quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

ORIENTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE

Moçambique é um dos países membros da International Orienteering Federation (IOF) e busca, sob a coordenação da Associação de Orientação da Cidade de Maputo (AOCM), desenvolver a modalidade no país, principalmente através de cooperações internacionais e de projetos em escolas.

A história da Orientação em Moçambique teve início em 11 de janeiro de 2004 com a fundação da Associação de Orientação da Cidade de Maputo (publicada oficialmente no
Boletim da República, III Série - nº 43, de 24 de Outubro de 2007). Na ocasião, com a presença de José Samper, director técnico da Federación Española de Orientación (FEDO), foi também eleito em Assembleia Geral o primeiro presidente da recém fundada associação, Arnaldo Júnior. No mesmo ano, em 24 de Abril, a AOCM organizou a I Etapa de Divulgação de Orientação, a primeira prova oficial em Moçambique.

Sempre que possível, a AOCM tem procurado desenvolver a Orientação no país, quer seja através de cooperações internacionais (como vem acontecendo com a FEDO) ou através da busca de experiência com participações em eventos internacionais. Nesse sentido merecem destaque as participações de Moçambique nos seguintes eventos:
ooooo - Taça dos Países Latinos (Vila Real, Set/2004), com um atleta;
ooooo - Taça dos Países Latinos (Sevilha, Out/2005), com um atleta;
ooooo - Torneio Internacional alusivo aos 25 anos da Federação Sul Africana de Orientação (África do Sul, Fev/2006), com 8 atletas.

Em Novembro de 2006, foram organizados diversos eventos de Orientação em Moçambique, entre os quais os 15 km de Orientação na Catembe, percurso para crianças no Parque dos Continuadores e o I Curso de Orientação para professores de Educação Física, na cidade de Maputo. Este curso foi ministrado por um técnico espanhol no âmbito da cooperação bilateral entre o Ministério da Juventude e Desporto de Moçambique e o Conselho Superior de Desporto da Espanha.

Actualmente a AOCM constitui o órgão máximo responsável pela condução da Orientação em Moçambique. Há 420 filiados e não há clubes. A associação desenvolve um trabalho de divulgação em escolas e em bairros de Maputo e da Matola. Os frutos deste trabalho começam já tornar-se visíveis através do aumento do número de praticantes e também da formação de núcleos de Orientação nos bairros. É possível que esta seja a semente para o aparecimento dos primeiros clubes.

Às segundas-feiras, a partir das 17h00, no parque António Repinga (Maputo), a AOCM organiza uma pequena prova de Orientação para que os principiantes possam praticar a modalidade. É uma forma de manter os atletas em actividade. Também estão sendo conduzidos vários esforços no sentido de introduzir a modalidade nas Universidades, permitindo que estudantes de Educação Física tenham contacto com o desporto e ajudem a disseminá-lo.


Um dos pontos que precisam ser desenvolvidos para incrementar ainda mais a orientação no país é a formação de cartógrafos. Segundo o presidente da AOCM, Arnaldo Júnior, “ainda não temos cartógrafo moçambicano, todos os mapas que temos foram feitos pelo técnico espanhol que é nosso colaborador”.

[extraído de um texto de Roland Teodorowitsch, de 3/6/2007, no portal Rumo Verde Clube de Orientação, de Porto Alegre (Brasil), em
http://www.rumoverde.esp.br/ . Para ler o artigo completo clique aqui].

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

EM QUE MEDIDA COMPETIR AO LADO DE GUEORGIOU OU DE NIGGLI PODE AFECTAR O DESEMPENHO?

Coloquemo-nos na pele de um orientista de classe mundial. Estamos preparados para uma grande corrida - uma WOC ou uma Taça do Mundo - mas sabemos que competimos lado a lado com Thierry Gueorgiou ou Simone Niggli. Defrontar uma “super-estrela” contribuirá para nos superarmos ou, pelo contrário, afectará o nosso desempenho?

Competir com alguém tão extraordinário pode constituir um enorme estímulo. Quanto mais duro, melhor. O desempenho é incrementado. Porém, apesar de toda esta motivação acrescida, ainda assim (provavelmente) terminaríamos atrás dos naturais vencedores. Mas, e se correr contra alguém tão excepcional funcionar como factor de desmotivação, enfraquecendo o normal desempenho? Sentimos-nos como verdadeiros sentenciados. Apesar de bem preparados, não alcançamos o grau de inspiração suficiente.

Será que enfrentar uma “super-estrela” pode ajudar ou ferir o nosso desempenho? É uma pergunta interessante. Jennifer Brown, a fazer o doutoramento pela Universidade de Berkeley, abordou uma questão análoga e debruçou-se sobre a reacção dos jogadores de golfe quando competiam ao lado de Tiger Woods. Basicamente, ela descobriu que golfistas profissionais de craveira mundial tinham um pior desempenho quando defrontavam a grande estrela.

Em resumo, Jennifer Brown trabalhou sobre um modelo económico, sugerindo que os responsáveis usam a competitividade interna para motivar os trabalhadores e premiar o seu esforço, muitas vezes sem levarem em linha de conta as suas capacidades relativas. Grandes diferenças na “habilidade” dos trabalhadores concorrerá, necessariamente, para uma redução do seu esforço produtivo. Este artigo utiliza os dados dum painel de jogadores profissionais de golfe e considera que a presença de um “fora de série” num torneio está associada a um menor desempenho da concorrência. Em média, a taxa de sucesso dos jogadores profissionais é superior em 0,8 pancadas quando Tiger Woods está ausente. Nos jogadores menos credenciados a presença ou ausência de Tiger Woods não se faz notar e as suas pontuações permanecem inalteradas. Os efeitos adversos da presença de Woods aumentam durante os “picos” de forma do jogador e desaparecem durante os seus momentos “crepusculares”. Não há qualquer evidência de que os deficientes desempenhos possam estar relacionados com o factor “risco”.

A análise que Jennifer Brown faz de todo este assunto é bem mais desenvolvida e, aos mais curiosos, recomenda-se uma espreitadela ao seu
artigo.

[traduzido de
http://okansas.blogspot.com/2008/01/does-racing-gueorgiou-or-niggle-make.html]

Saudações atléticas.

JOAQUIM MARGARIDO

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

PORTUGAL O'MEETING 2008

O Portugal O'Meeting, prova internacional de orientação, juntará no Algarve, entre 02 e 05 de Fevereiro, cerca de 1500 participantes, dos quais 650 estrangeiros, e é visto pela Federação Portuguesa da modalidade como uma forma de afirmação a nível internacional.

Em declarações à Agência Lusa, Augusto Almeida, presidente da Federação Portuguesa de Orientação (FPO) afirmou que “estes grandes eventos dão-nos prestígio internacional, dão visibilidade, afirmam-nos no seio da modalidade a nível internacional, dão-nos certificação perante as outras Federações e perante a Federação Internacional e têm alguma visibilidade mediática”.


