domingo, 8 de fevereiro de 2009

NAOM'09 ALTER DO CHÃO: CRÓNICAS (II)


VIDA(S)

..... Pára-me de repente o pensamento
..... Como se de repente sofreado
..... Na douda correria em que levado
..... Anda em busca da paz, do esquecimento!

..... Pára surpreso, escrutador, atento,
..... Como pára um cavalo alucinado
..... Ante um abismo súbito rasgado…
..... Pára e fica e demora-se um momento…

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Ângelo de Lima


Impossível dominar este desassossego que me perturba o sono e me atira para fora da cama muito antes do desejável. Ansiosamente abeiro-me da janela e percebo os alvores da manhã para além da cortina de água que se avoluma nos vidros. Está frio, muito frio mesmo, mas o céu limpo faz-me suspirar de alívio. Ainda que a noite mal dormida se prolongue nos meus olhos ruborescentes, haverá sol e com ele virá a luz e a cor, a energia e a alegria. Esquecer-me-ei de mim na certeza dum dia inesquecível.

Chegado à Lameira de Cima, é como um sonho sonhado. Envolto numa carícia de verde, o olhar espraia-se na placidez da paisagem até mergulhar no saltitar irrequieto da ribeira de Cujancas. Depois ergue-se para os céus, acompanha o gracioso volteio duma cegonha atrevida, desce de novo sobre a Arena, só então partindo ao encontro daqueles que se ufanam nos aprontos finais. As infindáveis horas e dias que precederam o grande momento estão prestes a esgotar-se e está tudo preparado para o início do Norte Alentejano O’Meeting 2009.

O caminho sobe ao longo da margem direita da ribeira. Seguindo no embalo do suave canto das suas águas, sorvo as árvores ainda despidas de folhas que sobre ela se inclinam, as polidas fragas que a entrecortam, o largo meandro onde delicadamente se espreguiça, a graciosa garça que nela se mira ao espelho, a tão robusta quanto inútil ponte, depois que o último moleiro, cansado da vida, há muito daqui se partiu.

A festa faz-se agora anunciar. O vento arrasta consigo a voz de Isabel Sá, jovem, enérgica e plena de entusiasmo. Enuncia os principais concorrentes, confere os pontos altos e dá início à contagem decrescente. Integrar os mais novos nas lides organizativas, estimular o seu desempenho e atribuir-lhes funções destacadas e de responsabilidade, é uma das imagens de marca da modalidade. Plantadas na Arena, lá estão as tendas dos vários clubes, fortalezas portáteis em torno das quais se agrupam os seus guerreiros. É o carácter tribalista da Orientação manifestando-se em todo o seu esplendor.

Pacientemente modelado ao longo dos tempos, o relevo deixa perceber a indelével marca da água. Os atletas privilegiam as reentrâncias no terreno que facilitam a progressão e acompanho-os na sua ascensão. Eles concentrados, eu contemplativo. Eles em esforço, eu pausadamente. A decisão e firmeza de uns, contrasta com o desalento estampado no rosto de outros. Percebe-se, então, que “depressa e bem” é objectivo facilmente traído por uma má opção a qual o tempo, implacável, não se encarregará de reparar.

Finalmente o ponto culminante de tão prolongada quanto desgastante ascensão. Soberbo terraço, nos confins de Alter do Chão, o alcantilado esporão permite o domínio pleno da paisagem. Mas é nos velhos e abandonados moinhos que o olhar se fixa. Ali, longe de tudo, quis o destino que alguém, um dia, fizesse deste pedaço de terra a sua vida, o seu mundo. Um mundo ao peso e à medida dos minúsculos grãos de trigo, desaparecidos entre as robustas pedras da mó, para dar lugar a uma quase etérea farinha.

E agora, que os elementos se fundem numa harmonia plena e quero ver nas “Folhas Caídas” de Eça a descrição de toda a beleza que se estende aos meus pés, eis que o velho moleiro me bate no ombro e me estende, altivo, os “Raios de Extinta Luz” de Antero.

JOAQUIM MARGARIDO

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1 comentário:

Ana disse...

Aqui temos as tão esperadas crónicas, para ler e reler…
Quem sabe o que se passará na cabeça de um qualquer orientista com quem nos cruzamos? Será que vão todos à procura do mesmo? Será que não há aqueles que, pelas suas tendências solitárias, simplesmente se sentem atraídos pela natureza, como um refúgio, para poderem meditar, sem necessidade de explicarem o que andam a fazer?
Alguém imaginava, por exemplo, que a nossa mais famosa pianista da actualidade, não passa assim tanto tempo ao piano, e que, em contrapartida adora cozinhar e “agricultar” e até faz questão em ser ela própria a conduzir o tractor com que revolve a terra?
Pois é! O ser humano é de facto muito misterioso…
E porque hoje é…(não, não é sábado!) segunda, terça ou será quarta? Parabéns por tudo!!