segunda-feira, 31 de março de 2008

CRÓNICAS DO NAOM2008 (VII)




NAU DE SONHO

Lancei ao mar um madeiro,
Espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
Medi a altura do Sol.


Após a imensa alegria da véspera, daquele final de dia em verdadeira apoteose - um Cine-Teatro de Castelo de Vide ao rubro vitoriando os heróis da jornada! -, não era normal tanto semblante fechado. Os ponteiros dos relógios caminhavam já para as oito da manhã de domingo e as salas de refeições de hotéis, albergues, pousadas, povoavam-se duma taciturna fauna. Não pelo desgaste físico acumulado. Tão pouco por uma noite mal dormida. Lá fora a chuva cai. Desconcertante e persistentemente.

Hora e meia volvida, no Vale da Silvana, tudo parece ser diferente. Ainda se deita um olhar desconfiado a uma ou outra nuvem que resiste no céu, mas percebe-se, como que por magia, que o mau tempo já lá vai. O espaço que nos rodeia é fantástico. Ali, no imenso e verdejante prado onde todos se vão agrupando, uma energia contagiante volta a invadir os espíritos. Não tardará a ter início a segunda jornada deste Norte Alentejano O’Meeting, com a disputa do Campeonato Nacional de Distância Média, e não se poderia esperar melhor cenário.

O orientista “puro e duro” não esconde a ansiedade nos momentos que antecedem a sua entrada em acção, mas a placidez do lugar convida mais ao recolhimento, à meditação. Para aqueles que amam verdadeiramente a natureza não existe modalidade mais apelativa do que a Orientação. Colocar à prova as capacidades físicas e o apuro dos sentidos, desfrutando do contacto íntimo com esta magnífica paisagem do Vale da Silvana, corresponde àquilo que, no mais íntimo de cada um de nós, se pode elevadamente aspirar. Sorvemos o ar puroe fresco da manhã, vivemos aquela paz, elevamos os olhos em direcção a nascente, a alcantilada fortaleza de Marvão adivinhando-se na neblina a povoar de sonho a nossa imaginação... Mas chega de devaneio. O “cerimonial” altamente ritualizado já recomeçou com a deslocação da pré-partida para a partida, o “clear”, o “check”, a recolha da sinalética, o “start” para os OPT’s, os cinco sinais sonoros… Agora é cada um por si!

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.


O mapa do Vale da Silvana mostrou-se particularmente desafiante face ao crescimento desenfreado, nestes dois últimos meses, duma vegetação constituída essencialmente por giestas, alimentada pelos solos ricos em água. Mas a paisagem deslumbrante, marcada por profundas linhas de água e sinuosos regatos murmurejantes, encobria dificuldades insuspeitadas. Que o diga Tiago Aires (SRSP Gafanhoeira), sagrado na véspera Campeão Nacional de Sprint e que aqui, no 6º ponto dum total de 23, se “atascou” completamente – como se diz na gíria da Orientação – falhando-o e perdendo a possibilidade de discutir não apenas o título Nacional de Distância Média como o próprio Troféu Norte Alentejano. Quem não se fez rogado foi o sueco Crister Nygren (Norbergs OK) que levou de vencida a etapa, com 34:51 para os 6.100 metros do percurso, contra os 37:58 do seu compatriota Johan Lindahl (Täby OK) e os 38:42 de Marco Póvoa (ADFA). Os 4º e 5º lugares viriam a ser ocupados, respectivamente, por Pedro Nogueira (ADFA) e Joaquim Sousa (COC).

Marco Póvoa não escondia a sua enorme satisfação por mais um título nacional: “Vim com o intuito de competir. As pessoas sabem que passei sete meses em Timor, estive praticamente dez meses sem treinar e competir, só este mês perdi cinco quilos e o meu intuito centrava-se em vir aqui para fazer o melhor possível.” Relativamente à sua prova, o atleta da ADFA confessa que “o mapa era exigente do ponto de vista técnico e é, seguramente, um dos melhores mapas que temos, a partir de agora, em Portugal. Mas o que eu gosto, acima de tudo, é de fazer Orientação e devo dizer que a prova não me correu muito bem. Cometi demasiados erros, mas os meus adversários cometeram mais erros ainda. Depois da desilusão no Nacional de Distância Média de 2007, em que fui quarto ou quinto, esta vitória acabou por ser muito moralizadora.” Relativamente ao que falta de provas na presente temporada, Marco Póvoa não esconde que estará no Nacional de Distância Longa, no Nacional Absoluto e no Nacional de Estafetas “para ganhar”.

Na elite feminina, a finlandesa Tiina Kivimäki (HS) repetiu o triunfo do sprint urbano, gastando 34:26 para os 4.800 metros do percurso (22 pontos de controlo). A distantes 4:25, Maria Sá (GD4 Caminhos) concluiria na 2ª posição enquanto outra finlandesa, Hanna Ruhanen (HS) seria 3ª classificada com 40:35. Raquel Costa (SRSP Gafanhoeira) na 4ª posição e Emília Silveira (ADFA) no 6º lugar completariam o pódio Nacional de Distância Média.

Ainda a recuperar da imensa alegria de juntar o título de Sprint da véspera ao título de Distância Média, as primeiras observações de Maria Sá vão para o terreno em si: “Se me trouxessem aqui de helicóptero, com os olhos vendados e me deixassem, eu diria que estava no Gerês.” A abordagem foi cautelosa: “Comecei muito devagar. Percebi imediatamente que os pontos estavam muito próximos, numa zona extremamente complicada, mas comecei a ganhar confiança. Apesar de vir sempre à luta e acreditar na vitória, sabia que a Raquel Costa, que é cá do Alentejo, estaria mais talhada para este tipo de terrenos. Daí que esta vitória me deixa imensamente feliz, lutei até ao fim e valeu a pena.” Uma última referência para o mapa: “É daqueles mapas em que é preciso saber utilizar o semáforo. Quando pudemos correr, siga (!), é o máximo. Mas quando chegamos à zona técnica, ligamos o laranja ou o vermelho e andamos, se for preciso, a passo, para não falhar.”

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.


JOAQUIM MARGARIDO

domingo, 30 de março de 2008

ORIENTA-TE!



UMA MANHÃ INESQUECÍVEL

As grossas bátegas de água da madrugada, o céu pardacento aos primeiros alvores da manhã e uma noite mais curta devido à mudança para a chamada “hora de Verão” terão sido os principais responsáveis pela fraca participação no “Orienta-te!”, a primeira acção de iniciação à Orientação levada a cabo pelo Serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital da Prelada. Mas aqueles que souberam dizer “presente” na manhã deste último domingo de Março, não deram, seguramente, o seu tempo por mal empregue.

A iniciativa contou com a colaboração do clube Ori-Estarreja, que forneceu não apenas os mapas mas também dois monitores, o Filipe e o Franquelim. Do Grupo Desportivo 4 Caminhos (Senhora da Hora) vieram a Aida, o Cabral e o Fernando. O grupo seria reforçado com um sexto elemento, a título individual, o Luís. Um cartel verdadeiramente luxuoso que brindou os quinze participantes (cinco dos quais crianças) com uma manhã de Orientação absolutamente fantástica, com tanto de lúdico como de didáctico.

Uma breve prelecção permitiu abordar pormenores de ordem geral relacionados com a modalidade. Com a chegada das dez horas, os pequenos grupos entretanto formados embrenharam-se aos poucos na floresta, nessa altura já repleta de luz e cor, o sol brilhando por entre as copas dos pinheiros. A enorme mancha florestal do Furadouro abriu-se em todo o seu esplendor e o mapa traçado revelou-se ideal para esta iniciática sessão. Os 11 pontos, distribuídos ao longo dum percurso circular de 3.600 metros, foram sendo vencidos com surpresa e emoção, sobretudo pelas crianças que descobriram uma forma de partilhar com os adultos esta deliciosa “caça ao tesouro”.

Os monitores foram exímios na forma como explicaram a sinalética ou chamaram a atenção para os pormenores de relevo ou as marcas no terreno – trilhos, vegetação – e sua correspondência no mapa. As ligeiras pausas iam servindo para retemperar forças, apurar os sentidos, sorver o ar fresco da manhã e ouvir o cantar próximo dos rouxinóis ou, mais longínquo, o bramido do mar.

No final fica a certeza de que este é o desporto ideal para os amantes da natureza, para todos quantos pretendem desenvolver um pouco de actividade física em contacto íntimo com aquilo que de belo nos rodeia. E também um desporto adaptado a todas as idades e a diferentes índices de condição física. E fica também a promessa de que novas e igualmente interessantes iniciativas irão surgir no breve prazo.

