sábado, 10 de janeiro de 2009

ESPAÇO CARTOGRAFIA: LUÍS SANTOS E A REVISÃO DO ISOM 2000


Sob o título “Revisão do ISOM 2000”, a Federação Portuguesa de Orientação tornou público, no passado dia 30 de Outubro de 2008, um documento da MC (Map Commission) da IOF. Neste regresso do “Espaço Cartografia” às páginas do Orientovar, Luís Santos revela-nos a sua posição quanto ao documento em questão e à importância da proposta do órgão máximo da modalidade.

Da autoria de Thomas Gloor, “Revisão do ISOM 2000” começa por traçar um interessante historial evolutivo dos mapas de Orientação, do século XIX aos nossos dias. Centrando-se em particular nestes últimos oito anos, Gloor salienta “as alterações muito rápidas na produção de mapas de orientação”, com todas as vantagens que daí advém mas também com todos os inconvenientes resultantes do progressivo abandono daquilo a que chama “a arte da generalização”. E termina com uma espécie de “inquérito de satisfação”, solicitando às Federações que se pronunciem sobre uma série de aspectos relativos à Especificação Internacional para Mapas de Orientação (ISOM 2000).

Responsável pelo Departamento de Cartografia da Federação Portuguesa de Orientação, Luís Santos partilha connosco o seu ponto de vista sobre a matéria em questão, detendo-se num aspecto muito particular: a escala. Mas antes de lhe “passarmos a palavra”, sugiro a leitura prévia do documento de Thomas Gloor, “Revisão do ISOM 2000” [
aqui], ao passo que os mais interessados podem ainda debruçar-se sobre o próprio ISOM 2000, numa tradução para português do actual Director Técnico Nacional, António Aires [aqui].

O processo de revisão do ISOM 2000

Numa altura em que se vai dar início ao processo de revisão do ISOM 2000 - que irá ter certamente grandes implicações nos Regulamentos de Cartografia tal como os conhecemos -, apraz-me registar que a IOF esteja realmente preocupada com o assunto e que compreenda que os actuais modelos de Cartografia estão a criar diferenças gritantes de uns países para outros. É minha convicção que este processo marca a abertura da IOF a rever a sua posição intransigente em relação a esse assunto, na sequência das críticas que têm surgido internacionalmente sobre a adequação da escala / mapa ao tipo de terreno.

No que concerne às actuais especificações (ISOM, ISSOM e especificações de BTT), basicamente concordo com elas e penso que não devem ser significativamente modificadas com excepção de um ou outro detalhe (por exemplo a permissão de utilizar em simultâneo os símbolos de floresta com pouca visibilidade e de vegetação rasteira que agora não é permitida).

Já quanto aos passos a tomar para uma generalização mais consistente e coerente de cartógrafo para cartógrafo, esta é uma questão muito técnica e não sei o que poderá ser feito para que os cartógrafos passem a fazer interpretações menos subjectivas e dependentes da sua percepção pessoal do terreno. Colocar 10 cartógrafos a fazer o mesmo pedaço de mapa, criando simbologia que permita que eles façam todos o mapa o mais parecido possível, é utópico. A apreciação pessoal de cada um dos objectos e do terreno em presença irá sempre ter um peso importante no desenho final do mapa. Fico curioso em saber se será possível tornar os mapas mais consistentes de uns países (escolas de cartografia diferentes) para outros, mas não imagino que passos necessita o actual ISOM de dar para avançar nessa direcção.

Escalas: O “busílis” da questão

O assunto das escalas é ainda muito embrionário mas sobre o qual a IOF tem estado a ser muito pressionada. De forma simples, a IOF defende que a Distância Longa deve ser feita sempre a 1:15 000 e a Distância Média sempre a 1:10 000. Em oposição, algumas Federações, atletas e treinadores defendem que a escala deve ser ajustada ao tipo de terreno escolhido. Essa é igualmente a minha posição.

