessário, o Campo de Golfe do Jamor estará disponível para a realização de outros eventos desportivos”.

“A prática do golfe é incompatível com todas as outras”

Acontece que não é bem assim. Agora que as máquinas estão no terreno, a questão salta para a Ordem do Dia ao perceber-se a dimensão do projecto e as repercussões negativas que o mesmo acarreta para quem, diariamente, usufrui daquele espaço. A denúncia parte de dois frequentadores assíduos do Complexo Desportivo do Jamor, Margarida Gonçalves Novo e Leandro Silva, ambos atletas do Clube da Natureza de Alvito, ela campeã nacional de Distância Média e de Sprint em Orientação em BTT, ele igualmente praticante de Orientação, antigo praticante de Atletismo e campeão nacional de Triatlo. Margarida Novo explica: “Este campo vai ocupar mais de um terço de todo o vale (cerca de 22 ha), cuja utilização ficará totalmente vedada, sem acesso por parte dos atletas e doutras pessoas que hoje a usam para correr, andar de bicicleta, caminhar ou simplesmente passear.” E o motivo é simples: “A prática do golfe é incompatível com todas as outras, por razões de segurança óbvias.” Desta forma, “os milhares de utilizadores diários do Estádio Nacional serão espoliados dessa enorme área em benefício de uma mão cheia de jogadores de golfe”, conclui.

Manifestando a sua natural apreensão, a atleta faz questão de frisar que “as pessoas mais idosas que aí caminham regularmente ficam com menos de metade do espaço para caminhar em terreno fácil.” Mas não é tudo: “A pista de corta-mato, estrutura permanente de reconhecida importância, vai desaparecer, sem que os milhares de pessoas que a usam fiquem com qualquer alternativa. A redução do comprimento útil das instalações do Estádio Nacional vai afectar gravemente o treino de corrida e de BTT. Entre milhares de outras pessoas, vai afectar, e muito, os atletas do Centro de Alto Rendimento que aí correm todos os dias. Também o Duatlo Jovem do Jamor, uma das maiores provas nacionais, vai ficar sem espaço útil para fazer os percursos dos escalões mais jovens.” E a finalizar: “Não se realizarão mais provas de Orientação porque o Estádio Nacional deixará de ter dimensão suficiente.”

“Totalmente inútil e ruinosa”


Em mensagem enviada ao Secretário de Estado da Juventude e Desporto, Laurentino Dias, Margarida Novo expõe estas e outras razões para contestar a construção duma estrutura que considera “totalmente inútil e ruinosa” [a este propósito, vale a pena reflectir sobre o artigo de Fernando Nunes Pedro, publicado no blogue Portugal Golf
e que pode ser lido AQUI]. Na missiva, a autora faz a seguinte observação: “Pergunta-se com certeza porque é que as federações e clubes que representam o Atletismo, o Triatlo, a BTT ou a Orientação não reagiram. Pois eu respondo-lhe: porque têm medo de perder os subsídios que lhes são atribuídos por V. Exa. e pelo IDP e porque têm medo de serem excluídos das vossas parcerias. Acontece que as federações e os clubes podem não reagir (como deveriam), mas pode ter a certeza que os atletas de todas essas modalidades estão frontalmente contra esse projecto e não lhe perdoarão se o deixar seguir para a frente.” E termina com uma exortação: “Senhor Secretário de Estado, as pessoas que usam o Estádio Nacional podem não ter voz para se fazerem ouvir porque quem as representa optou por se manter calado, mas não devem ser subestimadas.”

Margarida Novo estuda agora a possibilidade de, em conjunto com um grupo de outros utilizadores frequentes do Estádio Nacional, avançar com uma acção popular para embargar a construção do dito campo de golfe. As razões são, no seu entender, mais do que válidas: “A verdade é que este projecto vai comprometer irremediavelmente as possibilidades de treino de corrida e bicicleta de montanha em zona plana, pois o Estádio Nacional deixará de ter comprimento suficiente para o efeito, bem como os treinos e provas de corta-mato.” Mas para além do interesse público, e de razões de natureza económica - o Campo de Golfe do Jamor custará cerca de cinco milhões de euros, dois terços dos quais suportados pelo Estado -, acrescem razões de natureza ambiental: “Consideramos um atentado ao ambiente a construção de mais um campo de golfe, com tudo o que isso representa.”

Não fique indiferente

Como atleta e como cidadã, Margarida Novo não tem dúvidas: “Temos de lutar por este país, mesmo que a luta tenha de se fazer ao nível da célula mais simples da sociedade, o indivíduo.” A terminar, deixa um apelo: “Neste momento, só temos o apoio de alguns particulares, em número insuficiente para avançar com uma acção desta natureza... Se na próxima semana não conseguirmos um número razoável de aderentes, vamos ter de desistir, pelo menos desta abordagem. Por este motivo, gostaríamos de contar com a toda a ajuda possível.”