Gostaria de deixar aqui o sincero reconhecimento àqueles que se disponibilizaram a partilhar connosco uma manhã tão especial, a ajudar-nos a levantar a pontinha do véu deste fascinante mundo que é a Orientação. Agora resta-nos esperar pelo fim-de-semana de 19 e 20 de Abril, no ambiente fantástico dos jardins do Palácio de Cristal, do Parque da Pasteleira ou dos jardins da Casa de Serralves, numa prova “a sério” organizada pelo Grupo Desportivo 4 Caminhos.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

sexta-feira, 28 de março de 2008

VENHA CONHECER... MARIA SÁ


Chamo-me… MARIA João da Silva Leite de SÁ
Nasci no dia… 2 de Novembro de 1986, em Vila do Conde
Vivo em… Vila do Conde
A minha profissão é… Estudante
O meu clube… Grupo Desportivo 4 Caminhos
Pratico orientação desde… 2001

Na Orientação…

A Orientação é… estratégia!
Para praticá-la basta… motivação!
A dificuldade maior é… deixar de fazer Orientação!
A minha estreia foi em… Santo Tirso!
A maior alegria… quando fui Campeã Latina e Campeã Nacional Absoluta, ainda em idade de júnior, em 2004!
A tremenda desilusão… a Prova de Sprint do Campeonato do Mundo, no ano passado, na Ucrânia!
Um grande receio… um dia não poder fazer Orientação!
O meu clube… mais do que o emblema… mais do que a camisola… talvez já tenha sido mais… é dificil!
Competir é… o maior prazer da vida!
A minha maior ambição… chegar aos 50 primeiros do Mundo!

… como na Vida!

Dizem que sou… tímida!
O meu grande defeito… ser pessimista!
A minha maior virtude… ambição!
Como vejo o mundo… uma oportunidade para ser feliz!
O grande problema social… a inveja!
Um sonho… ser sempre feliz!
Um pesadelo… a morte!
Um livro… já li tantos… sei lá...!
Um filme… “A Vida é Bela”!
Na ilha deserta não dispensava… a família!


Na próxima semana venha conhecer... Carlos Monteiro.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

terça-feira, 25 de março de 2008

CRÓNICAS DO NAOM2008 (VI)



COM OS OLHOS CERRADOS

Estendido sobre o leito,
hirto, e de olhos fechados,
exactamente como se tivesse morrido,
fiquei à espera de uma coisa qualquer.

Silêncio.


Impossível descrever esta força. Uma estranha, enorme força que me prende à terra, me oprime o peito, me aniquila o querer e a vontade. Sinto-me como que curarizada por um qualquer dardo envenenado soprado da zarabatana certeira dum astuto índio nos confins da selva amazónica. Mas não há árvores, nem pássaros coloridos com os seus gritos estridentes, nem a humidade sufocante que se desprende do rio. Apenas este imenso terreiro e o sol que me cega. E gente… toda esta gente à minha volta, alheada, indiferente, falando animadamente ou disparada em todas as direcções numa alegre correria. O coração bate-me a descompasso, tenho a testa perlada de suor. Que faço aqui deitada? E aquele velho, no alto da escadaria, porque olha para mim daquela maneira? De que ri? Porque não me vem socorrer?

O peito esvazia-se como um balão que se desinsufla. Corro. Corro sempre, levada para lá da imaginação por um qualquer impulso indecifrável. As pedras irregulares da calçada magoam-me os pés nus, mas corro, corro o mais que posso. Cruzo-me com outros que, também eles, correm, trazendo nas mãos estranhos objectos e não menos estranhos mapas, de verde e cinzento coloridos. Olho para as minhas próprias mãos e também eu tenho um mapa igual. Rodo-o em todos os sentidos, tentando decifrá-lo. Nem o nome duma praça, duma avenida, duma rua. Tão pouco sinais dum “H” ou dum “i”. Apenas aquele verde e cinzento, umas estranhas linhas castanhas, uns pequenos pontos pretos… E números, muitos e grandes números a vermelho, no centro de círculos igualmente vermelhos. Levanto os olhos do mapa, contemplo a imponente abertura na muralha à minha frente e leio baixinho: “ERA SENHOR O MUI NOBRE REI D. AFONSO DE PORTUGAL FILHO DO MUI NOBRE REI D. DINIS”.

Recuo um passo… dois… três… Continuo a recuar, mais depressa, mais depressa, até perder o equilíbrio. Mas não há queda. Um estrado de cristal de rocha suporta agora o meu corpo. No seu interior, debruada a ouro e esmeraldas, uma gigantesca rosa-dos-ventos indica-me os pontos cardeais à medida que me elevo numa espiral de sonho e de vertigem. Agora vejo-a, pequenina vila de branco caiada, profundamente, imensamente bela. Dominada pelo altivo castelo, rasgada por serpenteantes ruas e ruinhas e pontuada de pequeninas torres sineiras, cujos nomes passam diante de mim como que por magia: Santo Amaro, S. Roque, S. Francisco, S. João Batista, S. Tiago, Nossa Senhora da Alegria.

Um rumor brando,
vagamente sibilante
como um gás que se escoa sem ruído,
penetrou-me os ouvidos
e foi-se ocupando do cérebro, manhosamente,
como coisa sua,
nível após nível, milímetro a milímetro,
num alargamento insidioso
que tudo ocupa e tudo inutiliza.


Sou atraída para uma rua estreita onde brinca o frio vento norte por entre as duas portas geminadas da casa da esquina. Lá dentro, uma voz cava entoa um cântico sagrado. Entro. As costas estão geladas e tenho a blusa empapada em suor. Homens de fato escuro e camisa branca, imaculada, acotovelam-se na acanhada sala, o olhar preso na criança entregue pelos pais aos cuidados dum casal. É um bebé, ainda. Tem apenas oito dias. A mulher deposita sobre o colo do homem a criança, que rompe num choro agudo, penetrante. Todos sorriem. Estranhas palavras bailam na minha cabeça: “Brit Milá”, “Kvater”, “Sandec”. “Mitzvah”. É então que, de todas as bocas, sai um sussurrado “Mohel”. Reparo no homem, na sua longa barba branca, no pequeno bisturi que segura firmemente na mão direita enquanto se aproxima da criança. Que parou de chorar…

Corro agora o mais que posso. A rua inclina-se abruptamente e desço a uma velocidade vertiginosa. Enormes floreiras nas entradas das portas, um gato que recebe os raios de sol de final de tarde, mulheres a varrerem um pátio, heras esculpidas num portal granítico, pessegueiros em flor, varadins de ferro forjado, uma fonte. “Água da Fonte da Vila”, lê-se sobre uma porta ao fundo da pequenina praça. Mergulho as mãos até aos cotovelos e deixo-me assim ficar. Observo a fonte, o seu mármore polido, a forma de candelabro, o menino esculpido numa das faces, agachado e com um joelho em terra, parecendo ajudar a segurar a coroa que encima o escudo real. Passou muito tempo, pouco tempo, quem sabe?… Tenho as mãos geladas e dormentes, uma dor fina atravessa-me a axila esquerda. Num repente, retiro os braços da água, molhando tudo à minha volta.

É tarde e tenho de regressar. Os candeeiros emitem uma luz fantasmagórica e a noite enche-se de sombras irreais, perturbadoras. Caminho sem destino, o inútil mapa ainda e sempre cerrado entre as minhas mãos. Olho para o fundo da estreita rua e sou atraída por um intenso clarão. Apesar de permanecer imóvel, a luz vai aumentando e o seu brilho quase me cega. Percebo, pelo tremendo ruído, que uma multidão se aproxima, entra na rua e vem ao meu encontro. Impossível resistir àquela maré de gente que toca efusivamente campainhas e chocalhos no meio duma imensa alegria. Pergunto ao homem que trás uma criança pela mão onde vão todos. “Vamos ver aparecer aleluia”, diz, quase sem me olhar.

“Pi… pi… pi…” Estou novamente no terreiro e aqueles sons agudos, ritmados, parecem querer perfurar-me os tímpanos. Todos olham para mim com impaciência. Tenho o mapa na mão mas não sei o que fazer dele. E aquele interminável “pi… pi… pi…” a martelar-me aos ouvidos. Tenho de fazer algo, mas o quê? Impossível suportar mais esta angústia. Perco-me em mim mesma, liquefaço-me por dentro, caio no abismo… Dou um salto da cama! O despertador não pára de emitir um sincopado e monótono “pi… pi… pi…”. Tropeço na roupa espalhada pelo chão e aproximo-me da janela. Está ainda escuro. Olho para o relógio: 06:51. Lá fora a chuva cai, impiedosa morrinha “molha-tolos”. Sento-me na cama. Aos meus pés, amarrotado, um mapa. Verde e cinzento. Na penumbra, consigo ler: "CASTELO DE VIDE".

