domingo, 10 de maio de 2009

CAMPEONATOS NACIONAIS DE SPRINT 2008 / 2009: DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI DELES...


1. Aproximou-se quase a medo e, com a mais viva expressão da sua admiração, exclamou: “ – Que coisa fantástica!” Olhei para ele, assenti com um gesto de cabeça e por momentos parei aquilo que estava a fazer para, eu próprio, observar o homem em silêncio. Neste verdadeiro ponto de confluência, algures no coração da cidade, não perdia pitada de todo aquele movimento, de tão belo espectáculo. Adivinhei-lhe no olhar a nostalgia de quem, no vigor da juventude, terá atravessado a correr estas mesmas praças e ruas, e também esse enorme entusiasmo de se sentir figurante num filme rodado ali mesmo, a seus pés. De súbito, envergando o mesmo equipamento, pai e filho estacam a dois ou três metros de nós. A mesma posição curvada sobre o mapa, o mesmo olhar concentrado, um gesto que se multiplica por dois, braço bem estendido a indicar o caminho certo antes de seguirem de novo a correr. Quando parte, o homem leva um brilhozinho nos olhos, deixando-me com esta em jeito de despedida: “ – Precisei eu de viver até aos 73 anos para ver uma coisa assim tão fantástica!” Fiquei a pensar se a palavra Orientação lhe diria algo.

2. O despertar da cidade faz-se ao ritmo de cada um, hoje que é sábado e a tirania do relógio não obriga a madrugar. O comércio tradicional no centro histórico preserva ainda muita da sua vitalidade de outrora. Nas esplanadas põe-se alguma da leitura de fim-de-semana em dia, conversa-se em barbearias e cafés, as mercearias conservam muito do seu encanto expresso no mobiliário de décadas e na forte mistura de adocicados aromas. Aos poucos as ruas vão-se engrossando de gente e os espaços tornam-se exíguos para quem, de mapa na mão, deve romper por entre a multidão em busca do melhor tempo. Vejo agora que os primeiros a partir acabaram por ser privilegiados face à quase intransitabilidade de algumas ruas à medida que os ponteiros avançam. Mas entre fazer uma prova com as ruas apinhadas de gente e fazer uma prova com as ruas desertas, eu prefiro claramente a primeira hipótese. Mesmo que este “factor externo” possa ter um peso e uma medida quantificáveis nos resultados finais.

3. São em número de cinco os utentes que, do Hospital da Prelada, se fazem acompanhar das suas cadeiras de rodas para participar no Trail-O. A viagem, com uma série de peripécias de permeio, termina em Almeirim, duzentos quilómetros e quatro horas após o seu início. À espera do grupo está uma prometida Sopa de Pedra, que isto de vir a Almeirim e não degustar tão celebrada iguaria é como ir a Roma e não ver o Papa (para alguns é ainda mais grave!). Pois bem, sondadas as acessibilidades junto de vários Restaurante e no seu interior, conclui-se que o sonho não será realidade. Pelo menos por agora. O remédio é comer o farnel que do Porto veio na mala da carrinha e esperar por melhores dias. Resta apenas o Trail-O para “salvar o dia”. Mas a sorte será uma vez mais madrasta para com o grupo. Os relâmpagos riscam o céu e uma chuvada quase tropical arrasta consigo, na enxurrada que corre em todas as direcções, as esperanças do grupo. Que regressa ao Porto de mãos a abanar e com o desgosto na alma.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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1 comentário:

Mário Santos disse...

Apenas três palavras: "Que coisa fantástica!"

A transcrição desta expressão proferida por um anónimo de 73 anos e testemunhada pelo Joaquim Margarido (que consegue estar em todo o lado e ver/ouvir as coisas simples - mas significativas - a que muitas vezes não ligamos, por acharmos normal), atesta bem do impacto que uma prova de orientação urbana pode ter nas pessoas. A surpresa primeiro (por não estarem à espera - o que é isto?) e a curiosidade depois (o que é que eles andam a fazer) foram decerto dos dois estados de espírito mais frequentes na maioria dos transeuntes que passavam ou andavam na zona de prova, em Santarém, no passado sábado.

Ao lermos estas 3 palavras "Que coisa fantástica!" não pude deixar de me emocionar por ter a felicidade de poder praticar uma modalidade tão completa como a Orientação.

Saudações,

Mário