terça-feira, 6 de janeiro de 2009

DOBRE DNI POLSKA, BOM DIA MARIA SÁ


Continua a ser uma referência entre os atletas de Elite da Orientação nacional. Ausente da competição neste início de temporada por motivos profissionais, Maria Sá continua a sua preparação e promete o regresso a tempo de participar dos Nacionais. Durante a pausa lectiva do Natal, de passagem por Ovar, Maria Sá falou de si, da Polónia, das suas expectativas e ambições.

Orientovar - Tem sido ausência notada nas competições nacionais e isso explica-se pelo facto de estar, desde Setembro, a estudar na Polónia. Como é que tudo aconteceu?

Maria Sá - Desde que tomei conhecimento da existência do programa Erasmus, sempre tencionei poder vir um dia a participar. Dado que o sexto ano é o último do meu Curso [Medicina], terei o tempo mais preenchido, as responsabilidades serão maiores e talvez não fosse a melhor altura, aproveitei agora e inscrevi-me por um período de seis meses. Apesar do número limitado de vagas, consegui entrar e embora a minha primeira opção fosse a República Checa, devo confessar que agora sinto que acabou por ser muito melhor assim e ir para a Polónia.

O. - Para a Polónia e para Wroclaw. Que tal é a cidade?

M.S. - Para mim, Wroclaw é uma cidade ideal para morar. Sinceramente não estava à espera e surpreendeu-me imenso esta cidade cuja vida se faz em torno duma praça central, comum a todas as cidades da Polónia, à qual chamam “Rynek”. É uma cidade que combina um centro histórico, turístico e cheio de movimento com a calma e a tranquilidade das margens do Rio Odra, apenas a cinco minutos a pé do centro, com os seus inúmeros canais e pontes, trilhos pedonais e vias cicláveis.

O. - Como é que foi a sua adaptação à cidade, aos seus usos e costumes?

M.S. - Participei inicialmente num curso de polaco onde aprendi o básico. Por incompatibilidade de horário acabei por ter de deixar o curso e fiquei-me por aí. Vou tentando no dia-a-dia aprender um pouco mais, mas a língua é bastante difícil. Uma mesma palavra, de acordo com a frase ou com a forma como é utilizada, pronuncia-se de maneira diferente. A língua constitui uma enorme barreira e nota-se que apenas alguns jovens falam inglês. Pedir uma informação na rua ou ir às compras ao talho, por exemplo, é muito complicado. Mas as diferenças não se ficam pela língua. Os polacos são frios e desconfiados. Não têm aquela facilidade de relacionamento dos portugueses e espanhóis, mas quando se relacionam são pessoas extraordinárias e muito amigas.

O. - Saudades de Portugal?

M.S. - Sim. Muitas saudades da família, dos amigos, da comida e do sol. Mas apesar das saudades, estar na Polónia é muito bom e penso que, se tivesse sabido quão enriquecedora a experiência poderia ser, teria escolhido um período de permanência de um ano, em vez dos seis meses. Juntamente com três colegas da Faculdade, estamos a tornar-nos típicos emigrantes. Fazemos comida portuguesa e até já cozinhámos bacalhau. Eu, que nem no Natal comia bacalhau, comi e foi uma maravilha. Vemos a nossa televisão pela Internet, tiramos fotografias, cantamos músicas de Portugal e nessa rotina não podia deixar de ir diariamente ao Orientovar, que é mais uma forma de estar a par com o que se passa em Portugal ao nível da Orientação. E que muito agradeço.

O. - Em Wroclaw, como é que foi recebida no Slask, o clube de Orientação no qual está integrada?

M.S. - Devo dizer que fui muito bem recebida. Já tinha feito os contactos em Portugal. Foi “trabalho de casa”. Falei na altura com a Associação polaca para saber se existia algum clube na cidade. Responderam-me que havia três clubes e aconselharam-me o melhor. O Slask Wroclaw tem modalidades que vão do Futebol ou do Basquetebol ao Atletismo e à Orientação, com infra-estruturas espalhadas por toda a cidade e das quais todos os atletas podem usufruir.