Agora eram acenos, mãos veladas
que me chamavam,
como se além de nós houvesse mais alguma coisa,
como se na paisagem esvaziada da morte
caber pudesse a memória de um sorriso,
aquele sorriso branco, profundamente interior,
que é suporte da vida
e dela o único bálsamo.

Permaneci esperando,
hirto, e de olhos fechados.

Esperei.

Esperei.

E como nada mais acontecesse
levantei-me, e fui fazer o pequeno-almoço.


JOAQUIM MARGARIDO

segunda-feira, 24 de março de 2008

CRÓNICAS DO NAOM2008 (V)



INSTANTE

Ali, em certa tarde,
ia um homem no acto de quem anda
e vai continuar.
O pé direito atrás, mal tocando no chão,
o esquerdo mais à frente, levantado.

O centro histórico de Castelo de Vide, “notável vila do Norte Alentejano”, recebeu a segunda manga do Campeonato Nacional de Sprint de Orientação Pedestre. A jornada matinal não pareceu afectar fisicamente os atletas, atendendo à energia e ao entusiasmo com que se foram apresentando na Praça D. Pedro V, num solarengo e acolhedor início de tarde. Enquanto se procedia ao aquecimento e se aguardava pacientemente pela entrada em acção, Póvoa e Meadas era, ainda e sempre, o denominador comum de todas as conversas.

À medida que a prova se desenrola, percebe-se que está atingido um dos grandes objectivos da Organização. Com efeito, aos muitos populares que, das escadas dos Paços do Concelho ou do varandim da Igreja Matriz, assistem às partidas e chegadas, juntam-se agora os habitantes do centro histórico que, pacatamente instalados à soleira das portas ou das janelas das suas casas, seguem atentamente o desenrolar dos acontecimentos. Estamos perante uma autêntica “operação de charme” na qual a Orientação se dá a conhecer, levantando interrogações, suscitando comentários, despertando a curiosidade, chamando a atenção.

Na vertente competitiva, a prestação vespertina acabou por ser determinante no escalonamento final dos atletas. Apesar de ligeiramente mais curtos e com menos controlos, os percursos apresentavam elevado grau de dificuldade técnica, como que a provar que a simplicidade dos mapas urbanos é mais aparente do que real. A este facto acresce uma enorme exigência do ponto de vista físico, num desgastante sobe e desce por entre uma malha urbana tecida aos sabores dum relevo com tanto de belo como de caprichoso.

Todo o corpo do homem se inclinava
obliquamente em relação ao solo.


Na prova destinada à elite masculina, o sueco Crister Nygren (Norbergs OK) levou de vencida a concorrência ao completar os 2500 metros do percurso em 16:33. Os três atletas seguintes – Tiago Aires (SRSP Gafanhoeira), Marco Póvoa (ADFA) e Joaquim Sousa (COC) - viriam a conquistar o pódio nacional de Sprint por esta ordem, com o vencedor da manhã, Paulo Franco (AA Mafra), a ter um desempenho menos conseguido e a não ir além do 15º posto, que o atiraria para o 8º lugar no Nacional.

Ao repetir o segundo lugar da manhã, Tiago Aires alcança um título com um sabor muito especial, como o próprio admite: “É sempre importante um título nacional, mas este é-o em particular já que nunca tinha ganho o Campeonato Nacional de Sprint como sénior.” Relativamente ao conjunto das duas provas, Tiago Aires foi de opinião que “os locais onde se desenrolaram eram ideais pelas suas características, o de floresta com muitos detalhes rochosos mas de fácil progressão e o urbano num local fantástico, seguramente um dos melhores mapas de sprint urbano no nosso País”. E destaca ainda as vantagens deste figurino em duas mangas, “conciliando a floresta com a parte urbana e proporcionando às pessoas uma segunda prova, já que é muito desmotivador fazer uma deslocação tão grande para um quarto de hora de prova.”

A elite feminina viu a finlandesa Tiina Kivimaki (HS) alcançar uma vitória de sabor amargo, depois desse desastroso “missing point” da manhã que a afastou irremediavelmente dos lugares cimeiros do Troféu Norte Alentejano. Maria Sá (GD4 Caminhos) confirmou a excelente prestação da primeira manga e, graças ao segundo posto, repete o título nacional alcançado em Pavia (Mora), em Abril do ano passado. Raquel Costa (SRSP Gafanhoeira) e Paula Nóbrega (OriMarão) ocuparam os lugares imediatos do pódio.

Para Maria Sá, “esta vitória é muito importante e corresponde a um objectivo que tinha traçado, já que foi nesta distância que apostei este ano e para a qual estou a trabalhar.” Mas a vitória teve um sabor especial também porque foi conseguida “numa prova organizada pelo ‘4 Caminhos’ – claro! -, e por ter corrido com a adversária mais forte, que é a Raquel Costa”. Para Maria Sá a chave da vitória esteve na parte da tarde, “embora não tenha entrado tão rápido no mapa como de manhã. Apesar de ser em percurso urbano, havia muitas escadas, calçada portuguesa, muitas subidas e foi complicado. Mas tecnicamente estive muito bem, praticamente não cometi erros e penso que foi isso que me deu a vitória.”

Desde o princípio do mundo
que tudo estava orientado naquele exacto sentido.
Naquele instante
aquele homem
teria aquele pé levantado do solo,
o esquerdo,
e o outro, o pé direito, levemente pousado.


JOAQUIM MARGARIDO

sexta-feira, 21 de março de 2008

VENHA CONHECER... DUARTE LOPES

Chamo-me… DUARTE Nuno Fernandes LOPES
Nasci no dia… 7 de Julho de 1970, em Chaves
Vivo em… Belas (Sintra)
A minha profissão é… Gestor Desporto Universitário
O meu clube… CIMO – Clube Ibérico de Montanhismo e Orientação
Pratico orientação desde… 1992 ou 1993

Na Orientação…

A Orientação é… o meu desporto!
Para praticá-la basta… gostar da natureza!
A dificuldade maior é… não se perder!
A minha estreia foi em… já foi há muitos anos… foi em… já não me lembro!
A maior alegria… foi um primeiro lugar numa prova na minha terra, em Boticas!
A tremenda desilusão… desistir numa prova do POM 2007, por dificuldade técnica!
Um grande receio… as lesões!
O meu clube… representa todas as vertentes da floresta!
Competir é… um jogo!
A minha maior ambição… participar num POM daqui a 45 anos!

… como na Vida!

Dizem que sou… divertido!
O meu grande defeito… desconfiado!
A minha maior virtude… lealdade!
Como vejo o mundo… redondo!
O grande problema social… os políticos!
Um sonho… ser feliz!
Um pesadelo… a mentira!
Um livro… que vou escrever!
Um filme… que faço todos os dias!
Na ilha deserta não dispensava… a minha mulher e o meu filho!


Na próxima semana venha conhecer... Maria Sá.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

sexta-feira, 14 de março de 2008

VENHA CONHECER... SÓNIA CRISTINA


Chamo-me… SÓNIA CRISTINA dos Santos Figueira
Nasci no dia… 17 de Junho de 1976, em Vila Franca de Xira
Vivo em… Sesimbra
A minha profissão é… Militar
O meu clube… Amigos do Atletismo de Mafra
Pratico orientação desde… 1999

Na Orientação…

A Orientação é… o desporto no meio do mato!
Para praticá-la basta… uma bússola e vontade de correr!
A dificuldade maior é… orientar-se!
A minha estreia foi em… não me lembro… foi há nove anos atrás!
A maior alegria… chegar ao fim da prova e não me perder em nenhum ponto!
A tremenda desilusão… é perder-me num ponto!
Um grande receio… aleijar-me!
O meu clube… é uma família!
Competir é… diversão!
A minha maior ambição… fazer uma prova sem cometer erros!

… como na Vida!

Dizem que sou… não sei!
O meu grande defeito… é tentar fazer tudo perfeito!
A minha maior virtude… é procurar sempre compreender os outros!
Como vejo o mundo… onde todos podemos dar o nosso melhor, no caminho da compreensão e da paz!
O grande problema social… a pobreza!
Um sonho… ser feliz!
Um pesadelo… ser infeliz!
Um livro… “Ensaio sobre a Cegueira”!
Um filme… “Rain Man”!
Na ilha deserta não dispensava… comida!

