domingo, 15 de fevereiro de 2009

NAOM'09 ALTER DO CHÃO: CRÓNICAS (III)


CONTA-ME UM CONTO

..... zascatrapás
..... bicho agoirento
..... raios e trevas
..... para trás
..... cobras lagartos
..... num alçapão
..... bichos e medos
..... num caldeirão

................... João Lóio

Quando saiu para a tarde morna da vila, matar o tempo era o seu único propósito. Apenas desejava que a noite caísse depressa e trouxesse consigo as emoções do ansiado Sprint urbano. Talvez por esse motivo tenha cedido tão facilmente ao estranho convite: “ - Deixa-me ler-te a sina.”

Perdido na alvura do alinhado casario, aquele lugar indefinível resumia-se a uma janela estreita de caixilhos de alumínio a botar para a rua. Sentiu-se subitamente invadido por uma irreprimível sensação de torpor. Estendeu o braço mecanicamente para a mulher e percebeu-lhe o estranho brilho no olhar, no preciso momento em que as mãos se tocaram. Tudo nela era uma coisa e o seu oposto. Duas fundas rugas no lado direito da boca pareciam desmascarar a juventude dos seus olhos de água. Na voz meiga e doce colocava uma acentuação imperativa e até a sua mão, gelada ao toque, parecia queimar.

Mal escutou as primeiras palavras, compreendeu que se avizinhava uma noite trajando de negro. Sentia a vontade quebrar-se ao ouvi-la falar. Vocação, domínio, linha do destino, Mercúrio, vala profunda, missão paralela, socorro, jardim encantado, paixão, monte da Lua, sete partidas, sorte e morte… Ditas assim, secas, exactas, sem inflexões na voz, as palavras desatavam-lhe o ser, rompiam-lhe a força e carregavam-no de angústia e solidão. Então a mulher calou-se e estendeu o braço torcido na sua direcção, rodando-o depois lentamente, a cento e oitenta graus. O polegar e o mindinho, muito esticados e contrastando com os restantes dedos flectidos, apontavam em sentidos opostos. Viu nisto um sinal de despedida e saiu dali apressado, sentindo o suor gelado colar-lhe a camisa às costas.

A noite fez-se companheira dos muitos que, como ele, se foram juntando no largo à volta do velho coreto. Contrariamente ao que era costume, manteve-se calado e procurou isolar-se num canto, o incómodo encontro da tarde amplificado na sua cabeça. E nem mesmo reagiu quando se meteram com ele e lhe chamaram “gasogéneo”, aludindo ao velho e gasto frontal que lhe encimava a cabeça. Depois dirigiu-se como um autómato para as partidas, fez os procedimentos habituais, pegou no mapa e sumiu-se no breu.

O seu primeiro gesto para orientar o mapa esbarrou na ausência da bússola. Como tinha sido possível esquecer-se do pequeno instrumento? Mas, que Diabo, não fosse por isso. O percurso seguia para a direita e esta enorme curva só podia representar os limites do Castelo. Não estranhou que a cor fosse tudo menos cinzenta, tão pouco notou que o primeiro ponto fosse o 11 (!). Correr, correr e encontrar o ponto, esse era o seu único objectivo. Porém, chegado ao local desejado, não havia ponto. Olhou atentamente o mapa e viu-a então, a poucos metros dali. Mas não, não podia ser. Em vez do muro por detrás da fonte renascentista devia estar um caminho. Procurou calcular distâncias, sem mesmo atentar na escala e o seu primeiro ponto era agora o “finish”. Não podia ser verdade o que lhe estava a suceder! Rodeou então o Castelo, atravessou jardins, subiu e desceu passeios bordados de laranjeiras, entrou em ruas desertas, correu sem norte em todas as direcções, até que, completamente exausto, decidiu parar. Tomado por uma angústia de morte, viu que a sua prova começara há mais de um quarto de hora e não havia sinais do primeiro ponto sequer.

De repente, percebeu onde estava. Aquela rua era a mesma onde, algumas horas atrás, ocorrera o tão casual quanto terrível encontro. Sentiu-se pregado ao chão, incapaz de dar um passo. Aterrorizado, viu à sua frente a pequena janela abrir-se. Surgida do nada, a mão torcida da mulher voltou a desenhar no ar o estranho gesto de rotação. E aí viu. Fitou as mãos trémulas, o até então inútil mapa pendendo duma delas, e voltou-o. No verso, bem desenhada, a vila de Alter do Chão oferecia-se num cantar de amigo.

JOAQUIM MARGARIDO

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1 comentário:

fernando disse...

Viva

A Continuar assim, vamos ter que fazer um filme e não um livro!!