O evento é uma organização conjunta do CIMO – Clube Ibérico de Montanhismo e Orientação e da Juventude Desportiva das Fontainhas. A edição deste ano será constituída por duas provas de Distância Média, uma de Distância Média/Longa e uma prova de Distância Longa. A prova de Distância Longa do 2º dia está incluída no Ranking Mundial. Faro, Tavira e Vila Real de Santo António serão os palcos das várias provas do Portugal O’Meeting 2008.

Saiba tudo em
http://www.pom2008.com/ .

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

sábado, 26 de janeiro de 2008

CONHEÇA MELHOR: MATTHIAS MÜLLER

QUE FAZER QUANDO ARDE?

… Deixar arder! Será?


A situação no Quénia agravou-se nestas duas últimas semanas, particularmente em Nairobi e Eldoret, numa altura em que me encontrava aqui, em Viena, a treinar.

Do nosso plano de treino faz parte um programa de intercâmbio no Quénia, em Fevereiro, viajando por todo o país e tomando contacto com as pessoas e com as condições locais.

Desde 27 de Dezembro, na sequência das eleições legislativas, que o Quénia está mergulhado numa onda de violência. Pedras e flechas dum lado, armas do outro. Saques, violência e homicídios fazem as manchetes diárias na imprensa local e internacional.

A situação será realmente má? Temos tendência a desvalorizar os acontecimentos e a considerar exagerados os relatos da imprensa. Porém, mais de 500 mortos confirmados, campos queimados e advertências a todos quantos pretendem viajar para o Quénia, fazem-nos crer que a realidade é bem dura.

Como inverter a situação? Conversações entre as partes envolvidas permitem pensar que as coisas podem resolver-se. Mas é tudo demasiado lento. E enquanto não surge um acordo definitivo, qualquer passo em falso pode fazer regredir a situação.

Aqui na Áustria acreditamos que pode haver uma solução e que não basta mantermo-nos de parte, assistindo, impávidos e serenos ao espalhar do fogo. São muitas as questões que se levantam, mas tenho a certeza que se nada fizermos para inverter a situação, as coisas não voltarão mais a ser como dantes.

Que vergonha!

... ... ... ... ... ... ... ... ...

A última mensagem inserida por Matthias Müller no seu "site" revela um pouco do carácter interventivo e empenhado deste futuro engenheiro electrotécnico. Nascido na Suiça há 25 anos atrás (12.09.1982), Matthias Müller adopta o lema de "quanto mais cedo, melhor" e confessa-se amante da Orientação porque "para além de fortes pernas, é necessário forte cabeça" mas também porque "não há duas corridas iguais, cada corrida é um novo desafio".

Para saber mais, consulte www.migrilli.ch . Lá descobrirá os seus gostos, o saldo da temporada de 2007, as metas para 2008 e, claro, uma explicação para essa alcunha plena de musicalidade: "migrilli".

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

ESPÉCIES NA BRUMA

Atendendo ao longo hiato competitivo, tive tempo de sobra para preparar a “psique” para um novo confronto com as “pedrolas” (o “naufrágio” da Coelheira continua presente), desta vez em pleno Parque Nacional do Alvão. Estava disposto a afastar definitivamente os meus fantasmas, que me aterrorizavam sempre que tinha pela frente terrenos onde imperassem as “culturas” rochosas (e se elas proliferam por estas bandas!).

A imagem de marca do mapa de Muas, zona da primeira etapa do Troféu Caminhos do Alvão, é a infinita quantidade de pedra cinzenta, “estorvada” aqui e acolá por tapetes de carqueja, assim pró durinhos (experimentem cair de costas, he!he!), salpicada por meia dúzia de pinheiros e uma enorme quantidade de linhas de água, que nos permite contemplar uma paisagem que tem tanto de agreste como de bela.

Mas para todo este discurso ter algum significado, as condições climatéricas devem ser excelentes. Porque se depararmos com um nevoeiro de “cortar à faca”, valha-nos “Santa Maria das Espécies”! Esta beleza transforma-se num cenário pouco menos que aterrador e o medo… muito medo, apodera-se completamente das mentes menos precavidas e “a tragédia, o drama, o horror” fica eminente. Não fiquem apreensivos, porque a única mente que fica verdadeiramente transtornada é a do “espécie”.

Debaixo dum nevoeiro intenso, batendo o dente como castanholas (de frio, não de medo, he!he!), dei início a mais uma cena dum filme, para mim já bem conhecido, que dá pelo original título de “Espécies na Bruma” (qualquer semelhança com alguma realidade é a mais pura das coincidências). Para o quadro ficar completo, há que acrescentar o facto que, daqueles 400 atletas, apenas uns 20 partiriam depois de mim. – “Irra!!! Que está tudo contra o espécie!”

A minha preocupação era tanta que me atrofiou por completo o raciocínio. Entrei logo no mapa com o pé esquerdo (como sou dextro, não funcionou). Para controlar o primeiro ponto, quase fui ao segundo. Só parei quando bati num caminho, o que me fez voltar atrás uns vinte metros... e era vê-lo (o malandro) a rir-se para mim. Dei com o segundo nas calmas e a partir daqui, conforme se ia acentuando o nevoeiro, os meus receios iam-se avolumando. Se estava frio (cerca de 5º), nunca mais o senti, com os calores que me assaltaram. Tal era a ansiedade de querer sair dali o mais depressa possível.

O ponto 3 assemelhou-se a uma miragem, dado que vi uns três pontos antes de finalmente o encontrar, bem “recostado” na sua escarpa. E eu que já tinha estado bem por cima dele! -“Meia hora de prova e três pontos?” Comecei a “magicar” o pior e a sensação de que aquilo ia acabar mal não me largava. Num assomo de alguma técnica e muita sorte à mistura, consegui chegar à primeira metade dos pontos (7) ao fim de mais vinte minutos de progressão difícil, mas sem "pastorícia". Já tinha mais tempo gasto nesta altura que dois dos meus parceiros no final da prova (he!he!). Antes do ponto sete fiquei com outro problema, ao alcançar a minha mulher que, tendo saído antes de mim uma hora, estava completamente "atascada". Deixei-a para trás, com o coração apertadinho, a imaginar o que ela teria ainda que penar (sou um sentimentalão, que hei-de fazer?). Puro engano. Quem iria sofrer - e bem! -, seria eu.

A pernada mais longa (7/8), resultou num acréscimo de penalização, na mais que deficiente prova que vinha a efectuar. Tentando não me afastar do azimute, fui tomando opções na progressão que me pareceram correctas, até chegar à zona que, julgava eu, ser a do controlo. Por acaso até era, mas encontrava-me num nível abaixo do ponto uns cem metros. Dez minutos para a progressão e outros tantos para dar com a baliza.