A todos quantos por aqui vão passando os olhos e os sentidos, quero dizer "até já!". Um curto período de férias afastar-me-á destas lides por algum tempo. Mas voltarei logo a seguir à Páscoa, com o que falta das Crónicas do NAOM, retomando o "Venha Conhecer..." e trazendo mais curiosidades sobre este fascinante, viciante mundo da Orientação.

Uma Santa Páscoa.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO



quinta-feira, 13 de março de 2008

CRÓNICAS DO NAOM 2008 (IV)



NESTA ENVOLVENTE SOLIDÃO COMPACTA

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.


Nasci na noite dos tempos, do magma solidificado das profundas do manto. Vi abrir-se a terra à minha volta, escalavrada em vómitos de lava e golfadas de cinza, ante o riso aterrador de Zeus e Vulcano. Torrentes de lama, ventos ciclónicos, chuvas diluvianas, marés geladas, arrancaram-me camadas e camadas de pele, espalhando-a aos quatro ventos e modelando-me naquilo que sou: Redonda, rugosa, enegrecida, gigantesca, inerte.

Sou pedra, sim! Pedra-mãe, orgulhosamente transformada neste bloco granítico plantado no ponto mais alto da colina mais alta. Os meus filhos são todos os pequenos grãos de quartzo, feldspato e mica que se estendem à minha volta, se agarram às frágeis raízes das papoilas, revolteiam com o vento sul ou se comprimem debaixo de mim. E se tenho um coração de pedra, se o sangue há muito que me estagnou nas veias, isto não significa que não tenha alma. Redonda, rugosa, enegrecida, gigantesca e inerte como eu mas, ainda assim, alma. Que tudo vê, que tudo sente, que tudo sofre.

Agora que vos vejo aqui, correndo em redor de mim, compreendo o porquê de me terem plantado à ilharga uma estaca, com um número bem desenhado e na qual baloiça ao vento um belo prisma alaranjado e branco. Foram dois de vós que aqui a deixaram, ainda mal se anunciava a alvorada. Quando a águia-real passou e, como todos os dias, me trouxe notícias do Norte, da Ribeira de Figueiró e da lagoa da Fadagosa, quis saber a sua opinião. “Estão a preparar-te alguma”, ouvi-a gritar, toda elevada no majestático voo, a caminho de Alpalhão. Ergui então os olhos para a pequena aldeia e, por três vezes, repeti baixinho o seu nome: Nossa Senhora da Graça de Póvoa e Meadas.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.


Porque teimais em correr, correr sempre? Convido-vos a trepar no meu dorso. Retende-vos por momentos e contemplai a paisagem. Sabei que aqui, neste preciso lugar onde vos encontrais, outros olhares perscrutantes sondaram o horizonte há vinte mil anos atrás. Aqui se fixaram na manada de esquivos e imponentes auroques que lá em baixo pastavam. Aqui os aguardaram pacientemente, os embuscaram e mataram, aqui comeram a sua carne ainda morna e, com as mãos tintas de sangue, sobre a minha pele fremente gravaram o relato dos seus feitos. E gritando, daqui partiram com um dos seus, estropiado e já sem vida, para o enterrar lá para a Melriça, algures além da terceira colina.

Pulsa em mim uma energia transbordante quando vejo os mais pequenos, também eles em alegre correria. Sei bem o quão inútil seria pedir-lhes para se quedarem um pouco comigo, crianças que são, irrequietas por natureza, fugidias por virtude. Contar-lhes-ía a história de Búcia, filha de Câmalo, de como viveu em plenitude a vida que deveria ter vivido, de como encheu os seus anos, de como partiu há dois milénios atrás. O quanto gostava de mim e da minha sombra, da minha solidez e austeridade. De como em mim se refugiava. Do quanto sofri quando aos meus olhos a sua estela ricamente lavraram e à cabeceira da sua campa a depositaram. De como ainda mais sofri quando a sua tumba vandalizaram e daqui a lápide levaram para servir de esteio a uma das casas da aldeia.

Póvoa e Meadas, Póvoa e Meadas, que nada escondes e tanto tens para contar. Porque não dizes de como foste fundada pelos Templários? Terás ainda vergonha dos irmãos Cáceres, castelhanos de má memória? Ou desse terrível assassino e usurpador de direitos que foi Fernão de Macedo? Porque não lhes falas da doação que D. Afonso V fez a Pedro de Moura? Ou do Alferes de Ordenanças João de Almeida e do seu heróico gesto de restauração da Bandeira, em 1642, durante a longa guerra com Castela? Ou do triste episódio do ferreiro Miguel Dias, vítima da Inquisição, que em Évora experimentou o potro e recebeu tratos de polé? Ou da tua Barragem, da Romaria de S. Silvestre, do Madeiro pela Nossa Senhora da Conceição, do Carnaval e do S. Martinho, das Festas de Verão? Ou...

Bem sei que não adianta olhar para trás. Mas que queres? O meu tempo não é igual ao teu. Passa tão devagar. Aqui onde me encontro sou redonda, rugosa, enegrecida, gigantesca e inerte pedra que mais não tem que memórias, perdidas no tempo dos tempos para passar o tempo. O meu tempo, nesta envolvente solidão compacta! E se o meu coração é de pedra, se há muito que o meu sangue se estagnou nas veias, ainda me sobra esta alma que vive o tempo presente. Na apatia da Catarina Fernandes, nas certezas da Olga Pirrolas, nas precauções do Ataíde Rosa, na confiança do João Filipe, na esperança do José Oliveira, na indecisão da Sophie Sampaio… No coração e no olhar de todos vós. E na alma deste Norte Alentejano O’Meeting.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concentro,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se e desflorar-se,
é nosso, de mais ninguém.


JOAQUIM MARGARIDO

quarta-feira, 12 de março de 2008

CRÓNICAS DO NAOM 2008 (III)



MINHA ALDEIA

Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

O Sol vai alto e inunda a aldeia de luz e cor. Póvoa e Meadas é ponto de confluência de orientistas de todo o País. Plantado no centro da povoação, o Rossio vai acolhendo uma estranha, entusiástica, ruidosa, colorida multidão. Instalados nos pequenos bancos em torno do largo, sentados nos passeios que delimitam mimosos e floridos canteiros, conversando em animados grupos à volta do coreto, recolhendo a certificação junto ao Secretariado ou tomando café no “Comezainas”, todos aguardam tranquilamente pela chegada das onze horas.

Disputado em duas mangas, o Campeonato Nacional de Sprint terá o seu arranque num terreno típico de montado Alentejano. Gigantescos blocos graníticos e seculares sobreiros competem com marcos geodésicos, depósitos de água e um ou outro casebre, abrigo de pastores e do gado, pelo domínio da paisagem. Alheias a tudo, as giestas em flor estendem-se a perder de vista, explosão de pontinhos brancos, luminosos, delicioso fogo-de-artifício que se abre aos nossos pés, ao nosso olhar.

Mapa na escala de 1 / 4 000, distâncias, desníveis e controlos variáveis de acordo com cada um dos 32 escalões em prova, dos 1.100 metros (12 controlos) em Infantis, aos 2.700 metros (25 controlos) nos escalões H21Elite e H21A, são aspectos técnicos que não se dispensam e que geram as maiores expectativas em todos. Que já se vão concentrando junto ao pórtico da pré-partida, vão dando e nome e arrancando, cada um ao seu ritmo, rumo à partida real.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.


Ao longo deste escasso quilómetro, a animação persiste ainda. Mas quase se limita aos OPT’s, àqueles que estão aqui para absorver mais de perto as belezas naturais, olhar pela sua saúde através da prática do exercício físico e (porque não?) pôr à prova os seus conhecimentos, capacidades e sentido de orientação. Todavia, quem veio para competir, sabe bem que o espera uma prova muito rápida e onde talvez valha a pena arriscar tudo. Ou talvez não! Tem-se igualmente consciência de que qualquer pequeno deslize pode traduzir-se num resultado deveras aquém das expectativas. E com pouca margem de manobra para recuperar na segunda manga, da parte da tarde, no centro histórico da vila de Castelo de Vide.

