sábado, 3 de janeiro de 2009

(DES) ORIENTAÇÃO


UMA QUESTÃO DE IDIOMA

Uma vez por outra afloram-me à memória (apesar do esforço para esquecer), as imagens dos trabalhos que passei no POM’07, designadamente na tão propalada etapa de Campo de Anta. Creio que nesse dia me envolvi num rol de situações inesperadas e rocambolescas que justificariam, com certeza, um extenso almanaque de “istórias” para os gostos mais variados. Mas como o “espécie” funciona tipo telenovela da noite, entretenham-se (ou não) com mais um singular episódio.

Convém lembrar que, nessa épica jornada, tínhamos como parceiros de prova umas centenas largas de forasteiros, provenientes de quase toda a Europa. São as melhores alturas para colocarmos a nossa veia de “poliglota lusitano” à prova e desenferrujarmos a língua, treinando as mais diversas “línguas de trapos”. Ocasiões não faltaram. Os mais bafejados com o dom da pronúncia estrangeira (o chamado “sutaco”), puderam dar largas à sua capacidade inata de se fazerem entender, fosse com um qualquer “nuestro hermano” ou, mais difícil ainda, com os companheiros oriundos da terra das “matrioshkas”.

Atendendo aos antecedentes, devem compreender que não é fácil para mim voltar a desenterrar fantasmas, mas como eles teimam em me perseguir talvez estas linhas funcionem de forma terapêutica e me desanuviem a mente duma vez por todas, tal qual uma consulta ao psicanalista.

Andava eu na minha enésima pastorícia, debaixo de chuva e frio intensos, percorrendo terrenos que mais ninguém parecia utilizar, subindo e descendo escarpas, perfurando densas vegetações por entre antipáticas “pedrolas”, na perseguição do controlo 12 (o capicua “22”), que continuava renitentemente a fugir do meu alcance. Seguia enregelado, desmoralizado e até um pouco desmotivado (coisa rara no “espécie”), pois já tinha ultrapassado os 45 minutos de prova e ainda faltavam metade dos pontos.

De repente, pelo meio da vegetação, enxergo um concorrente com ar de atascado (ou assustado?), a olhar em volta à procura de “auxílio divino” e quem melhor para o ajudar senão o “espécie de orientista”, que se encontrava tão desorientado e desesperado quanto ele.

Se aquela alma perdida precisava de socorro, eu carecia de um urgente salva vidas. Mas colocava-se um problema – em que língua nos iríamos entender? O jovem (teria uns 17 ou 18 anos), envergando um desconhecido equipamento esverdeado *, tinha cara de ser latino, mas por via das dúvidas ataquei no idioma universal, o genuíno “inglês da Jamaica”.

“ - Have you seen twenty-two?” – o rapaz olha para mim e resmunga qualquer coisa imperceptível, que tanto poderia ser um “yes” como um “no”. Volto à carga, agora noutro idioma: “ – Vous parlez français?” – sem tirar os olhos do mapa balbucia mais uns grunhidos, que não identifiquei como de origem gaulesa. Já no limiar de um ataque de “stress”, a pensar que logo por azar me tinha calhado um tipo de leste ou algum escandinavo que não foi à escola, tento novamente cheio de esperança: “ - Usted habla español? Vio el veintidós?” – e continuou o diálogo de surdos. “Mau, mau…mas que raio se passa aqui?” Com o nervoso miudinho à flor da pele, atiro de rajada e de modo algo exacerbado: “ – Parlare italiano?” (eu que de Itália, só conheço bem “la deliziosa pizza”…mas alguma coisa se haveria de arranjar, estava por tudo e só rezava para que ele não fosse um ferrenho adepto da “lei do silêncio”). Então finalmente, qual não é o meu espanto e enorme vergonha, levo com uma resposta seca e num correctíssimo português vernáculo: “ – …sse, sei lá onde estou, o c…!”.

Após dois segundos de estupefacção, a digerir o ridículo de momento tão imprevisível, reajo com uma boa gargalhada de alívio. “ – Eh pá, eu para aqui a gastar os meus “latins” (os que mal dominava e os que não percebia patavina) e tu, seu maganão, saíste-me um portuga…e dos safados!”, enquanto lhe dava uma palmada amigável. O moço, meio encavacado, como que apanhado com a “boca na botija”, conseguiu esboçar um sorriso amarelo. “ – Desculpe… julgava que você era...” “ - da Moldávia, queres ver?...esquece isso…o meu laranja é tão estranho quanto o teu esverdeado, não é?”, referindo-me aos nossos coloridos e pouco conhecidos fatinhos. E lá procedemos a uma cooperação de socorro mútuo (a bem da Nação).

Analisando o episódio a esta distância, como poderíamos nós interpretar o mapa convenientemente se a desconcentração era de tal ordem que nem reparámos nos peitorais personalizados que especificavam claramente a nossa nacionalidade? (verdadeiros “marretas”). A ânsia de conseguir os famigerados “contactos internacionais”, aliada à angústia do atascanço, atrofiou-me por completo que nem me passou pela cabeça que o miúdo fosse português (a probabilidade também era fifty-fifty). Eu apenas pretendia o “22” a todo o custo, nem que para isso tivesse de colocar à prova o idioma “zulu”. O resto limitou-se a conversa mal traduzida de “espécie jamaicano”.

* Mais tarde, constatei que o meu amigo “estrangeiro” pertencia a um clube do sul (alfobre de jovens promissores), que infelizmente nesta altura tem a sua secção de Orientação quase inactiva.

Luís Pereira

.

1 comentário:

Paulo Vieira disse...

Adorei a "istória" e os seus pormenores. Por vezes, com os "forasteiros", acontecem dessas peripécias.
Um abraço e continuação de boa (DES)ORIENTAÇÃO.

Paulo Vieira
CPArmada