Entretanto, fui-me apercebendo que iam rareando os atletas em prova. -“Se caio e me aleijo ou atasco, vou ficar aqui perdido”. E estes pensamentos pessimistas não vinham ajudar em nada, em virtude do nevoeiro continuar a baixar, reduzindo os níveis de visibilidade para uns vinte ou trinta metros.

Todo o ser humano é dotado dum instinto de sobrevivência, que o obriga a reagir, quando confrontado com situações adversas. Mas, c´um raio, onde parava o meu? Também como é que o queria encontrar no meio daquele nevoeiro que mal dava para ver onde colocar os pés?

Tentando contrariar esta tendência para a asneira, lá arranjei motivação para continuar (seria o tal instinto?), conseguindo alcançar o ponto 12 à custa de mais vinte minutos no “cabedal”. Apesar de tudo, foram quatro percursos bem orientados, sem qualquer hesitação, numa caminhada solitária pelo labirinto das “pedrolas”, com cuidados extremos para não dar qualquer queda e sobretudo numa tentativa desesperada para concluir a prova.

Ao analisar o trajecto para o ponto 13 (o penúltimo), respirei fundo, ao verificar que havia pormenores que bastassem para não me atascar novamente. Fios de alta tensão, caminhos, progressão na mesma curva de nível e ponto junto a uma árvore, que mais precisava eu para acabar aquela odisseia? –“Estou safo, vou conseguir dar conta do recado”. Se calhar foi este baixar de adrenalina que me tramou. Começo a correr (ainda tinha forças para isso), passo os fios, o afloramento rochoso, os caminhos, avisto uns pinheiros dispersos em zona de reentrâncias, tal qual a sinalética e…o 77 não estava lá (será que já tinham levantado os pontos? hehe). Na orientação, a desconcentração e os excessos de confiança são fatais.

Nem queria acreditar que ia “morrer na praia”. -“Não é aqui?” Até usei a técnica do polegar e errei? Claro que mal distinguia o que me rodeava e o ponto poderia estar ali a meia dúzia de passos que eu não o veria. Ou tinha acertado à primeira ou estava perdido. E não é que estava mesmo?

Meus amigos, naquele momento a vontade de desistir passou a ser obsessiva. Sentia um desespero de arrancar cabelos e a desilusão era total. Ainda bati todas as reentrâncias que tivessem árvores, num raio bem alargado, mas quanto mais procurava, mais desorientado ficava. Os fios deixaram de ser visíveis, os caminhos “varreram-se-me” da ideia, o mapa só estorvava e aquela geringonça que tinha no polegar, já nem sabia bem qual a sua função. Bloqueei por completo e logo num ponto de baixa dificuldade. O tempo passava e nem vivalma. –“Que faço aqui no meio destes montes, quanto toda a gente já acabou?”. E para meu desgosto e grande frustração, “atirei a toalha ao tapete”; tinham passado uns inacreditáveis noventa e quatro minutos, desde o bip bip inicial.

Ainda havia outro problema a resolver. Tinha de procurar a direcção da arena, mas já não conseguia raciocinar. Deambulei durante uns minutos ao acaso, até que finalmente dei com um ponto que não era meu (54), mas onde tinha estado no início da prova. Valeu a minha memorização. Localizei-o no mapa e ainda fiquei mais arreliado. O que eu me tinha afastado! A estrada era perto, tinha de descer o monte quase na totalidade e com aquele nevoeiro não ia ser tarefa fácil, mas para minha fortuna, o tal instinto sempre apareceu. A hipótese que eu já equacionava, de dormir num belo colchão de carqueja, na companhia de lobos e dum ou outro rastejante, foi literalmente rejeitada.

O que não se tornou fácil, foi digerir tanta incompetência (esgotei os sais de fruto). O filme das “pedrolas” com nevoeiro repetiu-se e com o mesmo desfecho vergonhoso. O terreno era difícil… o nevoeiro estava bem denso… fui dos últimos a partir… ainda padecia duma entorse num pé… afinal sou só uma espécie de orientista… mas por mais que tentasse arranjar desculpas para o fracasso, nada me iria levantar o moral para o dia seguinte e… a minha mulher conseguiu terminar!!!

Praticar orientação no Alvão, é um privilégio para qualquer atleta… com nevoeiro… não, obrigado.

Luis Pereira

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

UMA OUTRA FORMA DE ENCARAR A ORIENTAÇÃO

É uma da manhã, mas já não aguento mais.

Hoje foi um grande dia para mim, graças ao projecto em que estive envolvida no Nätverket SIP. Desde Janeiro que tinha vindo a planear a actividade. De que se admiram? Bem, vou mostrar-vos. Prestem atenção.

O projecto em que estive envolvida tomou a designação de Mapping Växjö. A iniciativa partiu de dois clubes de orientação de Växjö, o Värend GN e o Växjö OK. A orientação é um desporto no qual devemos seguir um caminho através de vários pontos, com o auxílio de um mapa e de uma bússola, geralmente numa floresta. Interrogámo-nos sobre o que poderia levar os jovens, nos dias de hoje, a interessar-se pelo desporto e a praticá-lo desporto.

Como bem sabem, os nossos jovens cresceram a conviver com todo o tipo de tecnologia. Sabem perfeitamente como usá-la - eles próprios são usados por ela! - e demonstram particular interesse por tudo o que esteja a ela ligado, nomeadamente computadores. Foi assim que nasceu o Mapping Växjö. A ideia consistia em incorporar mais tecnologia no desporto e, dessa forma, poder torná-lo mais interessante, constituindo um desafio extra.


O meu trabalho neste projecto consistiu em tornar realidade a ideia inicial, organizando uma primeira actividade que combinasse orientação e tecnologia. A ideia de uma “caça ao tesouro” começou a ganhar consistência à medida em que fui trabalhando num primeiro esboço de um jogo. Mas faltava o mais importante, alguém que pudesse cuidar da parte tecnológica. Através da Nätverket SIP entrei em contacto com a Ung Kommunikation, um projecto que se vem desenvolvendo de há cinco anos a esta parte e onde se estudam formas e meios de comunicação da juventude, com o objectivo de impulsionar a competência digital de professores e melhorar a relação aluno-professor. Um subgrupo da Ung Kommunikation – AMULETS - vinha desenvolvendo várias actividades protocoladas com escolas, utilizando tecnologia celular. Quando lhes apresentei o projecto Mapping Växjö, mostraram-se imediatamente interessados em colaborar.