O mapa revela-se simultaneamente técnico e muito rápido. E traiçoeiro, também. Na elite masculina, Paulo Franco (AA Mafra) arrancará um sensacional tempo de 15:31, sobrepondo-se aos favoritos Tiago Aires (SRSP Gafanhoeira), Joaquim Sousa (COC) e Marco Póvoa (ADFA), com o sueco Crister Nygren (Norbergs OK) de permeio. Separam-nos tempos inferiores a um minuto, o que deixa tudo em aberto para a segunda manga. Nas senhoras, uma Maria Sá (GD 4 Caminhos) ao seu melhor nível bate toda a concorrência, gastando 18:22 para os 2,4 km do percurso, abrindo as melhores perspectivas para levar de vencida este Campeonato Nacional de Sprint. Termina com praticamente dois minutos de vantagem sobre a sua mais directa opositora, Raquel Costa (SRSP Gafanhoeira), terceira classificada, e tem agora uma confortável margem de tempo para gerir. O segundo lugar é ocupado pela sueca Elin Pettersson (Täby OK).

No "Comezainas" não há mãos a medir. Entre dois dedos de conversa, prova-se sopinha caseira, umas bifanas no pão de se lhe tirar o chapéu, bola de carne, tartes, tortas, rolos e umas queijadas de ir às lágrimas. Delicioso lenitivo que permite recuperar o corpo e o espírito. De regresso à vila, apreciamos o alcantilado castelo e adivinha-se o branco casario na encosta sul. Para trás fica Póvoa e Meadas, muita alegria e satisfação. Mas também uma nota de contestação: “Não correu bem, as coisas não funcionaram.” Quem assim fala é José Mendes, Presidente da Junta de Freguesia, um homem que, depois de se ter reformado, assumiu os destinos da Junta, onde diz estar “por carolice”.

Vai no terceiro mandato, sempre com maioria absoluta, é um homem querido e respeitado por todos e ama a sua terra acima de tudo. Com total entrega, alegria e entusiasmo colaborou com a Organização, mas no final sente-se desgostoso: “Não queremos protagonismo mas faltou um ‘toque’, merecíamos um pouquinho mais de atenção. Os Governos não querem saber das Juntas de Freguesia rurais e acabamos sendo o parente pobre da Democracia. Daí que isto fosse importante para que nos mostrássemos pela positiva. Já pus um ponto final no assunto, mas o certo é que Póvoa e Meadas perdeu a sua oportunidade.” Não veremos José Mendes no Jantar. Tão pouco na Cerimónia de Entrega de Prémios, ao final da noite. Para ele, o Norte Alentejano O’Meeting terminou.

Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que emergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.


JOAQUIM MARGARIDO

terça-feira, 11 de março de 2008

CRÓNICAS DO NAOM 2008 (II)



NO TEMPO DOS HOMENS-RÃS

Sou feliz por ter nascido
no tempo dos homens-rãs
que descem ao mar perdido
na doçura das manhãs.

“É um sonhador?” A pergunta apanha-me desprevenido, como desprevenido me apanha a situação, aquele momento, aquele tempo e espaço. Sentados, num frente-a-frente apenas entrevisto como que em sonho, ali estamos os dois, o embaraçoso microfone a tolher-me as ideias, a embotar-me os sentidos, a roubar-me a palavra. Mas porque hei-de estar assim, coração a descompasso, o olhar vazio pousado sobre coisa nenhuma? Não sou eu um sonhador? Claro que sou um sonhador. Acima de tudo!

Fernando Correia é o meu interlocutor. Ali estamos, eu e ele, dois sonhadores entre o bucolismo duma ruralidade que nos entra pelos olhos adentro e a angústia de ser “mãe-mulher”, lavrada a sangue e tinta nas alvas paredes deste Salão Nobre da Câmara Municipal. Demandou Castelo de Vide ao encontro da indissociável tríade “Orientação - Norte Alentejano O’Meeting - Fernando Costa”. Trouxe consigo essa necessidade intrínseca de comunicar, de colher ideias e impressões, de as espalhar aos quatro ventos nos longos cabelos ondeados do Rádio Clube Português. E que bem que o faz.

Falo-lhe do sonho. Daquele que comanda a vida. Dessa absoluta necessidade, desse acreditar de que tudo vale a pena, dessa busca incessante de experiências feitas de vida, feitas de sonho. Falo-lhe do João, da contagiante alegria de ser criança, de caças ao tesouro, da célula familiar fortalecida por ideais e objectivos comuns, dos escolhos e dificuldades em trilhar o bom caminho, do tempo perdido, do ponto perdido, da constante necessidade de reorientarmos os nossos interesses e vontades, do sentido da vida, de vidas sem sentido. A palavra flui torrencialmente. Já consigo olhá-lo nos olhos. Vejo-o sorrir, sinto-o a sonhar. Obrigado, Fernando Correia, pela tua sensibilidade, por acreditares que é sempre possível revelar o rosto dos que não têm rosto, por teimares em dar voz às palavras.

Sob o luminoso feixe
correm de um lado para outro,
montam no lombo de um peixe
como no dorso de um potro.

A emissão aproxima-se do fim e a viagem prossegue com o Dr. António Pita ao encontro de saberes e sabores. Poiso o olhar no Fernando Costa. Adivinho no seu rosto sereno a tremenda contradição entre a emoção do momento presente e o caminho que se abre à sua frente, agora que se escoa todo um longo e árduo trabalho de preparação e é chegada a hora da verdade.

Deixo de estar ali, o pensamento atravessando na diagonal um ano recheado de explosões de alegria ou de angustiantes retrocessos. Procuro investir-me na sua pele mas a tarefa revela-se impossível. Quantos milhares de quilómetros vencidos entre Matosinhos e Castelo de Vide, quantos contactos, quanto emoção partilhada sob a forma de texto, quantas expectativas criadas, quanto desilusão pelo toldo que se perde, pelo camião que se avaria, pelas partidas que a informática nos prega. Quanta tristeza pelo amigo que perdeu alguém que lhe é querido e não recuperou forças nem ânimo para uma solidária presença.

Mas são tantos os presentes. A Aida, a Céu, o Zé Mário, o Cabral, o Luís Faria, o Octávio, o Marcolino, o Manuel Martins, o Castro, o Moutinho, o Delgado, o João Alves, a Margarida, o João Teixeira, o Ricardo… Com uma família assim, nada há a recear.

O jantar estende-se noite dentro. Descubro um pouco mais de Castelo de Vide pelo saber de experiência feito de António Ribeiro e Carolino Tapadejo. Açorda, ensopado de borrego, plumas de porco alentejano, doçaria conventual e um Conventual Tinto 2006 de se lhe tirar o chapéu, são pretexto para duas horas de fraterno convívio e de aproximação entre todos. Unidos num ideal comum, brindamos a Castelo de Vide e à natureza, à Orientação e ao Norte Alentejano O’Meeting. É uma da manhã, hora de descansar!

Eu sou o homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
Não há temores que me domem.
É tudo meu, tudo meu.

JOAQUIM MARGARIDO

segunda-feira, 10 de março de 2008

CRÓNICAS DO NAOM 2008 (I)



ESTRELA DA MANHÃ

Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.
Como se cumprisse um dever.

O Sol inunda a terra de cor e vida nesta Primavera antecipada. A cálida manhã espraia-se à minha frente, apontando-me caminhos do Sul. Esse mesmo iniciático Sul que marcou a minha estreia nas lides da Orientação. Um Sul que me espera e que se chama Norte: o Norte Alentejano O’Meeting.

Em marcha. Algures, do mais profundo de mim, brotam memórias. Pequenos farrapos que se vão tecendo, modelando, ganhando forma, ganhando corpo. Qual poderoso quebra-gelos, avanço ao encontro do Ártico e vejo os errantes blocos compactarem-se, agigantarem-se, até me envolverem dum branco-azul irreal, que tudo cega, que tudo ilumina.

Devoção, encanto, deslumbramento, emoção, recordação! Saudade!... Turbilhão dos sentidos, razões que a razão desconhece. Sou Ícaro sonhador que se aproxima perigosamente do sol para depois cair, lentamente, apaixonadamente. Não no mar Egeu, mas em Nisa, onde tudo começou.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar

Abre os olhos e vai.

Impossível resistir. Volto a percorrer as estreitas ruas, as pequeninas praças. Andorinhas saúdam-me num gorjeio dobrado. Bebo com emoção cada pedrinha incrustada naquela bilha centenária. Vou ao encontro do caminho para Montalvão, do 28 sobre uma porta, dum rosto vivo de pedra feito. Um deus desconhecido, Correio de Portugal, um cão que ladra, rendas de bilros, frisos amarelos, azuis, ocres. E candeeiros, e ninhos, e azulejos. E velhos à conversa na quietude do tempo…

Transfundiste em mim a alma sem te pedir autorização, sem te dar nada em troca, ó Nisa. Parto célere. Não quero, não posso olhar para trás. Salteador dos sentidos, mercenário de sonhos, tenho agora um único objectivo. A estrada alonga-se, as margens estreitam-se. Atrás duma lomba, outra lomba e mais outra, ainda. Improvável rato, aceito entrar na brincadeira onde o gato é o destino.