A IOF - e quem defende esta posição de escalas fixas segundo o tipo de prova - acha que o problema está nos cartógrafos porque enchem os mapas de detalhes inúteis, tornando-os ilegíveis a escalas mais distanciadas. Realmente em Portugal há alguns mapas feitos com detalhe excessivo que se tornam ilegíveis até em escalas amplas, mas na minha opinião isso é uma falsa questão. O desenho será sempre uma aproximação à realidade e aquilo que parece uma área cheia de elementos pode ser, na realidade, uma área onde se corre bem entre os elementos e onde há muito espaço entre eles. O facto de os objectos surgirem desproporcionados no mapa deve ser contornado pela capacidade do cartógrafo em reduzir distorções, viabilizando uma boa leitura ao atleta em corrida mas sempre colocando os objectos necessários para uma navegação eficaz. E é essa “lista” de objectos necessários, totalmente diferente de terreno para terreno, que deve merecer uma particular atenção.

Porquê a intransigência da IOF? A IOF é normalmente gerida de forma conservadora (estilo do International Board do Futebol), defendendo uma rigidez quase absoluta das regras na defesa do espírito da modalidade. Exemplo disso é a forma como “atacou” incessantemente o Park-o aquando do seu aparecimento, argumentando tratar-se duma desvirtuação do espírito da floresta e da Orientação. O que aconteceu é que os atletas e os organizadores esvaziaram as teses de defesa da IOF. O Park-o teve um crescimento exponencial, criou-se um Campeonato do Mundo de Park (Park World Tour) que foi um sucesso mediático e vários países adopataram rapidamente os Nacionais de Sprint e levaram a visibilidade da modalidade a outros níveis (e Portugal foi dos mais dinâmicos e mais rápidos nessa aposta). A IOF foi ultrapassada pelos acontecimentos e, no Mundial de 2003, na Suíça, acabou por ceder e não perdendo a face, ignorou o Park-o mas criou o Sprint. Basicamente foi coerente com as noções de Média e Longa que assentam na noção de tempo de prova e não de tipo de terreno escolhido.

Um exemplo prático

Voltando à adaptação da escala ao tipo de mapa, estamos naquela fase em que os acontecimentos começam a ultrapassar a IOF... E a IOF dá um primeiro sinal de que vai estudar o assunto com um novo ISOM a sair em 2010, definindo novas regras de generalização de simbologia. A legibilidade do mapa é assunto fundamental para o futuro da modalidade.

Um exemplo prático que deixo: Em França há um mapa numa zona vulcânica que é fantástico. No final de 2006, numa prova da Taça do Mundo lá realizada, a Federação Francesa conseguiu convencer a IOF a aceitar a excepção do 1:10 000 na Distância Longa. Esta “abertura do flanco” levou a que muitas excepções fossem solicitadas nessa sequência (entre elas uma portuguesa, no POM 2007, onde fui Supervisor). Em 2008, a Taça do Mundo voltou a ter um evento naquela zona e a IOF passou a ser intransigente e forçou o 1:15000.

Após esse evento, veja-se o desabafo de Tierry Gueorgiou. “Using a magnifier glass is either not a stupid idea, since IOF took the decision to run the long distance with the scale 1/15.000 which is an absurd idea in this kind of terrain. I can't understand why we should use "standard" scale since terrains all over the world are not "standard" at all... A 1/20.000 scale would even be perfect for some terrains, but here it is a huge mistake in my opinion. Mapping with 1/15.000 will only give a wrong image of the terrain, and in the end lead to frustrated orienteers. Of course, I agree that we have to create rules and codes to normalize orienteering in order to practise the same type of orienteering all over the World, but the question of scale is something different and I definitively think that we have to be flexible with it. In my opinion, it is the terrain that must determine the scale, and not some (stupid) rules..." *

Eu não poderia estar mais de acordo com ele...

Luís Santos
Departamento de Cartografia da FPO



* “Usar ou não uma lupa é uma ideia estúpida, a partir do momento em que a IOF tomou a decisão de executar a prova de Distância Longa com a escala 1/15.000, um autêntico absurdo neste tipo de terreno. Não consigo compreender porque é que devemos usar uma escala "padrão" quando os terrenos, por todo o mundo, não o são... Uma escala 1/20.000 poderia mesmo ser perfeita nalguns terrenos, mas aqui, em minha opinião, é um tremendo. Cartografar em 1/15.000 só vem dar uma imagem errada do terreno, e conduzir à frustração os atletas. É evidente que estou de acordo com o estabelecimento de regras e códigos para normalizar Orientação, por forma a que possa ser praticada da mesma forma em todo o Mundo, mas a questão da escala é algo diferente e, definitivamente, penso que devemos ser flexíveis neste aspecto. Em minha opinião, é o terreno que deve determinar a escala e não algumas (estúpidas) regras...”

.

3 comentários:

Armando Rodrigues disse...

Olá a todos.
Estou de pleno acordo com as escalas dos mapas, estas devem ser de acordo com o terreno e não com a rigidez das normas da IOF. Deixo só este pequeno exemplo, em um determinado mapa fizemos (cartografos*) a primeira aproximação para ver o que deveriamos colocar ou não para uma escala de 1:15000, pois a IOF assim o determinava, resulta que ou saturavamos o mapa ou então não colocavamos nada.
*Os cartografos foram:
José Batista Nível IV e
Armando Rodrigues Nível V

Deixo este pequeno comentário, espero que ajude e que as escalas sejam as apropriadas à forma mais legivel de "ler" o mapa.

Armando Rodrigues Lic. FPO 1650
Saudações a todos

José disse...

Olá
Tenho seguido com muita atenção tudo o que diga respeito à evolução da orientação nas suas diversas vertentes.
No capitulo da cartografia, que para mim é a parte mais importante,
creio que deve haver algum cuidado no que diz respeito às escalas dos mapas a utilizar nas disciplinas clássicas, isto é, distância média e longa.
Já nas outras, creio que os limites poderão e deverão ser alargados, como vem a acontecer há alguns anos e com bons resultados.
Estou de acordo quando se diz que a obrigatoriedade de se manter sempre a escala de 1:15000 na distância longa, só por si quase excluirá certos terrenos, mas também é verdade que os elementos de um mapa que tapam todos os outros, inviabilizando em certas zonas a sua legibilidade são os elementos rochosos e creio que quando se chegar a um consenso sobre a forma de representar as zonas de grande concentração de rochas, parte dos problemas que hoje estão em discução ficarão definitivamente resolvidos.
Na minha opinião, quando uma área não é representável e perfeitamente legível numa escala de 1:10000, então também não é possivel colocar aí um ponto de controlo, porque seria um ponto de sorte e assim sendo creio que bastará representá-la com a simbologia correspondente, mas que apenas informe o atleta em corrida se essa é ou não uma zona a evitar.
Creio que num mapa todos estaremos de acordo que as zonas ricas em pormenores devem ter um tratamento muito mais cuidado do que as zonas que apenas sirvam para passagem. Caso se evolua para um caminho que nos leve a colocar no mapa, tudo o que existe no terreno, independentemente da sua importância e adotando para isso a escala que o permita, a orientação talvez não fique a ganhar e o preço do kilómetro quadrado de mapa vai disparar concerteza.
Em resumo, estou de acordo com alguma flexibilidade nas escalas dos mapas, que permita levar a orientação a terrenos que sem ela não seria possivel, mas só aí.

Saudações orientistas
José Fernandes .COM

Joaquim Margarido disse...

Olá todos

Por absurdo a cartografia ideal seria aquela onde não houvesse intervenção do cartógrafo, nem de regulamentos. Teríamos a fotografia aérea transformada em mapa onde cada praticante podia escolher a escala que melhor se adaptasse á sua capacidade de visão e percepção cerebral.

Mas tem que haver cartógrafo.

Por outro lado, o trabalho de campo deveria ser levado a efeito em corrida contínua pois, é nesta circunstância que o mapa é usufruído.
Assim, do ponto de vista teórico o melhor cartógrafo será o praticante que tem ou tenha tido, algum sucesso competitivo. E, é aqui que a problemática de escala entronca. Ou seja, o cartógrafo deve colocar sempre, a si, as seguintes interrogações:
Se eu fosse a correr o que é que eu veria? Ou ainda, o que é que eu teria tempo para ver? Quais os elementos característicos que balizariam a minha progressão.
Deste ponto de vista variar a escala é favorecer os “desenhadores” em desproveito dos cartógrafos, é colocar o praticante numa constância inconstante: correr às apalpadelas da escala ou nos soluços da corrida.

Para mim mexer na escala só faz sentido na estrita medida das dioptrias e suas exigências.

cumprimentos
Num ponto de cota

Dinis Costa