As coisas arrancaram em pleno. A partir de então foi uma autêntica maratona de reuniões, imaginando a história, definindo regras, pensando a tecnologia. As versões finais da história e do jogo ficaram definidas da seguinte forma:

O jogo gira em torno da história do castelo de Teleborg e dos seus antigos proprietários, Frederik Bonde e Anna Koskull. Frederik construiu o Castelo para Anna. Mas nem tudo é como parece. Bonde sempre fora um indivíduo muito misterioso. Quando Frederik morre, Anna quer descobrir o que o seu marido poderia esconder e encontra toda uma série de locais e de códigos, passando o resto da sua vida à procura de respostas para os mistérios do marido. Acabará por morrer sem os desvendar. Porém, o fantasma de Anna tem a faculdade de poder comunicar e o Centro de Voz Electrónica Phenomenon pode escutá-la. Há apenas um pormenor: Para resolver o mistério, ela só pode pedir ajuda uma noite em cada 100 anos.


Anna vai ter a ajuda de seis grupos de 3 pessoas que devem percorrer o campus da Universidade de Växjö munidos de telemóveis especialmente modificados e de mapas para encontrar os códigos em locais específicos. Chegados aos locais, os grupos têm de responder a questões para continuar em jogo. No final, há um tesouro à espera deles.

Estava tudo definido, a tecnologia nos aparelhos, o design, as imagens, os adereços, os participantes. A única coisa sobre a qual não tínhamos controle era o clima… Adivinhem que tempo fez. Nevou intensamente todo o dia e estava convencida de que não iríamos ter caça ao tesouro. Subitamente deixou de nevar e arrancámos com a actividade. Foi apenas o tempo de definir os grupos e aí estávamos nós pondo em prática todo o trabalho imaginado até então. À medida que os grupos foram surgindo, foram sendo encaminhados para uma sala onde tinham à sua espera sanduíches e bebidas quentes. Além de pequenos problemas com os adereços e com os telemóveis, a actividade decorreu sem problemas. Penso que todos se tinham divertido imenso, apesar do frio. O mais interessante é que ninguém sabia se os códigos encontrados estavam correctos e qual seria a sua classificação.

Sinto-me agora muito feliz e satisfeita. Penso que se fez um trabalho muito bom e isso é para mim o aspecto mais importante. Julgo haver planos para organizar um grande evento no Verão e espero poder estar envolvida, mesmo que seja a partir da Holanda. Durante a minha permanência aqui na Suécia, realmente descobri que gosto de organizar coisas, eventos, viagens, qualquer coisa. Portanto, vou à procura de um emprego nessa área.

Definitivamente.

Liza van Kuijk


[Liza Van Kuijk vive em Utrecht e fez parte dos seus estudos em Växjö, Suécia . Licenciou-se em Ciências Biomédicas na Universidade de Utrecht, em 2006, com especialização em Educação em Saúde. É actualmente treinadora de Surf e Hospedeira e é uma pessoa hospitaleira: “Toda a gente é bem-vinda em minha casa!” Para conhecer melhor esta encantadora holandesa “mas também sueca”, visite
http://lizavankuijk.web-log.nl/ .]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO


segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

CONHEÇA MELHOR: THIERRY GUEORGIOU


Thierry Gueorgiou tem 28 anos. “Stéphanois” [“de Saint Étienne”, N. de T.] acima de tudo, Tero constitui também, sem sombra de dúvida, uma referência no pequeno mundo da corrida de orientação. A razão é simples: neste domínio, ganhou tudo o que havia para ganhar.

P. - Thierry, podes recordar-nos o teu palmarés?

R. - Pentacampeão do Mundo, tetracampeão europeu e líder do “ranking” mundial.

P. - Creio que venceste, igualmente, os Campeonatos Mundiais Militares…

R. - Sim. Desde 2006 que tenho um contrato particular com a “Gendarmerie” [“polícia”, N. de T.] Nacional, representando-a nas competições internacionais. Normalmente, deveria estar em Maison Alfort, na região parisiense, mas fui destacado a tempo inteiro para Pôle France de Saint-Étienne, a estrutura de treino da Federação.

P. - E há quanto tempo te profissionalizaste?

R. - Desde 2004. Estudei Etologia Aplicada na Universidade de Saint-Étienne. A Etologia é o estudo do comportamento animal. É uma formatura pouco comum em France, existe apenas em duas ou três cidades. Diplomei-me e estava determinado a exercer a minha profissão neste domínio como gestor dum Parque Nacional, por exemplo. Mas tive de relegar o projecto para segundo plano, já que a minha actividade desportiva obrigava-me a passar dois terços do meu tempo fora de Saint-Étienne, dos quais uma boa parte no estrangeiro.

P. - Uma palavra sobre o NOSE?

R. - É o meu clube, “Nature Orientation Saint-Étienne”. Foi fundado em 1975 e conta com uma centena de federados. Conquistou o título de Campeão de França de clubes em 2007 e uma dezena dos seus orientistas foram seleccionados para representar o nosso País, nomeadamente François Gonon. Faço parte do clube desde 1984. Os meus pais tinham na altura cargos de direcção. A minha mãe era a Presidente e o meu pai o Treinador.

P. - O que é que te agrada na corrida de orientação?

R. - Trata-se de um desporto completo. Há todo o aspecto físico, o treino de campo que se aproxima do treino dum maratonista. E há, claro, o aspecto mental, que desempenha um papel fundamental, a leitura dos mapas, o contra-relógio… É também o desporto de natureza por excelência. Saímos realmente dos trilhos balizados para penetrarmos no coração da floresta. Cada dia é uma nova aventura. Daquele que se inicia na Orientação ao mais consagrado dos praticantes há todo um mesmo espírito de liberdade, de fazer a sua própria escolha do melhor itinerário. No Atletismo, por exemplo, a volta à pista terá sempre 400 metros, quer seja aqui ou no Japão. Na nossa disciplina, esta noção de distância tem muito pouco significado. Tanto podemos fazer 10 quilómetros numa hora e meia como em quarenta minutos. E depois, na corrida de orientação, nunca encontraremos duas florestas parecidas. É o eterno recomeço. Na Austrália ou no Pilatus (Suiça), no Japão ou na Escandinávia, é necessário que nos adaptemos a cada local, não há lugar a repetições…

P. - Queres explicar-nos o essencial da corrida de orientação?

R. - É muito simples. Cada corredor possui uma bússola e um mapa à escala de 1/10 000 que, contrariamente a um mapa normal, contém uma enorme diversidade de detalhes acerca do relevo, do terreno, as rochas e muito mais. A partir do momento em que se põe em marcha o cronómetro, o orientista deve efectuar um trajecto seguindo os pontos de passagem obrigatórios. Estes pontos estão assinalados sob a forma de uma baliza em tela, de 30x30 cm, e a passagem deve ser validada por um sistema de “picotagem” electrónica. O objectivo consiste em fazer o percurso ao longo das várias balizas o mais rapidamente possível. Mas entre cada ponto de passagem, a escolha do itinerário fica ao critério de cada um. O percurso em linha recta, evidentemente, nem sempre é o mais rápido. É necessário jogar com as inflexões do terreno, os lagos e outros acidentes… O tempo gasto a percorrer o traçado da corrida depende, sobretudo, do meio sobre o qual a mesma se desenrola. Em terrenos como na Finlândia, onde o relevo é mais duro, numa mesma distância teórica poderemos gastar quase o dobro do tempo que gastaríamos num terreno plano. As corridas são individuais mas existem igualmente provas de estafeta, com equipas de três elementos.

