domingo, 1 de fevereiro de 2009

NAOM'09 ALTER DO CHÃO: CRÓNICAS (I)


ONDE É QUE O CÉU VAI PARAR?

....... "Que mistério é o sol
....... e a chuva a cair
....... e o tempo sempre a passar
....... para onde é que vou?
....... e de onde é que vim?
....... que segredos sem par! …"


.............................. João Lóio

Habituei-me à sua presença desde que aqui surgiu pela primeira vez. Trazia consigo tanta alegria, tanta energia e entusiasmo, tamanha esperança… Já lá vai um ano, mas lembro-me como se fosse hoje. Descia a encosta a correr, passava ao pé da mina, atravessava o pequeno bosque de sobreiros e desaparecia por detrás dos velhos moinhos. Voltava a avistá-lo muito depois, lá no alto, para as bandas da Cunheira, onde o sol se põe no Verão.

Irrequieto e vivo, como um menino que pensa poder alcançar o mundo com mãos ambas, assim eu o via, tomando aos poucos conta do meu espaço, do meu tempo. Não que me dedicasse alguma importância. Pelo contrário, desprezava-me, até. E como podia ele reparar em mim, reduzido que estava às estreitas e turtuosas pedras que me marginam, à miséria da seca pele que me enforma, à realidade duma vida sem vida, duma alma sem alma?

O tempo foi-se escoando e passou a visitar-me com mais frequência. Trazia sempre alguém com ele e a sua alegria e entusiasmo redobravam. Falava de tudo, falava com todos, menos comigo e de mim. Esmagado pela força desta terra do quase nunca, ali o via como que suspenso, estendendo o olhar até onde a vista podia alcançar. Enquanto os outros traçavam estranhas linhas em não menos estranhos papéis, ele, perdido na contemplação da paisagem, esquecia-se que o arredondado das elevações, os vincos das reentrâncias e o alcantilado dos esporões, esculpira-os eu, pacientemente, milénio após milénio, com mãos de água e pés de vento. Até que um dia…

Era noite na tarde quando ele chegou. As nuvens despegavam-se do céu, alimentando a minha sede e dando vida àquilo que realmente sou, um ribeiro. Antes de me ver, ouviu-me. Senti o seu estremecimento ao escutar o meu canto. E quando se aproximou, o rosto fechou-se e percebi o seu desespero. Não devia ter-me subestimado. Fizera mal em esquecer-se que a qualquer momento me ergo do chão, rasgando energicamente a terra outrora árida, as veias injectadas do sangue que me alimenta. Ouvi então o seu grito de raiva troar nos ares, quebrando o som abafado da chuva a cair, da água a correr, até se perder em ecos mil por estes montes em volta.

Regressou no dia seguinte. Com ele vieram máquinas e homens. Impotentes para me deterem, fizeram das pedras pilares sobre as quais apoiaram as robustas traves de madeira. Uma após outra, as pontes foram sendo construídas à vista dos meus olhos. O seu semblante, porém, permanecia fechado. Finalmente, era eu – e só eu – o alvo das suas atenções. Ele via agora a minha força e sabia que todo este derradeiro esforço podia eu tragá-lo num abrir e fechar de olhos.

Mas não! Esperei pelo grande dia e, unido à pedra e ao Sol, à terra vermelha e à beleza verde das árvores e arbustos, fui rei e senhor no mais belo dos tronos. Depois, de mansinho, dali me fui, levando comigo o temor daqueles que perceberam a minha força e souberam contornar-me, a paixão dos que não hesitaram em lançar-se nos meus braços, o deslumbramento dos privilegiados que em mim depositaram o manso e tranquilo olhar. À medida que me afasto, penso no emaranhado de emoções que se desprende de cada um deles, de cada um de nós. E assim, tecendo o mais belo dos panos, sorridente e brincalhão, entrego-me com deleite nos braços da Ribeira da Seda.

JOAQUIM MARGARIDO

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