sábado, 21 de março de 2009

"QUANDO A REALIDADE SE TRANSFORMA EM SONHO", OU DE COMO MANUEL DIAS VIU O DIA NACIONAL DA ORIENTAÇÃO


QUANDO A REALIDADE SE TRANSFORMA EM SONHO

No autocarro, do Sabugueiro para Arraiolos, o cansaço falou mais alto. Eram quase cinco da tarde. Estávamos a pé desde as sete da manhã e íamos para o nosso sexto sprint urbano. Acordaram-me à entrada da vila, depois de um sono rápido e carregado de sonhos.

Sonhei que havia uma enorme tenda branca no adro da igreja, na Igrejinha. Lá debaixo, duas mesas. E, nelas, todo o aparato de um secretariado a sério. A Bela, com uma letra muito redondinha, toma nota das inscrições. Que disparate! Isto só mesmo em sonho. O que é que faz aqui a Gina, de Évora? A última vez que soube dela foi há três meses por um postal de boas-festas enviado da Alemanha. E agora está aqui com uma sobrinha e uma amiga, a Caetana. Só posso estar a sonhar.

Ó Amaro, deixe lá o autocarro, vamos ali tomar um café, para ver se eu acabo de acordar. Havia de ter piada que este restaurante fosse o do mano da Jacinta Calhau. Para mim, durante muitos anos, quando a Fernanda Azougado nos juntava a todos na sua casa de Évora, a Igrejinha era apenas o nome da terra onde o irmão da Jacinta tinha um restaurante. Nem de propósito, estava agora ali a tomar um café que o Amaro havia de pagar. Havia... mas não pagou. A tal Caetana antecipou-se-lhe. Eu não protesto. Deixei a carteira, e mais a máquina fotográfica, num bolso do blusão, dentro da carrinha que percorre agora as ruas da aldeia. A Lena Coradinho, com a cabeça fora da janela, grita para o altifalante: “Venham todos, tragam a família, não se paga nada, às nove no adro da igreja, venham fazer um passeio com uma mapa de Orientação!”

Do Sabugueiro até S. Pedro é quase só uma recta de 4 ou 5 km. Não há curvas nem trepidações. Ideal para adormecer depois dos 3 treinos de ontem e dos 5 sprints de hoje. Deixem-me dormir, deixem-me sonhar.

Onde se fala de Alceu e Omar Khayyam

Sonhei que finalmente estava no Vimieiro. Há talvez uns dois anos copiei de um artigo de jornal a palavra Sulitânia, estranho nome para um restaurante ou taberna de que se diziam as maiores maravilhas. E depois descobri num blogue (
http://opulguedo.blogspot.com/2006/12/sulitania.html) um mimo de prosa onde se (re)citam os versos dos meus idolatrados Alceu e Omar Khayyam. Punha as mãos no fogo em como o Margarido não resistirá a lê-lo e, lendo-o, não resistirá a conhecer o seu autor. E então, sim, da sua inimitável pena nascerão as palavras justas para homenagear a vida e a arte de quem, filiado na tradição de gregos, romanos e árabes, faz reviver no Alentejo o perfume milenar dessas “capelas” de comes e bebes.

“É preciso não entregar o coração ao infortúnio”. De cada vez que vou para aquelas bandas, penso sempre: desta é que não escapa, vou mesmo ao Vimieiro provar os petiscos do Joaquim Pulga. Mas, digam-me lá, como é que eu podia ir dar ao dente no Vimieiro se estou a dormir e a sonhar, completamente esgotado, dentro do autocarro, a caminho de Arraiolos.

Vejo de novo, no sonho, a grande tenda branca e a mesma azáfama de há pouco. Mas são agora outras as formiguinhas que se afadigam nas diferentes tarefas. A mestra Raquel programou quatro equipas de obreiras: duas encarregam-se de montar e desmontar o percurso aqui, ficando a próxima localidade a cargo das outras duas. A equipa que vai montar em Santana do Campo deixará o Vimieiro um pouco mais cedo, de modo a instalar os controlos antes de nós lá chegarmos. Um autocarro e três carrinhas asseguram o cumprimento da estratégia delineada pela Raquel e o Tiago.

O plano de actividades e respectivo organograma estão, há vários dias, afixados na sede do Gafanhori. Ontem à noite, depois do treino físico das sete, a Raquel reuniu os chefes de equipa e lembrou sumariamente o que cada um havia de fazer. Admirei-me que ninguém tivesse dúvidas. Aquilo foram só umas meias palavras. E não é que a coisa hoje está a funcionar na perfeição. A Raquel: “Ó Manel, qual é a dúvida? O plano estava lá afixado há que tempos e, depois, eles estão habituados a participar na organização de provas e treinos. Desde o princípio começámos a dar-lhes responsabilidades e eles assumem-nas com a maior naturalidade.” Lembro-me, realmente, de um dia ter comentado com o Dionísio: “Viste os miúdos da Gafanhoeira? Foram eles que se encarregaram de tudo na prova desta manhã - secretariado, partidas, bar, som... O Tiago e a Raquel só lá andavam a supervisionar.” Isto foi a 24 de Fevereiro de 2008. Mas hoje estamos a 14 de Março de 2009 e eu continuo a dormir e a sonhar dentro do autocarro, algures entre o Sabugueiro e Arraiolos.

O Cristiano Ronaldo ao lado dos noivos

No meu sonho estamos agora a chegar a Santana do Campo, o terceiro mapa novo desta manhã. Para trás ficaram a Igrejinha (percurso de 1100 m, com Paulo Falcão a fazer 6.02) e o Vimieiro (2100 metros, para 9.49 do Paulo). Ignoro aqui os 6.00 e 9.34 do Tiago. Dos meus tempos não reza a crónica. Prefiro registar a percepção nítida que tive da diferença de escalas: 1:3000 na Igrejinha, 1:4000 no Vimieiro. É espantoso como isso se sente nas pernas e no relógio, ou seja, na cabeça. Aqueles 10 metros a mais em cada centímetro tornam as ruas incrivelmente mais compridas.

Agora em Santana, com um mapa de 1:2500... Mas o que é isto? Um casamento? Eu sei que estou a sonhar, mas não é preciso ser tão louco. Não vou pôr os atletas a correrem no meio dos convidados. Como é que, nestas circunstâncias, o Manuel Horta pode alguma vez fazer 5.24 nos 1100 metros do percurso? E ainda por cima com o sol do meio-dia a abrir-nos a pinha (antes que, logo mais, no baile da dita, a Helena Falcão, irmã do Paulo, arrebate o título de rainha da noite). Eh, vocês aí, deixem passar o senhor da rádio, vai certamente entrevistar os noivos. Ah não! Então é quem? O Tiago Aires?! Esse mesmo, em directo para o noticiário das 12h na Rádio Telefonia do Alentejo. Mais uma lança na áfrica da comunicação. Quarta-feira tinha sido quase meia página no “Diário do Sul”, que foi onde a Caetana viu a notícia que levou a minha amiga Gina à Igrejinha.

Uma inscrição a azul destaca-se sobre a porta da igreja de Santana. Quatro anos antes de Fernando Pessoa e o meu avô terem nascido, o bispo de Évora, de hissope em punho, imaginava eu, teria benzido o novíssimo templo. Quatro algarismos, agora ali escarrapachados diante dos nossos olhos, evocariam a data da inauguração: 1884. Ainda bem que os noivos, compenetrados das suas inalienáveis responsabilidades, e os atletas, inebriados pelo orgulho do Dia Nacional da Orientação (DNO), nem se deram conta da referida data. É que ela ingenuamente esconde outras muito mais importantes. A igreja cristã remonta ao século XV e integrou na sua construção as ruínas de um templo romano (séc. II/III d.C.), classificado como “monumento nacional”. Santana do Campo já teve outro peso na história, foi inclusive sede de freguesia, mas é pouco provável que algum prelado tenha vindo inaugurar qualquer melhoramento na igreja em 1884.

Não há dúvida, estou mesmo a sonhar. Só isso explica que tenha visto o Cristiano Ronaldo a andar por aqui de mapa na mão. Ele ou a cara dele estampada numa t-shirt que um rapaz de 8 ou 9 anos enverga com ar triunfante. E foi assim que o goleador do Manchester deu o seu contributo para o recorde de participações (68) no circuito do Gafanhori neste DNO. Esse número haveria de ser igualado em Arraiolos, mas lembrem-se que eu ainda lá não cheguei: continuo a dormir no autocarro depois da quinta etapa.


Os 70 anos da Ti Mochila, do Ti Ratão e da Ti Estrela

Não é tarde nem é cedo, vou aqui fazer uma pausa no sonho e desafiar o Amílcar Roberto para umas postinhas de peixe frito e umas rodelas de paio na Sociedade Recreativa da Gafanhoeira. Não tarda soam aí as duas badaladas depois do meio-dia e espera-nos a quarta etapa aqui mesmo em S. Pedro. As balizas já estão no terreno e a famosa tenda branca estica a sombra de uma parede no adro da igreja. Eh pá, isto aqui mete respeito. Quem é esta gente toda com ar de pais, mães e avós? Será que vão também fazer o percurso? E sabem ler o mapa?

Ó Amaro, carregue aí no pedal para ver se eu volto ao sonho. Não há como sonhar para ver as coisas com clareza. Aqueles ali, diz-me alguém, são os pais da Rita Rodrigues, aqui os da Teresa Maneta, mais além os da Inês Catalão. Estas duas senhoras, não preciso que mas apresentem, são a Mariana e a Palmira, que me receberam ontem em sua casa para provar o vinho do pai Valério e o humor fino da mãe Mariana. Vejo também as mães do Paulo Falcão e da Ana Salgado, os pais do JP, a mãe da Bela. Razão tem o Amílcar para dizer que isto lhe faz lembrar o conceito de orientação na Escandinávia: um desporto de família. Ele, que viveu tantos anos na Suécia, sabe do que fala.

O Feliciano Ribeiro, armado com a sua máquina fotográfica ao cima de uma rampa, num ângulo da igreja, há-de apanhá-los a todos a caminho da meta. Alto aí! Há aqui gente que já dobrou os 70. Aquele é o Ti Ratão e esta a Ti Mochila e ainda a Ti Estrela. Num caminhito apertado onde já ninguém passa, cheio de pedras e erva vadia, fogem-lhe à Ti Estrela os pés do chão e, catrapus, vai de costas ao relvado. Pensam que se magoou? Toda a gente com um ar aflito e ela vá de gargalhar.

Na senda de Tervo e Gueorgiou

Ó Ti Estrela veja se ri mais baixo, senão ainda me acorda antes de Arraiolos e lá fica sem relato a etapa do Sabugueiro. No meu sonho, foram montar a tenda branca exactamente no sítio onde ontem deixei o carro quando aqui vim treinar. Nuns cabeços a sudoeste da aldeia foram montados uns cavaletes de madeira que funcionam como pontos de controlo de um percurso permanente. As minhas sapatilhas já lá andaram palmilhando, a milhas da técnica e velocidade deles, mas se calhar pisando nalguns sítios a mesma terra que pisaram os sapatos do finlandês Tuomas Tervo ou do francês Thierry Gueorgiou. O Gafanhori tem dezenas desses controlos montados em vários mapas do Alentejo e, na sua sede, há mais umas centenas de estacas aguardando disponibilidade para serem instaladas no terreno. Que venham as selecções da Escandinávia ou da França e Suíça. Terrenos e mapas não faltam para os seus campos de treino.

Mas esta parte do sonho está aqui deslocada. O percurso de hoje é apenas na zona urbana, de modo a ser mais rápido. Mas não tanto que permita ao Gregório Piteira fazer cinco tal nos 1600m. Os 7.15 do Paulo e, sobretudo, os 6.49 do Tiago deram para perceber que algo de anormal se passou com o cronómetro do Grigas. Bom, digam aí ao José Canoa que ponha a equipa B a desmontar o percurso. Temos de nos apressar para Arraiolos.

Último sprint na sede do concelho

Este texto já ultrapassou todas as medidas. Tenho de pôr um ponto final nisto, até porque a Adelaide, a mãe do Tiago, espera-nos com umas gambas e um lombo recheado dignos do “Terras do Pó” que o Sebastião e eu nos encarregaremos de fazer evaporar. Mas antes de apanharmos o autocarro de regresso à Gafanhoeira, com quase 12 horas de frenesim no pêlo, deixem-me assinalar o balanço altamente positivo desta jornada, que o pessoal do Gafanhori, trabalhando durante tanto tempo e de uma forma tão empenhada e competente, conseguiu levar a cabo com um apoio autárquico que podia talvez ter sido mais expressivo, se compararmos com os recursos disponibilizados para outras iniciativas.

Sabemos como é difícil dar visibilidade à orientação seja em que país for, mas a dinâmica desta modalidade na Gafanhoeira merecia uma atenção também invulgar por parte dos poderes autárquicos. O trabalho que o Tiago e a Raquel desenvolveram em apenas dois anos, o extraordinário sucesso de alguns jovens e o reconhecimento internacional da qualidade técnica dos seus campos de treino fazem desta comunidade um caso de sucesso absolutamente ímpar no panorama mundial. Nessa medida, não é deslocado pedir às instituições que tenham a visão necessária para acarinharem o tesouro que lhe foi posto nas mãos.

Manuel Dias
.
[slideshow editado a partir das fotos gentilmente cedidas por Tiago Aires e que podem ser vistas na totalidade em http://picasaweb.google.com/Gafanhori/DiaNacionalOrientacao?feat=embedwebsite#]
.

1 comentário:

Vitor disse...

Mas que belo sonho Manel.
Tens toda a razão sobre o trabalho que o Tiago e a Raquel tem desenvolvido, é de facto digno dos mais rasgados elogios e merecedor de todo o apoio e carinho.
O que mais admiro é a maturidade que evidenciam nas suas iniciativas apesar da sua juventude.