P. - Qual é a grande dificuldade na prática desta disciplina?

R. - O conhecimento do relevo. É necessário aprender a imaginar um terreno a três dimensões sobre o mapa. Claro que não é apenas isto. Apercebo-me que as mulheres parecem ter mais dificuldade em possuir esta visão a três dimensões, mesmo se conseguem compensar esta insuficiência com outras qualidades, nomeadamente a atenção. Mas nem todos os homens possuem igualmente esta capacidade mental. Como na generalidade dos desportos, é necessária uma longa aprendizagem onde o treino técnico, a vivência de situações as mais variadas e o número de florestas “visitadas” desempenham um papel fundamental. É à medida que o tempo passa que o orientista aprende a adaptar o seu comportamento e a reagir cada vez mais rapidamente.

P. - Evocas imenso a Escandinávia. A Orientação é muito praticada nesses países?

R. - Absolutamente. Foi ali que ela nasceu há uma centena de anos, na Noruega, e a Escandinávia constitui a “Meca” de todos os corredores de orientação. As melhores competições é aí que têm lugar, desenrolando-se através de paisagens magníficas…

P. - Fala-nos do teu programa para 2008.

R. - Os Campeonatos da Europa na Letónia, em Maio, e os Campeonatos do Mundo em Agosto, na República Checa.

P. - Não sentes alguma decepção pelo pouco interesse que a comunicação social demonstra pela Orientação e pelas tuas “performances”?

R. - É uma questão que me coloco frequentemente. A minha vida seria diferente com uma maior mediatização. A título pessoal, teria mais facilidades pecuniárias, mas ganho o suficiente para efectuar os meus estágios e conseguir fazer tudo aquilo que gosto. E depois, por outro lado, digo a mim mesmo que o espírito da corrida de orientação é o de permanecer livre. É um desporto ainda preservado de certas polémicas, “doping” e outros malabarismos, daí que não seja mau de todo que ele permaneça “confidencial”. De qualquer das formas, não me lamentarei quando puser fim à minha carreira.

P. - Última questão: Não te aborrece o facto de teres conquistado tudo?

R. - Não. Ter sido Campeão do Mundo em 2003 foi o realizar dum sonho de miúdo. E logo após percebi que, afinal, não tinha nada de extraordinário. O que conta não é o medalhão à volta do pescoço, é tudo o que está por detrás disso: a preparação, a descoberta, a competição. De cada vez é uma nova história que se escreve. É nisto que reside a beleza da Orientação…

(Entrevista conduzida por Hervé e que pode ser vista na versão original, aqui.)

Para saber mais sobre Thierry Gueorgiou visite o seu excelente "site" em http://www.tero.fr/ .

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

sábado, 19 de janeiro de 2008

Norte Alentejano O'Meeting (X)

EMBALAR A TROUXA E ZARPAR

E a festa chega ao fim. Agora que a longa maratona terminou, olho em frente e vejo um futuro de esperança. Um futuro de enorme crescimento para a Orientação, alicerçado nos seus inegáveis fundamentos como desporto para todos e na sua vocação intrínseca de aliar a competição ao lazer. Convicção reforçada ao perceber de que forma os seus mais directos intervenientes vivem e sentem a modalidade: Intensamente! Apaixonadamente! Orientadamente!

Vai terminar esta prosa, estamos na década de Salomé.” A confirmação chegou pouco após o último orientista ter terminado a sua prova. Ionut Zinca (Grupo Desportivo 4 Caminhos) sagrou-se vencedor deste Norte Alentejano O’Meeting. O seu 11.º lugar na última etapa, a prova de distância média, bastou para garantir o triunfo. O britânico Oli Johnson (VSOK), seu adversário mais directo, não conseguiu melhor que a 9.ª posição na etapa, o que se revelou insuficiente para arrebatar o troféu ao orientista da turma de Matosinhos. Mas a diferença de 18 pontos entre ambos (2828 contra 2810) dá bem a ideia da intensa luta disputada ao segundo.

Outro britânico, Neil Northrop (SYO) viria a segurar a 3.ª posição no Meeting, apesar duma prestação menos bem sucedida nesta etapa que lhe valeu apenas a 18.º lugar. Repetindo a vitória da véspera na prova de “sprint”, o norueguês Oystein Osterbo foi o grande vencedor da prova de distância média acabando por se guindar ao 5.º lugar da Geral. Tiago Aires (CPOC) voltou a ser o melhor português na etapa e o seu 6.º lugar no Meeting é um resultado excelente face à qualidade dos orientistas presentes. “Vejam bem que não há só gaivotas em terra.”

Com esta vitória, Ionut Zinca alcança um dos triunfos mais saborosos da sua carreira e oferece ao Grupo Desportivo 4 Caminhos a possibilidade de ver o seu emblema subir bem alto, tanto no aspecto organizativo como na vertente competitiva. “Agora a vinha é doce em vinha d’alhos.” “Foi uma bela prova e gostei muito”, começou por referir o orientista romeno, para logo prosseguir: “Apesar de uma ou de outra falha, estou muito contente com a minha prestação. Senti-me a cem por cento e consegui um bom resultado para o Grupo Desportivo 4 Caminhos, pelo que o balanço final não podia ser mais positivo.” Quanto ao futuro, é taxativo: “Faço provas de Montanha e provas de Orientação. Só comecei com a Montanha há cerca de 4 anos mas faço Orientação desde os 11 anos. Não vou deixar nunca a Orientação. Sair a correr para a floresta com um mapa na mão é algo que faz parte integrante de mim. A Orientação é a minha vida.”

Nas senhoras, a nota de destaque vai para a vitória de Riina Kuuselo nesta derradeira etapa e que lhe garantiu igualmente o triunfo no Norte Alentejano O’Meeting com um total de 2892 pontos. “Feiticeira, mãe de todos nós, flor da espiga.” A distantes 82 pontos, a britânica Jenny Johnson (VSOK) viria a concluir na 2.ª posição, após o seu 5.º lugar na etapa. Quanto à 3.ª classificada, a também britânica Aisslin Austin (CLOK), foi incapaz de anular a desvantagem para as primeiras, apesar do 1.º lugar na prova de “sprint” e do 2.º posto nesta última etapa. A melhor atleta portuguesa viria a ser Maria Sá, igualmente do Grupo Desportivo 4 Caminhos, na 8.ª posição. O seu 13.º lugar na prova de distância média não deu para mais.