O. - Ao longo deste tempo, chegou a competir na Polónia? Com que impressões ficou?

M.S. - Durante o mês de Setembro ainda fiz algumas provas e, do pouco que deu para perceber, há uma quantidade enorme de jovens a praticar Orientação. Ao consultarmos os quadros de resultados podemos perceber que os escalões de formação ocupam a maior parte das folhas e depois temos dois ou três seniores, dois ou três veteranos… De resto, tenho treinado apenas. A cidade tem seis ou sete parques enormes, todos eles cartografados, onde se podem desenvolver imensas actividades. Nesta altura a Polónia não é propriamente o melhor sítio para se fazer Orientação. Está muito frio, muita neve, não há provas. Mesmo assim, até com umas sapatilhas normais, ainda se vai podendo fazer um pouco de corrida.

O. - Consegue estabelecer uma comparação entre a Orientação que se faz na Polónia e em Portugal?

M.S. - Em Portugal, o único aspecto onde estaremos à frente da Polónia é ao nível organizativo das competições. A título de exemplo, posso dizer que nas poucas provas em que participei nunca utilizei o meu Sportident. Foi sempre cartão e o sistema tradicional de picotagem. Mas quanto aos terrenos e aos mapas, penso que têm mais qualidade na Polónia. Não é como em Portugal, onde se percebe a necessidade de promover a modalidade junto daqueles que se estão a iniciar, notando-se por vezes uma excessiva preocupação com os escalões abertos, com levar os percursos para zonas mais atractivas mas menos interessantes tecnicamente. Na Polónia os percursos são direccionados para a competição, a pensar naqueles que procuram desafios na Orientação. Isto coloca-os num patamar superior ao nosso e é o reflexo do trabalho que é feito junto dos mais jovens. Eu nunca vi na Polónia qualquer esforço de promoção ou divulgação da modalidade junto de pessoas com idade superior a 20 anos. É nas Escolas e ao nível das crianças e jovens que incide o trabalho de formação.

O. - Quando regressar a Portugal e à competição, que Maria Sá vamos poder esperar?

M.S. - A Maria Sá de sempre, disposta a dar o máximo para alcançar os seus objectivos. Esses objectivos passam pelos Campeonatos Nacionais e por um lugar na Selecção Nacional, para poder estar presente nos Campeonatos do Mundo. Tenho a certeza que esta época vou ter a possibilidade de fazer uma preparação com pés e cabeça, com tempo e com trabalho certo e adequado para poder estar em forma nas alturas mais importantes para mim. Em Portugal tenho sentido imensa dificuldade em ter aquilo que no estrangeiro se designa por “época de Inverno”, na qual se faz todo um trabalho de base importantíssimo e que nos permitirá estar no máximo da forma mais tarde. Isso é inviável no nosso País, devido ao elevadíssimo número de competições que ocorrem ao longo de todo o Inverno. O calendário de provas em Portugal, na minha opinião, não faz sentido nenhum e devia ser mudado.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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1 comentário:

Mário Santos disse...

"Eu nunca vi na Polónia qualquer esforço de promoção ou divulgação da modalidade junto de pessoas com idade superior a 20 anos. É nas Escolas e ao nível das crianças e jovens que incide o trabalho de formação."

Ora aí está... este comentário despertou-me particularmente a atenção, pois atesta bem da importância estratégica do desporto escolar como universo/fonte de recrutamento para a orientação, permitindo a contínua "alimentação" e renovar dos praticantes deste desporto. Por outro lado, este trabalho de formação é o que permitirá melhores atletas nos escalões competitivos, em particular nas Elites, quer ao nível técnico, quer físico, quer ao nível psicológico (este último penso que é quase sempre desprezado e muito raramente trabalhado, mas é provavelmente tão ou mais importante que os restantes... não será por acaso que se diz "mente sã em corpo são...").

Boa continuação de curso e treinos para a Maria Sá e parabéns ao Joaquim Margarido por continuar a conseguir "estar em todo o lado"... ;-)

Um abraço,

Mário