sábado, 9 de maio de 2009

GRANDE ENTREVISTA: ANTÓNIO AIRES E OS PRIMEIROS QUATRO MESES NO CARGO DE DTN


Tomou posse do cargo de Director Técnico Nacional no início do ano e hoje traça para o Orientovar um primeiro balanço daquilo que já foi feito e do muito que ainda há por fazer. Entre ideias e projectos, sonhos e pés bem assentes na terra, António Aires está no centro deste autêntico Processo Revolucionário Em Curso para o classificar de “Revolução Lenta”.

Orientovar - Quatro meses após a tomada de posse, que balanço faz o Director Técnico Nacional deste seu mandato até ao momento?

António Aires - Se por um lado o tempo foi muito pouco para se pegar em todos os projectos que ambiciono trabalhar, por outro foram quatro meses onde se multiplicaram as ideias e se aprofundaram vários desses projectos. Se por um lado foi tempo de ouvir os atletas, os dirigentes, os clubes, por outro foram quatro meses onde se deram já muitos passos em frente e onde se conseguiu dar o abanão que era urgente dar em algumas estruturas e ‘ideias feitas’ herdadas do passado. Algumas pessoas foram sendo atraídas para toda esta dinâmica trazendo ainda mais ideias. Nalgumas áreas tem sido uma verdadeira bola de neve. Noutras está ainda tudo por fazer.

Orientovar - Sente-se que há uma enorme vontade e ambição em levar por diante projectos que consolidem o trabalho já feito e abram perspectivas duma maior qualidade competitiva da nossa Orientação. Quais as grandes dificuldades sentidas nesta tentativa de os implementar?

António Aires - A dificuldade base é quase sempre a financeira. Somos uma Federação pobre num país onde tudo no desporto (excepto o futebol) é pobre. Mas as dificuldades não se limitam a estas questões. Por vezes as mentalidades são um entrave ao desenvolvimento e a Orientação também tem a sua dose de ‘Velhos do Restelo’. Temos é de parar de chorar e seguir em frente, não deixando que as limitações financeiras nos impeçam de fazer o que tem de ser feito em prol do desenvolvimento da Orientação. Um bom exemplo é o trabalho que tem sido feito com os jovens e Grupo de Selecção na Orientação Pedestre onde, apesar de se utilizar uma política de enorme controlo das despesas, ficou provado que, com algum engenho e muito voluntariado, se consegue fazer um trabalho muito mais aprofundado e com outras perspectivas de futuro do que o que vinha sendo feito até há pouco tempo. De referir aqui o voluntariado de muitos orientistas que têm contribuído das mais diversas formas na organização dos estágios e outras actividades.

Na Orientação em BTT a grande dificuldade é, sem dúvida, a falta tanto de atletas jovens como de técnicos. Infelizmente observa-se que a Orientação em BTT, ao contrário da Orientação Pedestre, não é vista como uma modalidade de família e que o crescimento do número de praticantes ao longo dos últimos anos não se reflecte no número de jovens a participar, o que poderá ter enormes implicações negativas no futuro da modalidade. E sem quantidade só teremos atletas de qualidade de forma pontual. Assim, teremos de apontar os nossos esforços para o desenvolvimento de iniciativas como o OriJovem BTT e de divulgação da modalidade nas Escolas, de forma a tentar criar uma dinâmica semelhante à conseguida na Orientação Pedestre para se lançar as bases quantitativas que permitam depois um aumento qualitativo sustentado.

Orientovar - Fazer chegar a Orientação ao grande público implica, ainda e sempre, um enorme esforço. Nesta perspectiva, o Dia Nacional da Orientação correspondeu às suas expectativas?