À cerimónia de entrega de prémios assistiu uma vasta e participativa plateia de atletas e acompanhantes. Havia que “espremer” a festa até “à última gota”. Vitoriados os vencedores, aplaudidos os apoiantes – Câmara Municipal de Nisa, Inijovem e Ternisa – e ouvidos os discursos da praxe, agora sim, chega ao final este Norte Alentejano O’Meeting. Que para mim se prolongou por mais “onze dias, onze textos”, num saboroso exercício de apelo às memórias dum fim-de-semana inesquecível. E o tanto que ficou ainda por dizer…“Depois da festa, menina, muita gente se amofina.”

Esta foi também a minha forma de homenagear essa genial figura da música portuguesa, cumpridos precisamente 20 anos que nos deixou, no primeiro dia deste Norte Alentejano O’Meeting. José Afonso, com a riqueza e modernidade das suas composições, soube rasgar caminhos e traçar percursos, qual orientista pioneiro de novos sons e novos ritmos da música portuguesa. Falando do proibido, cantando o mundo dos renegados e aflitos - “menino do mal trajar, um novo dia lá vem” -, ao Zeca devemos, também, esta forma de estar e de viver em liberdade. Como livre me senti, nesse Alentejo de sonho.

“Até um dia destes, numa floresta perto de si!”


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Norte Alentejano O'Meeting (IX)

SOMOS FILHOS DA MADRUGADA

Cedendo às emoções da jornada, a “tribo” da Orientação em terras de Nisa prepara-se para uma noite de sono retemperador. A pouco e pouco, uns e outros vão caindo “redondos” no mais confortável leito ou entregando-se pacificamente aos mistérios insondáveis do “solo duro”. A calma regressa à vila. Todos dormem profundamente, embalados numa toada surda que tudo envolve. Lá fora a chuva cai. Persistentemente! Pesadamente! Impiedosamente!

Com os primeiros alvores da madrugada vem a profunda decepção: o tempo amuou. “O avô cavernoso instituiu a chuva”. A rija ventania e as fortes bátegas de água levantam naturais reticências ao normal desenrolar da decisiva etapa do Norte Alentejano O’Meeting. Despeço-me de D. Gracinda e de Zé d’Aldeia, o simpático casal que me acolheu na Vila da Amieira, e parto para as Termas da Fadagosa, na freguesia de Arez, a 12 kms da sede do Concelho. O edifício das Termas, em fase de remodelação, está provisoriamente transformado em Centro de Apoio. A afluência ao local da prova é enorme e todos buscam o melhor local para estacionar.

Às 9h30 tem início a derradeira etapa. O mapa das Termas da Fadagosa é idêntico ao da prova da véspera, em Arez: o mesmo tipo de terreno, típico de montado alentejano, com muitos pormenores rochosos. Só a distância varia, sendo de 6.100 metros para as elites masculinas e de 4.800 metros para as elites femininas. Saio para o terreno e elejo uma elevação para me instalar e acompanhar o desenrolar das provas. Quando dou por ela, estou rodeado de orientistas por todos os lados. A mesma emoção da véspera, a mesma energia e uma alegria redobrada, agora que as nuvens começam a dissipar-se e o sol abraça a campina. “Bendito seja o pão, bendita seja a flor.”

Não tenho mãos a medir. Aponto a máquina para todos os lados e disparo, disparo, disparo. De repente, à minha esquerda, dou com Maria Sá completamente “atascada” em busca do ponto pretendido. “Já fui a corda da lira a vibrar.” Terá deixado fugir aqui a grande hipótese de se abeirar decisivamente do pódio. “Perdi algum tempo em pontos muito fáceis e isso estragou muito a minha prova”, reconhece. Mas não desarma: “Para mim, é fundamental a Orientação. O meu curso é muito exigente e preciso da Orientação para descomprimir. Apesar de ter a noção de que é complicado conciliar as duas coisas e que acabo, por vezes, por prejudicar ambas.” No final, não pode deixar de se sentir orgulhosa, quer pela sua prestação quer pela dinâmica organizativa ao longo destes três dias. “Para mim, o Grupo Desportivo 4 Caminhos é uma família.”

O final do Norte Alentejano O’Meeting aproxima-se a passos largos. Mas com os orientistas ainda em prova, contas só mesmo no final. Abeiro-me de Fernando Costa, o homem sobre cujos ombros pende a maior quota-parte de responsabilidade nesta Organização sem reparos. Coloco-lhe a questão sacramental: Que balanço? “Presença serena que a tormenta amansa.” Responde-me com emoção: “A prova tem de acontecer sem haver necessidade de eu estar presente. E aqui senti isso. Esteve tudo de tal maneira bem montado que eu poderia ter desaparecido e a prova rolaria normalmente.” Daí que o balanço seja “extremamente positivo. Foi o concretizar de um sonho de há longos anos e hoje sinto-me particularmente feliz. Tivemos 20 países, cerca de 940 atletas inscritos no total, alguns escalões abertos com participantes que se estrearam na Orientação, provas de iniciação para as escolas da região no primeiro dia.”

O orientista por excelência é aquele que, antes de abordar o ponto, está já a antecipar o ponto seguinte, sem quebras, sem perdas desnecessárias de tempo. Com Fernando Costa e o Grupo Desportivo 4 Caminhos, passa-se o mesmo em termos organizativos. “Num terreno ao lado a palavra rompeu.” E vai levantando a ponta do véu: “Temos já atribuída a organização do Norte Alentejano O’Meeting 2008 para Castelo de Vide, onde vamos integrar nessa prova o Campeonato Nacional de Sprint e o Campeonato Nacional de Distância Média. E estamos já a tentar a candidatura para 2009, para Alter do Chão. Vamos procurar arrancar ao mais alto nível e ver até onde poderemos chegar.”

“Ficámos muito contentes por ter cá grandes nomes da Orientação mundial mas aquilo que nos enche de alegria é verificar que foram muitos aqueles que cumpriram o evento por completo, ao longo das 3 etapas. E ficamos com a certeza de que todos saem daqui agradados e com enorme vontade de regressar nos próximos anos.” É ainda Fernando Costa a assumir as despesas deste balanço final, sem esquecer uma palavra de apreço para com toda essa formidável equipa que o secundou. “Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita”. “Todos os elementos do Grupo Desportivo 4 Caminhos que estiveram empenhados na organização do evento são também praticantes. Evidentemente que alguns colocam a competição um nível acima das tarefas organizativas, mas acaba por haver uma simbiose perfeita entre todos os elementos do grupo. Se todos nós organizarmos bem, a modalidade vai crescer, vai adquirir maior valia técnica, vai atrair os apoiantes e patrocinadores. Daí que todos tenhamos que nos esforçar para sermos melhores organizadores, pois isso reflectir-se-á na melhoria das nossas condições enquanto praticantes e no consequente crescimento da modalidade”, conclui.


(continua)

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Norte Alentejano O'Meeting (VIII)

SOB O ASTRO MUDO

A prova de “sprint” tem lugar no centro histórico de Nisa. Com a chegada da noite os orientistas vão tomando de assalto a Praça da República, quebrando a pacatez do lugar. Estão ansiosos por entrar novamente em acção, agora que retemperaram forças da dura etapa de há poucas horas atrás.

Venha a maré-cheia duma ideia para nos empurrar.” Ao trazer a 2.ª etapa do Norte Alentejano O’Meeting para um percurso urbano, a Organização alcança um duplo propósito. Por um lado, demonstrando que a prática da modalidade se pode generalizar a todo o tipo de espaços. E depois, trazendo a Orientação até bem próximo das pessoas, fazendo-as coabitar um mesmo espaço de competição e emotividade, dando-lhes a possibilidade de vivenciar o carácter saudável e lúdico da modalidade, praticamente sem saírem de casa.

À medida que os orientistas vão partindo, as correrias desenfreadas assentam arraiais nas praças e nas ruas. “Anda alguém pela noite de breu à procura.” A população assiste perplexa ao corropio constante daqueles seres algo bizarros, de lanterna na cabeça e mapa na mão. A humidade da noite torna mais escorregadio o empedrado piso e uma ou outra escorregadela mais aparatosa faz elevar o tom das exclamações. A orientação chegou à vila, está viva e recomenda-se.

Enquanto há força.” Numa prova rápida como esta, qualquer deslize poderá ser fatal. A distância é variável de acordo com o escalão, sendo de 3.300 metros e 2.800 metros, respectivamente, para as elites masculina e feminina. Oystein Osterbo (Noruega) demonstra por que motivo é um dos melhores orientistas do mundo, vencendo num extraordinário tempo de 14m43s. Pena foi que tivesse abdicado da vitória no Meeting com aquele “passeio” da parte da manhã. Por outro lado, os dois primeiros classificados da etapa 1 – o búlgaro Kiril Nikolov (Al. Logistics Sofia) e Anders Nordberg (Noruega) - abdicam da sua participação no “sprint” nocturno e deixam o caminho aberto aos “segundos planos”.

Ionut Zinca, o orientista romeno que representa o Grupo Desportivo 4 Caminhos, alcança a 2.ª posição com 15m13s, enquanto o britânico Neil Northrop (SYO) viria a classificar-se na 3.ª posição a 1m04s do vencedor. Tiago Aires (CPOC) volta a ser o nosso melhor representante, classificando-se na 19.ª posição com 18m29s. Começa-se a desenhar uma luta interessante pela vitória neste Norte Alentejano O’Meeting entre Ionut Zinca e Neil Northrop, com o 3.º classificado da manhã, o também britânico Oli Johnson (VSOK) e o finlandês Timo Saarinen (Tampereen Pyrinto) a intrometerem-se igualmente na contenda. “Só olho por olho e dente por dente vale.” A última etapa encarregar-se-á de desfazer as dúvidas.

Nas senhoras, a britânica Aisslin Austin (CLOK) foi a grande vencedora com o tempo de 18m38s, redimindo-se da 10.ª posição da etapa da manhã. “Eu fui ver o meu benzinho.” Maria Sá colocou o Grupo Desportivo 4 Caminhos de novo no pódio, graças ao seu extraordinário 2.º lugar em 18m43s. Com mais 2 segundos, viria a concluir a finlandesa Sofia Haajanen (SK Pohjantahti). À semelhança dos homens, também a vencedora da manhã, a finlandesa Maria Rantaala (AngA), não participou na prova de “sprint”. Tal como Lene Moe (Noruega) e a finlandesa Sanna Heinonen (AngA), 3.ª e 4.ª classificadas, respectivamente, na etapa 1. Tudo em aberto, pois, para a prova de distância média, no último dia, nas Termas da Fadagosa.

No final, o Cine-Teatro de Nisa acolherá a entrega de prémios. Os pódios destinados a todos os escalões e ambos os sexos vão-se repetindo a um ritmo alucinante. A razão é só uma: há uma ceia à espera de todos no Mercado, oferecida pela autarquia. Entre o Cine-Teatro e o Mercado Municipal, o “cortejo” forma-se atrás do Grupo de Bombos de Nisa, numa arruada que toma conta de tudo e de todos. Depois, foi ver toda a gente entusiasmada a dar ao dente, deliciando-se com um saboroso caldo verde e empenhada em dar cabo o mais rapidamente possível dum soberbo e suculento “porco no espeto”. “Eles comem tudo e não deixam nada”.


(continua)

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Norte Alentejano O'Meeting (VII)

CANTARES DO ANDARILHO

O Tejo vai levando as águas, ora espraiando-se preguiçosamente, ora revolto, espartilhado entre escarpas de xisto. Nos campos verdejantes a perder de vista, intrigantes vestígios de outros povos e de outras eras, disputam o lugar aos imponentes blocos graníticos. Nas aldeias, cede-se ao ciciado chamamento do estreito casario de branco caiado, das singelas igrejas, dos imponentes castelos, da simpatia e carinho das suas gentes. Na mesa, servidos em decorativas loiças de barro vermelho incrustadas de pequenas pedrinhas brancas, degusta-se o afamado queijo, os maranhos e o sarapatel, os feijões das festas, os bolos dormidos ou os rebuçados de ovos. É Nisa, esta terra de sol, pedra e água que se impõe aos nossos olhos, se oferece em todo o seu esplendor e nos impressiona vivamente os sentidos. Sim, porque nisto de beleza, não basta parecê-lo…

Terminada que está a etapa 1 do Norte Alentejano O’Meeting, sossegado o estômago e postas as ideias em ordem, é hora de deitar contas à vida. Às 19 horas arrancará a prova de “sprint” nocturno e não há tempo a perder. “Chamaram-me um dia cigano e maltês.” Olho para o relógio: 16h20. Ainda tenho uma boa hora e meia de luz natural e esta é a minha grande hipótese de fazer um trecho do PR1 – Trilhos das Jans, um dos 8 trilhos pedestres devidamente identificados e balizados que, espalhados pelo Concelho, estão ao dispor do visitante.