Espectadores atentos na voragem do tempo, os arredondados blocos graníticos tudo vêem, tudo avaliam. Só é quietude na aparência. O cheiro acre da giesta queimada, ninhos de cegonhas, uma vaca que atravessa o campo em correria, o Bastinhas que vai lidar em Alpalhão no domingo de Páscoa, um cruzeiro na berma da estrada onde alguns, alguns dias, deixam parte de si por aquele que, num só dia, num só momento, se permitiu dizer adeus…

E de súbito… Castelo de Vide. Um sol que beija com enlevo o branco casario. Um castelo que se oferece ao olhar. Lá dentro, a vila a ressumar de vida, a alma à espera de se dar. É urgente chegar.

Segue o teu meridiano, esse,
o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;
o plano de barro que nunca endurece,
onde a memória da espécie
grava os sonos imortais.

Vai.

JOAQUIM MARGARIDO

sexta-feira, 7 de março de 2008

VENHA CONHECER... JOSÉ MOUTINHO


Chamo-me… JOSÉ Joaquim Matos MOUTINHO
Nasci no dia… 21 de Novembro de 1958, em Harare (Zimbabwé)
Vivo na… Maia
A minha profissão é… Empresário
O meu clube… Grupo Desportivo 4 Caminhos
Pratico orientação desde… há cinco anos

Na Orientação…

A Orientação é… um prazer na vida!
Para praticá-la basta… ter uma floresta por perto!
A dificuldade maior é… encontrar, por vezes, a melhor opção!
A minha estreia foi em… em… já não me lembro, mas foi há cinco anos!
A maior alegria… chegar ao fim e não fazer um “missing point”!
A tremenda desilusão… é ter feito um “missing point”!
Um grande receio… não vir satisfeito duma prova!
O meu clube… é uma família!
Competir é… estar com os amigos, participar, descobrir novos sítios!
A minha maior ambição… fazer tudo aquilo que ainda não fiz!

… como na Vida!

Dizem que sou… um gajo fixe ou um ‘ganda’ maluco!
O meu grande defeito… não sei… costuma-se dizer que os nossos defeitos estão sempre atrás das costas e não conseguimos vê-los”!
A minha maior virtude… fazer amigos e não conseguir contá-los!
Como vejo o mundo… de forma ideal, que não houvesse fronteiras, tivéssemos os mesmos objectivos e confraternizássemos como se fossemos todos uma família!
O grande problema social… a pobreza, a xenofobia, tudo o que faz a diferença pela negativa!
Um sonho… pôr muita gente a pensar nas corridas de “trail”!
Um pesadelo… não conseguir pôr muita gente a pensar nas corridas de “trail”!
Um livro… “O Homem da Ultra-Maratona”, de Dean Karnazes!
Um filme… há muitos, mas muitos mesmo!
Na ilha deserta não dispensava… espaço para correr e uns ténis!

Na próxima semana venha conhecer... Sónia Cristina.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

quinta-feira, 6 de março de 2008

CORRIDINHO ALGARVIO (4)

Final de festa no Sotavento

Mais uma vez a Orientação foi alvo de uma atitude de deferência. Não é a primeira vez que temos o privilégio de podermos utilizar zonas que são consideradas verdadeiros patrimónios naturais. Agora, foi-nos franqueada a entrada na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, em pleno coração do sotavento algarvio, onde apenas têm livre-trânsito certas espécies protegidas. Senti-me de imediato como peixe na água, ou não pertença eu a uma espécie…em vias de extinção.

O teatro que nos foi posto à disposição, para o final da festa do POM 2008, não poderia ser mais bem adequado. A possibilidade de nos podermos espraiar por todo o complexo desportivo de Vila Real Santo António, tem de ser vista como uma autêntica mordomia. Dava gosto presenciar a azáfama, uma “Babel” onde todos se pareciam entender, nem que fosse por linguagem gestual, o colorido buliçoso, a preocupação no bronzeado de última hora (era vê-las a besuntarem-se), todo um afã que se ia desenrolando naquele aprazível espaço. A Organização conseguiu atingir o clímax mesmo no final.

E se tudo estava excelente, em termos de arena, então no aspecto técnico, fomos presenteados com o melhor mapa deste evento. A unanimidade quanto à qualidade do terreno não deixa margem para qualquer discussão (quem sou eu para questionar seja o que for?). Mas no melhor pano cai a nódoa e um arreliante pormenor veio quase manchar uma festa que se pretendia imaculada.

Entrei na prova, convencido que ia ser canja. Dezassete pontos dispersos por 3.600 metros de percurso, para um quase inexistente desnível. Que dificuldades poderia encontrar? Toda a gente sabe, que quando não há problemas eu tenho o dom de os criar. A primeira pernada, que não tinha trezentos metros, deu-me logo “sarna para coçar” . A vegetação, não sendo intransponível, apresentava-se demasiado densa, dificultando a visibilidade para se poder avaliar o relevo. Progredi em azimute, mas o ponto “nem vê-lo” e o cume (?), onde se situava, não deu sinal de si. Bem me fartei de correr mas o caminho que me podia ajudar parecia estar a milhas. Começou o meu problema que se manteve toda a etapa. “ - Já terei passado o ponto?”, “ - Corri demais?”, “ - Ainda não estou na zona?”. Bem, os pontos pareciam que estavam a fugir de mim. Se calculava 200 metros, tinha de fazer 300. Se atirava para 400, não chegava mais.

Este equívoco acompanhou-me até ao final. Só mais tarde, em conversa com um dos nossos especialistas, tomei conhecimento que os mapas estavam numa escala superior a 10.000. Tal hipótese nem me passou pela cabeça. E este problema já tinha acontecido em Muas. O tal detalhe que poderia ter estragado a festa. É verdade que a situação foi igual para todos, só que os mais informados imediatamente perceberam, os “espécies” fartaram-se de penar. Por acaso, não pensaram que este erro pode ter sido intencional, no sentido de elevar o grau de dificuldade do que parecia ser uma tarefa fácil? (assim obrigou a rapaziada a desfrutar um pouco mais do “Sapal”) A Organização só pretendia o nosso bem-estar.

Para além deste relevante detalhe, também nunca me adaptei muito bem à vegetação, que camuflava nitidamente as balizas, transformando os pontos em quase “camaleónicos”. Passei grande parte dos percursos a “nadar” por entre aqueles arbustos (halófilos de seu nome), pois tinha necessidade de os ir afastando com os braços, sempre na esperança de me saltar do meio deles um pontinho para o “chip” ou um camaleão linguarudo, he! he! “ - Com que então isto ia ser acessível?”, “ - Põe-te mas é esperto, Luís…deixa de ser marafado!”

Depois de ter sido abonado com uma dúzia de minutos no primeiro ponto, só tinha de respeitar o mapa, se pretendia um resultado com alguma dignidade. Sempre em esforço, dado que os pontos ficavam sempre mais longe do que eu supunha, fui conseguindo controlá-los, sem mais nenhuma tolice de monta, até que sou apanhado por novo “atascanço”, na progressão para o ponto 12 (reentrância com vegetação). Nem queiram saber a malta que andava à cata do “dito cujo”. Mais parecia um grupo excursionista em passeio ecológico. Ainda hoje não percebo o motivo que me fez perder mais de oito minutos naquela baliza. Ah! Descobri! Tive uma atitude solidária com a minha mulher, que também andava lá nas suas buscas (he! he!).

A partir daqui, dei início ao melhor período da minha prova. Apesar de não ter atingido altas velocidades, tive o condão de ir “esbarrando” com os prismas, de tal forma os azimutes estiveram atinados. Podia até me ter aleijado, não é? (he! he!). Nas imediações do ponto 14, fui interpelado por uma super-veterana que precisava de se localizar, mas o inglês dela era pouco perceptível e o meu “finlandês” já passou por melhores dias. A sorte da senhora é que aponto bem no mapa.

