sábado, 17 de janeiro de 2009

(DES) ORIENTAÇÃO


Quando, em Agosto de 1998, foi criado o COC, os cerca de 14 atletas que constituíam a sua equipa corriam o Pais de norte a sul, não falhando a nenhuma prova, fosse ela Nacional ou Regional (não me lembro se naquela época havia Locais).

O vício era grande e a participação era “obrigatória”. Estávamos então em Junho de 1999, na última prova da época e o Ori-Estarreja oferecia-nos um evento de 4 dias, o último dos quais no mapa novo do Torrão do Lameiro, onde se iria disputar o Campeonato Nacional de Estafetas, variante das mais entusiasmantes da nossa modalidade.

Nessa altura, corria pelo Ori Estarreja uma sénior feminina que, salvo erro era militar - e bem militar! -, tal o seu aspecto e postura firme e decidida. Aparecia nas provas com uma “rouloute/bar” a vender uns “comes e bebes” que o pessoal ia consumindo. Na hora da sua prova, fechava o negócio e ia participar, vestindo um equipamento grená já muito desbotado, que nada tinha a ver com o equipamento do Estarreja.

Como os nossos atletas não eram muitos, para constituir equipas para as estafetas havia que fazer descer os menos jovens e subir os mais jovens, para um escalão acessível a todos, nomeadamente Seniores. Particular expectativa para a nossa equipa de Juvenis constituída por José Jordão, Ricardo Ferreira e Ricardo Rodrigues, que acabou por conquistar o primeiro titulo colectivo do COC.

Mas voltemos aos seniores onde se formou uma “super-equipa”, constituída por Tozé Silva, Carlos Monteiro e Luis Tenreiro. Qual de nós o mais inexperiente, onde o azimute e a contagem dos passos até á zona do ponto era táctica usada, pois mesmo que quiséssemos ler relevo, este estaria escrito numa linguagem que nós ainda não conseguíamos decifrar (bem, ainda hoje nos acontece, mas naquela altura, então…). Ora ai estávamos nós, lançados na prova, preparando os mais pequenos detalhes, enquanto o Tozé Silva, primeiro homem da nossa equipa, desapareceu na floresta quando foi dada a partida.

O mapa era agradável e os primeiros dois ou três pontos, muito perto da zona de transmissão do testemunho, eram em colinas ou reentrâncias, perfeitamente identificáveis, desde que com os olhos abertos e a cabeça a pensar com clarividência. Depois entrávamos numa zona mais plana, com muito pouca visibilidade devido a uma grande mancha de acácias, com algumas clareiras pelo meio, onde tínhamos outros dois ou três pontos, até voltarmos a entrar no típico pinhal característico da nossa costa.

Eis que, surpreendentemente, o Tozé passa muito bem colocado no ponto de espectadores e me entrega o testemunho com cerca de 60 minutos decorridos, o que me pôs ainda mais nervoso, com a responsabilidade de fazer a minha prova o mais rápido possível de modo a entregar ao Luis Tenreiro a tempo de ele passear a sua classe.

Nada tínhamos a ganhar nem a perder, apenas o prazer de, pela primeira vez, participarmos num Campeonato Nacional de Estafetas. Mas os primeiros 45 minutos do meu percurso foi das piores experiências que tive na modalidade. Os erros foram imensos, a insegurança total e, por mais que me esforçasse, nada batia certo.
Eis-me então numa zona onde nem caminhos, nem colinas, nada de nada para me referenciar, a não ser amarelos no meio de verdes no mapa e, à minha frente na floresta, apenas acácias e mais acácias. O relógio acusava já os 50 minutos e ainda havia mais de 2/3 do percurso por fazer. No meio deste suplício eis que passa por mim a dita militar atleta do Estarreja, a quem pedi ajuda. Ela respondeu-me favoravelmente e disse que me levaria ao ponto que eu procurava, pois era também o ponto para onde ia.

Naquela fase a minha insegurança era tão grande que mesmo dela eu duvidava. Para tentar acalmar-me e ter a certeza que saia dali o mais breve possível, perguntei-lhe duas ou três vezes se tinha a certeza de onde estava e se íamos bem para o ponto. Como todos bem sabemos, pior que levar alguém na nossa “cola”, só mesmo um “cola” que não se cale e venha sempre a falar, a duvidar das nossas opções e a desconcentrar-nos.

Subitamente ela pára, vira-se para trás, olha-me de cima a baixo e, numa voz firme e autoritária, diz-me:

“ - Cala-te imediatamente, se queres que eu te leve ao ponto. Se não te calas deixo-te aqui sozinho e desapareço já sem me veres mais.”

Escusado será dizer que me calei e ela lá me levou ao ponto, sem falhas, tal como tinha prometido.

Quando cheguei ao final, o Luis Tenreiro já tinha partido na "molhada".

Carlos Monteiro
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1 comentário:

Ana Filipa disse...

De "colas" barulhento e inseguro a director do WMOC!
Grande reviravolta ;)

Os meus parabéns!
Excelente história!

Ana Filipa.