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António Aires - Fazer chegar a Orientação a 10 milhões de pessoas é um trabalho que irá durar uma vida e que não se resume ao Dia Nacional da Orientação. No entanto, esta iniciativa sem dúvida que mostra o caminho a seguir. Penso que o primeiro Dia Nacional da Orientação, no dia 14 de Março, foi um bom início, mas serviu principalmente para analisarmos as suas potencialidades. Quanto a mim, o objectivo base não deve ser a organização do máximo possível de actividades, mas sim trazer o maior número possível de novos praticantes. Aliás deveríamos medir o sucesso deste dia não pelo número de praticantes, mas sim pelo número de NOVOS praticantes. E deixo um desafio para o Dia Nacional da Orientação 2010: Os grande responsáveis pelo seu sucesso não podem ser apenas os Clubes / dirigentes que organizam as actividades, mas sim cada um dos orientistas que se deverá responsabilizar por trazer pessoas novas a praticar nesse dia e esforçar-se para que elas tenham uma experiência o mais agradável possível.

Orientovar - O trabalho com os mais novos continua a ser uma grande aposta. Como é que avalia a enorme procura sentida nas duas últimas edições do OriJovem?

António Aires - Não é fácil compreender integralmente este súbito aumento no número de participantes no OriJovem. Passámos de uma média de 70 participantes até ao 9º OriJovem para 140 nos dois seguintes! Sem dúvida que um dos factores é a qualidade do trabalho desenvolvido, que tem satisfeito jovens, pais e clubes. Mas também é um reflexo do aumento da popularidade da Orientação na população em geral, da sua integração com o Desporto Escolar e também da imagem que a modalidade tem de modalidade com grande potencial pedagógico. Ironicamente, este aumento de jovens como resultado da qualidade dos estágios, fez descer essa mesma qualidade criando enormes dificuldades logísticas e de acompanhamento principalmente no que diz respeito aos mais novos. Cientes de que esta diminuição da qualidade não é aceitável, optou-se pela divisão em dois, passando o OriJovem a ser direccionado apenas aos mais jovens, com actividades exclusivamente de Iniciação e Formação, e criando-se o OriJunior, que será um estágio preparado para os atletas de nível mais elevado, cujos treinos serão direccionados para o aperfeiçoamento e competição. Por outro lado, quando actualmente se fala em OriJovem, temos também de pensar no OriJovem BTT que estamos a tentar que ganhe alguma dinâmica de forma a trazer à Orientação em BTT alguns dos frutos que o OriJovem trouxe à Orientação Pedestre.

Mas a aposta nos mais novos não se faz sentir apenas no investimento nos OriJovens, mas também nas Selecções, onde se começa a reflectir o trabalho feito nos OriJovens e no Desporto Escolar. Aliás é interessante observar nos estágios do Grupo de Selecção a diferença de atitude e comportamento entre os mais jovens que receberam a sua educação desportiva nos OriJovens e alguns dos mais velhos que cresceram na Orientação com um espírito e atitude desportivas completamente diferentes e com carências principalmente ao nível da disciplina e dos comportamentos em grupo.

Orientovar - Como é que viveu a presença dos nossos 40 jovens atletas nos Mundiais ISF Madrid 2009 de Desporto Escolar?

António Aires - Infelizmente não tive oportunidade de ir com a comitiva, pelo que vivi o Mundial através do Orientovar. Os resultados na sua generalidade voltaram novamente a melhorar, fruto também do trabalho de preparação que foi feito pela Federação Portuguesa de Orientação especificamente para esta competição. Mas o que mais me marcou nesta participação foi o enorme espírito de grupo e amizade entre todos os atletas, que na realidade é o objectivo base da ISF na organização destes Mundiais de Desporto Escolar. Este aspecto social é essencial para a criação de laços fortes dos jovens com a modalidade, de forma a impulsioná-los não só a continuar a apostar no treino e na evolução, mas também a praticar Orientação com prazer durante toda a sua vida. Por outro lado, momentos como este são únicos não só para os atletas como de uma forma mais geral para o desenvolvimento da modalidade, devido a toda uma dinâmica que é gerada principalmente no que diz respeito ao intercâmbio entre o Desporto Escolar e o Desporto Federado, levando a um aprofundamento e consolidação da importante relação entre a Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular e a Federação Portuguesa de Orientação.

Orientovar - Com a época a aproximar-se do fim e as grandes provas aí à porta, nomeadamente no capítulo internacional, quais os grandes desafios que se colocam ao Director Técnico Nacional num futuro próximo?