Quase sem dar por isso, tinha terminado a minha participação no POM 2008. Não alcancei resultados de que me possa orgulhar, mas tive o prazer de ser mais um protagonista da maior festa da Orientação que decorre anualmente no nosso país. Em 2006, apenas estive presente numa das etapas, no Pego. O ano transacto, em S. Pedro do Sul, o temporal ofuscou por completo o evento. Finalmente consegui usufruir do ambiente de festa que se vive nestas provas. Por mais que me tente lembrar, não conheço nenhuma modalidade que traga tantos atletas estrangeiros ao nosso país. Custa a entender a falta de interesse da Comunicação Social, não sabem o que perdem.

Cinco dias antes, quando me preparava para iniciar a minha viagem para sul, alguém me perguntou: “ - Para onde vais?”, ao que eu respondi, “ - ah!ah!ah! vou para a festa”. No regresso “ - Donde vens tu?” . “ - Snif! Snif! Snif! Venho da festa…”.

Luis Pereira


Com o quarto episódio do "Corridinho Algarvio", chega ao fim uma verdadeira saga orientista e literária. Mas o Luís Pereira vai aparecendo. Olá, se vai!

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

quarta-feira, 5 de março de 2008

ARRANCA O NAOM 2008

Nos dias 8 e 9 de Março, Castelo de Vide acolhe a segunda edição do Norte Alentejano O’Meeting. É o regresso da equipa organizativa do Grupo Desportivo 4 Caminhos ao Sul de Portugal, este ano elegendo a “Sintra do Alentejo” como palco dum evento que tem tudo para ser um êxito.

Realizada na tarde de hoje, a Conferência de Imprensa para apresentação do Norte Alentejano O’Meeting marcou o arranque efectivo da edição 2008. Uma edição que vem sendo preparada há mais de um ano, fruto dum trabalho aturado que visou garantir o apoio fundamental de proprietários de terrenos, Bombeiros Voluntários, Guarda Nacional Republicana, unidades hoteleiras e Órgãos de Comunicação Social da região.

Os presentes, entre os quais os Presidente e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Castelo de Vide e o Presidente da Junta de Freguesia de Póvoa e Meadas, puderam ouvir o responsável máximo pela Organização da prova, Fernando Costa, falar dos vários aspectos de que se reveste a dinâmica logística e competitiva do evento. Das suas palavras ressalta o desejo de que “os terrenos surpreendam os participantes, os percursos sejam efectivamente desafiantes e que as pessoas vão daqui satisfeitas e com vontade de voltar. Foi para isso que trabalhámos.”

Constituído por várias provas - das quais se destacam o Campeonato Nacional de Sprint e o Campeonato Nacional de Distância Média -, o Norte Alentejano O’Meeting 2008 irá ainda atribuir o Troféu Norte Alentejano, constituído pelo somatório dos pontos dos dois Campeonatos Nacionais, e comportará Campos de Treinos e Orientação para as Escolas nos dois dias anteriores à competição.

Os números da prova apontam para 720 atletas em representação de 56 equipas de 7 países, cabendo a Portugal, naturalmente a maior representação. Mas nesta edição do Norte Alentejano O’Meeting estarão igualmente presentes atletas da Suécia (12), Finlândia (5), Espanha (4), Inglaterra (2), Alemanha (1) e Hungria (2). A vertente competitiva englobará 32 escalões, 150 postos de controlo e 17 percursos diferentes em cada prova.

O Programa do NAOM2008 é o seguinte:

06.Março – Prova de Treino em Arez (Nisa)

07.Março – Prova de Treino nas Termas da Fadagosa (Nisa)
07.Março (10:30) - Orientação para as Escolas (Póvoa e Meadas)

08.Março (11:00) – Campeonato Nacional Sprint (1ª Etapa) – Póvoa e Meadas
08.Março (15:00) – Campeonato Nacional Sprint (2ª Etapa) – Castelo de Vide
08.Março – Jantar e Entrega de Prémios

09.Março (09:30) – Campeonato Nacional de Distância Média – Vale da Silvana
09.Março – Cerimónia de Encerramento e Entrega de Prémios.

Das actividades paralelas, destaca-se a Asembleia-Geral da FederaçãoPortuguesa de Orientação, a Reunião do Comité Organizador do Campeonato de Mundo de Veteranos de Orientação (WMOC’08) e uma cerimónia de distinção da FPO aos atletas que mais se distinguiram na época 2006/2007.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

terça-feira, 4 de março de 2008

PERGUNTAS & RESPOSTAS HELENA JANSSON

Nesta edição do "Perguntas & Respostas", a Ultimate Orienteering vai ao encontro de Helena Jansson, a actual 5ª classificada do “ranking” mundial e o mais jovem elemento do grupo de elite sénior 2008 da Selecção Nacional da Suécia. Niels-Peter Foppen falou com Helena acerca dos seus estudos e planos para o futuro, da sua enorme ascensão ao longo da época 2007 e das suas metas para a presente temporada.

Ultimate Orienteering (UO) – Tanto quanto julgo saber, a Helena é estudante de Medicina na Universidade Umeå. Pode dizer-nos algo sobre os seus estudos e de como consegue compatibilizá-los com a Orientação a tão elevado nível.

Helena Jansson (HJ) - Estou neste momento no meu segundo ano do Curso, o que significa que tenho ainda mais quatro anos até me licenciar. Trata-se, evidentemente, de gerir bem os estudos a tempo inteiro ao longo do Curso, o que não estou assim tão segura de que irei conseguir. Contudo, quando comecei a dedicar-me um pouco mais aos estudos há um ano atrás, nunca pensei que as coisas pudessem correr tão bem. Não acreditava ser possível fazer as cadeiras à primeira mas, até agora, é isso que tem acontecido, o que me deixa surpreendida e, sobretudo, muito orgulhosa. Vou continuar a estudar a tempo inteiro, pelo menos até ao Verão, e logo se verá. Talvez seja capaz de manter o nível de estudos a 75% ou mais, mas vou ter de esperar também pela opinião do meu aconselhador de Curso. Quanto a planos para o futuro, na verdade não tenho ainda. Quero aproveitar bem este tempo de escola, porque gosto de estudar e não há nada como aprender coisas novas a cada dia! Combinar os estudos com a Orientação ao mais alto nível talvez não ocupe todas as minhas preocupações, mas não escondo que gostaria de fazer ambas as coisas e esse é um grande desafio. Aperfeiçoei as minhas capacidades de planeamento ao longo do ano passado e tenho que ser racional quando se trata de estudar. Existe uma enorme diferença no tempo dispendido se apenas pretendemos passar nos exames ou se planeamos estudar todas as páginas de todos os livros…

UO – A Universidade Umeå oferece um programa especial para atletas de alta competição?

HJ - Sim, de certa forma. Quando me matriculei, há um ano atrás, a Universidade anunciava apoios especiais para atletas de topo. Contudo, fui-me apercebendo que isto se aplicava, sobretudo, aos futebolistas e a outros atletas de modalidades de conjunto; inclusivé, nem todos os estudantes de Medicina nestas condições parecem estar abrangidos por este tipo de facilidades. Presentemente, arrancou um novo programa e tenho um contrato com a minha escola que diz que poderei alterar as datas dos exames em função dos meus compromissos competitivos, por exemplo. Até ao momento não precisei de utilizar esse recurso, mas é sempre bom saber que o tenho ali à mão.

UO – Com o apoio do seu treinador, Harri Viinamäki, fez enormes progressos na última temporada. Pode dizer-nos algo sobre o método de treinos Viinamäki? Em que consiste o seu programa de treino?

HJ – Com o Harri em Skövde, a minha cidade natal, e eu a estudar em Umeå, bem ao norte da Suécia, os nossos contactos fazem-se principalmente por telefone e via e-mail. Tenho um calendário escolar muito apertado e, por isso, ele dá-me um programa com uma série de treinos que acha que eu deveria realizar durante a semana, e eu planifico quando e onde treinar. Depois envio-lhe os dados por e-mail e ele vai acompanhando aquilo que faço. Desde que comecei a trabalhar com Harri, o meu treino é mais estruturado e nunca faço algo que ele sugira a menos que seja plenamente justificado. Tenho melhorado ao nível de lesões e procuro ouvir o meu corpo em todos os momentos. O "método de treino Harri Viinamäki" não é nada de especial. É um plano normal, apenas ajustado a mim. Aborreço-me com alguma facilidade e, por isso, temos (ou ele tem) de encontrar novos conjuntos de intervalos e novas formas de treino em função das distâncias programadas. Tenho procurado centrar a minha atenção na qualidade do treino, corro agora com níveis mais elevados de intensidade. Além disso, faço muito pouca corrida de Orientação. Sobretudo porque demora muito tempo até ter novos mapas e também porque, no Inverno, há aqui uma enorme quantidade de neve, o que faz com que a Orientação não seja tão divertida…

UO – Quais os aspectos que vai procurar aperfeiçoar ao longo da época?