Se porventura não ficou indiferente a esta situação e sente ser seu dever denunciá-la, ajudando a inverter o rumo dos acontecimentos e contribuindo desta forma para sustentar a acção de embargo, envie a sua mensagem de apoio para o endereço
margaridagnovo@sapo.pt.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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5 comentários:

Paulo Pt disse...

A Afirmação carece de sustentabilidade...
“Consideramos um atentado ao ambiente a construção de mais um campo de golfe, com tudo o que isso representa.”
Um campo de golfe moderno, não é atentado ao ambiente.

Não vou tomar partido, não conheço o projecto, o pouco que conheço do Jamor, e de má memoria um local abandonado...

O 1º campo publico de golfe, para um universo de 20.000 jogadores portugueses federados, só um campo publico... vá lá... tenham dó...

Adoro orientação e golfe... há lugar para tudo, e um campo de golfe, pode seer fechado á bolinha, para dar lugar a provas internacionais de "o", corta mato, etc...

Saudações

Margarida Novo disse...

Paulo,

Vamos deixar a discussão de questões ambientais para outra ocasião. Sabia que há cerca de 20 campos de golfe públicos na região de Lisboa, onde qualquer um pode jogar por menos dinheiro do que gasta hoje nas actuais instalações da Federação Portuguesa de Golfe no Estádio Nacional para bater umas bolas no driving range? Desses 20 campos, há pelo menos 3 a menos de 15 minutos do Estádio Nacional e talvez uns 10 a cerca de meia-hora.

Por isso, não me venha dizer que este campo seria o primeiro campo público em Portugal porque isso é uma redonda mentira: há cerca de 70 campos públicos em Portugal; não há é nenhum construído pelo Estado, mas não me parece que faça falta...

Por outro lado, o que acha de reservar mais de metade de todo o vale dum complexo desportivo público, utilizado diariamente por milhares de pessoas, a um grupo que não vai ultrapassar (mesmo no cenário mais optimista) as 100 pessoas por dia?

E será que acha mesmo que alguém vai caminhar, correr ou andar de bicicleta no meio do campo de golfe? Tenha dó...

E já agora, uma vez que joga golfe, o que acha de enfiar 18 buracos em 22 ha? Uma proeza da concepção de campos de golfe, não é? Segundo parece, normalmente usa-se mais do dobro dessa área... Deve ser um campo à imagem do Portugal dos pequeninos...

Note que ninguém está contra melhorar e expandir com razoabilidade as actuais instalações da Federação Portuguesa de Golfe, muito pelo contrário. Não somos fundamentalistas; estamos é contra mais um elefante branco...

Como disse, não conhece o projecto, mas está a tempo de ser informar.

Saudações
Margarida Novo

Luís Santos disse...

Eu compreendo a necessidade de radicalizar o discurso no sentido de chamar a atenção da população em geral para este problema.

Há neste texto opiniões claramente excessivas que eu critico. Destaco a que refere que nunca mais haverá provas de orientação com este projecto de golfe.

Devo frizar que o mapa de orientação pedestre nem sequer é afectado (já se fizeram mais de 20 eventos no Jamor e nenhum pedestre utilizou um centímetro que seja desta área do golfe) porque todo o projecto mesmo com a sua dimensão acenta em áreas semi-abandonadas e sem qualidade para a prática da orientação pedestre.

O mapa de OriBTT produzido no ano passado é que engloba esta área (e a área urbana de Linda-a-Velha).

Pela coexistência dos vários desportos no Jamor parece-me muito mais problemática a existência do Campo de Tiro inserido esse sim, numa das zonas mais interessantes do Jamor para a prática da Orientação.

Saudações desportivas,
Luís Santos

Margarida Novo disse...

OK, Luís, para ser ainda mais radical, então dou-lhe mais duas informações... Sabia que está em estudo a construção de instalações permanentes para o Estoril Open e para a João Lagos Sport nas áreas adjacentes aos campos de ténis? Sabia que há um projecto imobiliário para a colina junto à prisão de Caxias que pretende utilizar os estacionamentos sudoeste do Estádio que normalmente só são usados na Taça de Portugal e em grandes eventos? Será que isto é tudo coincidência?
Pois é, se calhar até se consegue continuar a organizar lá provas de orientação pedestre, sabe bem mais disso que eu, mas uma coisa é certa, há milhares de pessoas que vão ser postas na rua desse espaço e isso não está certo.

Saudações,
Margarida

Ricardo Telmo disse...

E mais 1 exemplo do servilismo, e das pressoes de certos lobies poderosos que dominam este pais. O jamor devia ser 1 espaco global de todos os desportos, sobretudo direcionados para a populacao geral, e nao para 1 grupo restrito.
Ainda falam em levar a pratica desportiva a todas as pessoas...