António Aires - Na Orientação Pedestre, o desafio é manter a dinâmica de desenvolvimento gerada nestes primeiros meses, consolidando na próxima época os modelos de trabalho que estão aos poucos a ser criados. É também crucial criar uma equipa de técnicos estável e competente, que permita o acompanhamento permanente dos atletas e que interligue num só projecto global todas as etapas de desenvolvimento e todos os escalões etários, desde os Laranjinhas nos OriJovens até aos Seniores da Selecção Nacional. A criação desta estrutura está já numa fase adiantada e no início de Junho divulgaremos os seus moldes de funcionamento para 2009/2010. Na Orientação em BTT o desafio é o aumento do número de jovens praticantes, quer seja através do OriJovem BTT, da criação de grupos no Desporto Escolar, da sensibilização para os praticantes mais velhos criarem condições para os filhos experimentarem, etc. Para além da falta de jovens temos de lidar também com a falta de técnicos, devido principalmente ao facto de ser uma modalidade organizada ainda muito recente.

Outro desafio de peso, é talvez o projecto mais importante ainda não iniciado: tornando-se cada vez mais óbvio de que a Escola é o local com mais potencial para angariar praticantes, é urgente iniciar o projecto de desenvolvimento da Orientação nas Escolas, dando aos professores formação e ferramentas de trabalho e criando ligações entre as Escolas e os Clubes que serão a base da continuidade da Orientação em cada Escola.
Relativamente à competição nacional, o desafio passa por simultaneamente tentar aumentar o número de participantes regulares (principalmente nas provas regionais) e por outro enquadrar a época desportiva com o calendário internacional de forma a permitir uma mais correcta preparação dos nossos atletas dos Grupos de Selecção. Estamos a preparar um conjunto de alterações para tentar perseguir ambos os objectivos em simultâneo, com o mínimo de impacto possível na estabilidade actual do quadro competitivo.

O que pode parecer um pormenor mas que é um factor muito importante no nosso desenvolvimento competitivo, é a baixa qualidade que ainda se encontra em muitos traçados de percursos nas competições nacionais, resultado também da falta de formação adequada, questão que estamos já a tentar corrigir alterando a estrutura e exigência dos respectivos cursos com o objectivo de, dentro de dois anos, termos um conjunto mais vasto de Traçadores de Percursos com as competências necessárias às exigências actuais dos nossos atletas.

Quanto às duas restantes modalidades da FPO, as Corridas de Aventura carecem ainda de uma análise a realizar sobre qual o papel que o Director Técnico Nacional poderá ter no seu desenvolvimento e de qual o caminho a seguir. Resta falar no Trail-O que tem sido alvo apenas de algumas actividades muito esporádicas mas onde talvez estejam agora a ser lançadas algumas sementes que permitam perspectivar algum trabalho de continuidade mais duradouro.

Orientovar - Enquanto Director Técnico Nacional e depois desta tomada de pulso ao estado actual da Orientação, considera que a evolução da modalidade em Portugal passa por acções pontuais ou a grande revolução está por fazer?


António Aires - Primeiro temos de pensar “o que seria uma grande revolução para a Orientação”. Para mim seria aumentar consideravelmente o número de praticantes regulares. Termos resultados internacionais de relevo seria bom mas o objectivo máximo deverá sempre passar por florestas cheias de gente a praticar Orientação. E como a quantidade é uma das bases para a qualidade... Mas esta “revolução” não acontece de um dia para o outro. Ela poderá resultar sem dúvida de uma estratégia global, mas cujos frutos irão nascendo lentamente ao longo do tempo. E na realidade uma revolução baseada numa estratégia global só funciona se depois dedicarmos grande esforço à intervenção pontual. Penso que lhe poderemos chamar de “Revolução Lenta”.
E esta “Revolução Lenta” depende muito de conseguirmos responder aos desafios de que falei acima.

Orientovar - Quer partilhar connosco um sonho?

António Aires - Um mundo onde a prática de modalidades como a Orientação fosse generalizada, porque isso sem dúvida que alteraria o estilo de vida da população, alterando também a própria Sociedade para melhor. Em relação à nossa realidade nacional concreta, gosto de sonhar com um país onde a prática da Orientação é tão expressiva como nos países nórdicos. Será possível?

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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