HJ - Estou a trabalhar muito na técnica de corrida a subir. Sempre fui muito preguiçosa nesse aspecto mas pressinto que será uma boa ocasião para centrar aí as minhas atenções com vista aos Campeonatos Mundiais de Orientação. Continuo a pensar que tenho mais alguns anos pela frente até conseguir tirar o melhor partido das minhas capacidades, pelo que procurarei melhorar, tornar-me ainda mais rápida e mais forte!

UO - Este ano é o seu primeiro ano na elite sénior da selecção nacional sueca. Quais são os seus objectivos para a temporada 2008?

HJ - Esta é a primeira vez que me distancio claramente de qualquer objectivo, à excepção dos Campeonatos Mundiais de Orientação. Não pretendo apenas marcar presença, quero estar aí no meu melhor. Este ano, quando cruzar a linha de chegada, vou fazê-lo com um sorriso no rosto. E se alguém me perguntar como foi a minha corrida, quero ser capaz de dizer que foi a melhor de sempre, que estava super-concentrada, que fui rápida e que fiz o melhor que podia!

UO – Durante os Mundiais, rá concentrar a sua atenção numa disciplina específica?

HJ - Na verdade, sim. Levou-me algum tempo a descobrir qual delas e, se pudesse optar por mim própria, talvez não o tivesse feito. Contudo, Harri pensa que o treino é muito diferente se visamos o Sprint, a Distância Média ou a Distância Longa. E sou levada a concordar com ele. Portanto, este ano vou apostar na Distância Média para estar aí ao melhor nível. Gostaria muito de tentar a Distância Longa, mas não tenho a certeza de estar ainda preparada. Também, de certa forma, atrai-me pensar que a Distância Média acaba por ser aquela que encerra um maior grau de dificuldade e que constitui um maior desafio. Adoro desafios! E também procurarei estar no meu melhor durante a prova de Estafeta que é, na realidade, a minha disciplina preferida…

Por Niels-Peter Foppen • 28 de Fevereiro de 2008 • Categoria Q & A


Veja aqui a entrevista com Helena Jansson na versão original.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

segunda-feira, 3 de março de 2008

VEM AÍ O NAOM2008

PEDRA FILOSOFAL

“Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento…” E quem diz sonho, diz Orientação. Que o mesmo é dizer Norte Alentejano O’Meeting. Pelo menos para mim, curioso da escrita e sonhador.

É um sonho recorrente, aqueles quatro dias de Fevereiro de 2007 e o meu primeiro contacto com a Orientação. Foi um convite, um simples convite, que me levou, primeiro, à Amieira do Tejo e depois a muitas e belas partes do concelho de Nisa. O Fernando Costa procurava em mim alguém que pudesse, por intermédio da escrita, tornar a Orientação mais abrangente, o esforço de divulgação chegar a um maior número de pessoas, sobretudo àquelas pouco ou nada familiarizadas com a modalidade. Arregacei as mangas; pus mãos à obra. Desconheço resultados práticos desses onze textos. A não ser sobre mim próprio, “bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo”.

Estamos na semana do NAOM2008. Aceitei uma vez mais o convite do Fernando e dessa verdadeira família dos 4 Caminhos. No próximo fim-de-semana lá estarei para ver, para descrever, para partilhar sensações e emoções que se adivinham fortes. Este ano na companhia da magistral poesia de António Gedeão e da música de Manuel Freire. Serão, simultaneamente, inspiradores e inspiração, num jogo a três mãos que espero possa ser proveitoso.
“Como bola colorida, entre as mãos duma criança.”

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

domingo, 2 de março de 2008

ORIENTAÇÃO NA FÁBRICA DA PÓLVORA

É certo e sabido que a Constituição da República Portuguesa não foi aprovada por unanimidade. O que quer dizer que alguém não está (totalmente) de acordo com ela. Não é o meu caso. Eu estou totalmente de acordo com a actual Constituição em geral e com este artigo em particular. E quando alguma entidade estatal resolve cumprir, minimamente, com ele, fico duplamente feliz.

Artigo 79º (Cultura Física e Desporto)

1. Todos têm direito à cultura física e ao desporto

2. Incumbe ao Estado, em colaboração com as escolas e as associações desportivas, promover, estimular, orientar e apoiar a prática e a difusão da cultura física e do desporto, bem como prevenir a violência no desporto.

Já aqui abordei este tema, e mais uma vez o faço por ser de toda a justiça noticiar e realçar mais uma jornada do Programa de Actividades de Ar Livre Mexa-se Mais da Câmara Municipal de Oeiras.

Com a organização do Clube Português de Orientação e Corrida (clube sedeado no concelho), realizou-se a primeira jornada (de quatro) da época, no lindo, aprazível e muito bem aproveitado espaço da antiga Fábrica da Pólvora de Barcarena, instalação com 500 anos de idade cuja proprietária é a Câmara Municipal de Oeiras e cuja área é de 44 hectares. Este riquíssimo património histórico e ecológico, rasgado a Norte pela Ribeira de Barcarena, tem sido recuperado e reconvertido pela Câmara de Oeiras com um grande dinamismo, estando já disponíveis ao público um Museu (do fabrico da Pólvora Negra), um Restaurante de qualidade, uma zona de lazer com um espaço para discoteca, um anfiteatro ao ar livre que acolhe 700 pessoas, um Parque Municipal, imediatamente contíguo ao terreno da UATLA, os viveiros dos jardins da Câmara de Oeiras, os ateliers do Clube de Artes e Ideias e vários outros equipamentos. Finalmente deve ter-se em atenção que nos situamos junto ao Taguspark, ou seja, numa área privilegiada de ciência e tecnologia.

Há que recordar que estas jornadas são, exclusivamente, destinadas aos escalões abertos. Há três níveis de dificuldade: fácil, médio e difícil, e dentro deste ponto de vista, elas têm cumprido, cabalmente, os objectivos em causa: dar oportunidade a todos para a prática da modalidade. É isso, a TODOS mesmo, netos, filhos, pais e avós. E como é bonito de se ver, famílias inteiras a participar. Um parêntesis para contar um episódio passado hoje algures no percurso. Entre dois pontos, havia um Parque Infantil, e como foi engraçado de ver, dois jovens orientistas de 6/7 anos, que perante tal equipamento, não resistiram e era ver os pais a chamá-los, mas qual ponto qual quê, azimute direito ao escorrega, e lá foram eles que nem tiros! Uma criança não é de ferro e, convenhamos, não é fácil a uma criaça negar tal proposta.

Foi uma linda, soalheira e bem passada manhã de Sábado entre as 9h30 e as 11h30.

Parabéns às entidades referidas. Um Abraço e até à próxima!

Orlando Duarte


É com viva emoção que trago aqui, pela primeira vez, um texto do meu querido amigo Orlando Duarte. Um apaixonado pelas corridas, pela orientação, pela promoção da saúde através da actividade física. Resumindo: um apaixonado pela vida!

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

sábado, 1 de março de 2008

CALENDÁRIO WORLD OF O

O corredor escolhido para ilustrar o mês de Março do "Calendário World of O" é John Are Myhren, que representou a Holanda em 2007 mas este ano enverga as cores da selecção da Noruega. “Após dois anos na Holanda regressei à Noruega. Por que motivo? A razão é óbvia. Ofereceram-me um lugar numa das melhores selecções nacionais do mundo inteiro”, observava Jonn Are Myhren aquando da sua mudança antes do arranque da temporada 2008.

O ano de 2007 foi um sucesso fantástico para Jonn Are Myhren. Nas suas próprias palavras, destaca a prestação no WOC Distância Média, em Kiev (Ucrânia): “Terminei na 6ª posição, último lugar do pódio. Para mim foi o concretizar dum sonho e vai muito além do que poderia esperar. Tanto o meu desempenho como o resultado foram recordes pessoais. Não cometi muitos erros e consegui correr rápido durante todo o percurso, não obstante as condições meteorológicas adversas e o muito calor que se fez sentir”.

Leia mais sobre Jonn Are Myhren, visitando o seu “blogue” -
http://my.opera.com/jonnare/blog/ - uma das mais belas páginas de orientação, nas palavras do editor do “World of O”. Não será tanto pelos mapas, mas vale a pena no que a notícias e imagens diz respeito.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO