sábado, 31 de janeiro de 2009

(DES) ORIENTAÇÃO


À BOLEIA...

O meu maior episódio de desorientação aconteceu em Março de 2001, no primeiro dia de uma prova de Ori-BTT organizada pelo COC, em Alvados (Porto de Mós).

Quando chegámos ao local da prova, percebi logo que o que me esperava não iria ser tarefa fácil. Além do nevoeiro cerrado, ao olhar para as partidas a única coisa que conseguia ver era uma encosta “do tamanho do mundo”. Prometia…

E pronto, lá parti. Se tivesse sido uma prova normal, poderia dizer que tinha demorado mais tempo até ao triângulo do que no resto da prova inteira. Mas não, esta não era uma prova normal e nem eu imaginava, nessa altura, o que iria ser a minha primeira (e última) aventura, de bicicleta, na serra de Alvados. Se bem me lembro, tenho ideia que ainda piquei um ou dois pontos. Nesse ano, ainda era juvenil, mas não se pode dizer que não percebesse coisa alguma daquilo... Não muita, mas alguma. Já fazia orientação pedestre há cinco anos e, em BTT, há um. Mas, subitamente, fui “engolida” pelo nevoeiro.

Não sei como lá cheguei, nem sabia como iria de lá sair, só sei que não via ninguém (a não ser um BTT’ista que voava ao longe) e que tudo à minha volta me fazia lembrar um autêntico filme de terror! Daqueles em que começamos a ouvir barulhos, como a vegetação a ranger, que são simplesmente fruto da nossa imaginação, e em que o nevoeiro se desloca, como se fossem imagens de pessoas a flutuar!

Como não fazia a mínima ideia onde estava e não via um palmo à frente do nariz (literalmente), decidi desmontar da bicicleta e comecei a andar no meio das pedras e dos muros. Sim, porque para facilitar a minha tarefa, o mapa estava carregadinho de muros! Caminhos, nem vê-los e, quando existiam, não eram caminhos, eram montes de pedras. Não foi a ideia mais inteligente, mas andei, andei, andei… A certa altura, cheguei a um cruzamento de caminhos, desta vez numa clareira, mas claro que ainda não fazia a mínima ideia de onde estava. Provavelmente já estaria fora do mapa, mas em vez de parar e voltar para trás, continuei a andar. Ideia brilhante!

Estava eu na “enésima” tentativa de me relocalizar quando, vindas do nada, surgem duas raparigas que estariam a fazer o escalão de Open e que, por coincidência, estavam exactamente na mesma situação que eu, completamente perdidas! Era a primeira vez, ou uma das primeiras, que faziam orientação em BTT. E que belo dia tinham escolhido…
Claro que decidimos continuar a andar, sem rumo. Outra ideia brilhante. Lá seguimos as três, “mais vale acompanhadas do que sós!”, até que vislumbrámos a “luz ao fundo do túnel”. Dirigimo-nos ao que parecia ser uma terra habitada e, sorte a nossa, havia mesmo um café com gente lá dentro!

Ao chegarmos, perguntámos a um homem que aí se encontrava se nos podia dizer onde estávamos. Ele olhou para nós com um ar muito admirado (porque é que seria?) e disse um qualquer nome de que não me recordo. Ficámos as três a olhar também umas para as outras, com um ar desconfiado, pois claro, que aquele nome não nos dizia nada. Perguntámos então: “E sabe-nos dizer como se vai para Alvados?” E, mais uma vez, ele sabia: “Sim, é um pouco longe, mas seguem esta estrada sempre em frente, viram à esquerda na próxima, depois a seguir à direita e depois sempre em frente até chegarem a Alvados. “Ah… Pois… Obrigada…”

Depois da nossa resposta pouco convincente, e quando já nos deslocávamos para a porta, o homem, ao aperceber-se que estávamos completamente desorientadas, com um ar infeliz e preocupado, disse: “Mas, se quiserem, eu posso levá-las lá! Tenho uma carrinha de caixa aberta…”. E, numa fracção de segundo, respondemos as três, em uníssono: “Sim! Sim! Muito obrigada!” Uff, que grande alívio…

O homem lá foi buscar a carrinha e carregou as três bicicletas. Deparámo-nos, então, com outro problema. Nós éramos três e, na cabine, para além do condutor, só cabíamos duas. Diz ele: “Tem que ir uma de vocês atrás, com as bicicletas” e, amavelmente, pega numa das outras duas raparigas, como se fosse um saco de batatas, e ajuda-a a subir. Lá fomos, então, em direcção à concentração e, assim, começámos a nossa última etapa da prova de BTT, à boleia de um desconhecido que encontrámos num café algures na serra de Alvados. Não sei quanto tempo durou a viagem, mas parecia que nunca mais acabava.

Quando chegámos à concentração, já estava tudo à nossa espera, os meus pais, os acompanhantes das raparigas, a organização, e, ao longe, acabaram por nos ver, com as bicicletas em cima da carrinha e as três com um ar muito desolado. Houve alguém da organização que ficou bastante contente por nos ver: “Ainda bem que já chegaram, pois estava a preparar-me para ir à vossa procura!”

Não vale a pena referir que, no segundo dia, nem tive coragem para começar a prova…

Ana Porta Nova

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