O sol vai caindo no horizonte e as cores de final de tarde definem com maior nitidez o recorte da paisagem, realçando a beleza da descida para a Barca da Amieira. “Ali está o rio.” Recupero a agradável conversa com a Eng.ª Maria Gabriela Tsukamoto, Presidente da Câmara Municipal de Nisa: “Acima de tudo, o que se reflecte mais durante estes três dias do Norte Alentejano O’Meeting, é a grande promoção que estamos a fazer do nosso Concelho. É uma aposta em termos estratégicos daquilo que salientamos ao nível do Turismo de Natureza e do esforço de preservação do nosso património ambiental”

Apesar da Lei das Finanças Locais penalizar fortemente os municípios mais pequenos e do interior, Nisa não desiste das áreas de desenvolvimento que definiu, entre as quais o Termalismo e o Turismo de Natureza: “Julgo que este tipo de provas se enquadra muito naquilo que pensamos devem ser os nossos princípios orientadores. Pretendemos levar a cabo muitas iniciativas do género, não apenas ao nível da Orientação mas outro tipo de actividades no âmbito de Desporto de Natureza.” A aposta, claramente, é na promoção da saúde e da qualidade de vida. “Temos uma série de equipamentos ao ar livre que são fundamentais para a prática duma multiplicidade de desportos e com um público-alvo de todas as idades, temos o Rio Tejo aqui bem perto, temos trilhos pedestres.” “Se novos donos querem por tronos sobre o teu chão…

Abeiro-me do Tejo e da Fonte dos Amores, junto à qual um painel identificativo aponta o caminho. Devo subir a margem esquerda do rio, calcorreando os três quilómetros do muro de Sirga que ligam a Barca da Amieira à Barragem do Fratel. As margens aproximam-se à medida que avanço. Das fragas no meio do rio, corvos-marinhos levantam-se pesadamente no voo, surpreendidos pela minha presença. Pelo lusco-fusco, vou percebendo que a minha demanda quedar-se-á antes de atingir o objectivo, mas insisto em prosseguir. Quero absorver mais daquela paz, daquela harmonia. “E o caminho é só um, é sempre em frente.” Atingida a foz do Rio Ocreza, compreendo que não tenho alternativa. Dou meia-volta e, apressadamente, enceto o regresso.

A única certeza que tenho neste momento é a de que voltarei a Nisa. E não virei sozinho. “Seremos muitos, seremos alguém”. Aqui tornarei com o propósito expresso de fazer na íntegra os Trilhos das Jans, essas fadas que teceram o fino vestido de linho com que foi a sepultar a Rainha Santa Isabel. Os Trilhos das Jans ou do Conhal, os trilhos do Moinho Branco ou a Rota das Azenhas. Ir à descoberta de S. Miguel, do Rio Tejo ou olhar sobre a Foz. Caminhando. Tal como o faz a Eng.ª Gabriela Tsukamoto: “Gosto muito de caminhar, caminhei durante muitos anos neste Concelho. Foi também graças a isso e à extraordinária equipa técnica da Câmara Municipal que temos todo este património classificado.” Quanto à Orientação, parece identificar-se particularmente bem com a modalidade: “Eu acho que tenho tido alguma orientação durante estes anos”, remata.


(continua)

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Norte Alentejano O'Meeting (VI)

TENHO MAIS DE MIL AMIGOS

Vão chegando a pouco e pouco. A ordeira e meticulosa partida dos orientistas contrasta agora com a sua chegada, ora isolados, ora em pequenos grupos de dois ou três. Para trás ficaram os preciosos minutos perdidos à procura “do ponto mais fácil”, o equipamento rasgado pelo arame farpado, o sapato preso na lama, o pé mal colocado e o consequente trambolhão. Mas tudo isto são males menores, a avaliar por aquele brilhozinho nos olhos, por aquele sorriso no rosto, por aquela expressão de felicidade. Todos sairão vencedores desta primeira batalha. Agora é hora de descansar, pois a guerra segue dentro de momentos.

A etapa 1 do Norte Alentejano O’Meeting abeira-se do fim. “O que faz falta é animar a malta.” De microfone em punho, Francesco Isella vai saudando a chegada dos vários participantes. Baseando-se nos seus enormes conhecimentos, vai-nos brindando com preciosos pedacinhos do historial de muitos dos atletas que agora terminam a prova. Tece considerações sobre uns e outros, compara tempos, procede a entrevistas. Tem uma energia transbordante, este italiano.

A sua preocupação vira-se agora para Marco Póvoa, um dos últimos a partir e, naturalmente, também um dos últimos a chegar. Mas a diferença de tempos começa a penalizar o orientista português que tarda em surgir no horizonte. “O homem cavava uma cova na vida.” Estranhamente, Francesco mostra-se radiante. Terá apostado que Marco Póvoa não seria o português melhor classificado no final desta prova de distância longa. Ganhou a aposta! Com efeito, Tiago Aires (CPOC) acabou por ser o nosso melhor representante, concluindo na 10.ª posição e desforrando-se da prestação desastrosa no Portugal O’Meeting de há uma semana, em S. Pedro do Sul.

Depois do britânico Oli Johnson (VSOK) ter liderado a prova durante largo tempo, até ser ultrapassado pelo representante da selecção norueguesa Anders Nordberg, tudo parecia resolvido. Mas no cair do pano, o búlgaro Kiril Nikolov (Al. Logistics Sofia), o último atleta de elite a partir, acabou por se intrometer entre ambos os contendores, arrebatando um surpreendente 2.º lugar. Já o grande favorito, o também norueguês Oystein Kvaal Osterbo, 9.º classificado do “ranking” mundial, rolou em ritmo de treino, como o próprio confessou, não indo além da 59.ª posição a 32 minutos (!) do vencedor. “Quem cai já não torna a cair.”

Nas senhoras, a finlandesa Maria Rantala (AngA) pulverizou praticamente todos os parciais, levando de vencida as suas rivais por larga margem. “Maria que eu tanto prezo.” Riina Kuuselo, da turma finlandesa Tampereen Pyrinto e a norueguesa Lene Moe, uma das mais credenciadas orientistas da actualidade, concluíram nas posições imediatas. Também nas senhoras, Portugal conseguiu colocar uma atleta no “top ten”, com Emília Silveira (ADFA) a alcançar um honroso 8.º lugar.

No “paddock”, passeio tranquilamente por entre o ruidoso aglomerado de gente. Muitos vão abandonando o recinto, não esperando sequer pela entrega de prémios. Os que ficam, consultam os resultados, conversam animadamente ou marcam encontro no pequeno restaurante de apoio montado pela organização. “Senhora do Bom Sucesso, diz-me onde irei almoçar, não quero sola de molho, tenho as tripas a estalar.” Ali, no “Comezainas Bar”, não há mãos a medir e as iguarias vão saindo a um ritmo alucinante. O destaque vai inteirinho para uma “bôla” caseira, recheada de fiambre e queijo derretido, absolutamente do outro mundo. Quem diz que o ar do campo não abre o apetite?

Na hora da consagração, os vencedores fitam extasiados ante os prémios que acabam de receber. “Quem tem farelos tem quintas.” Todos eles ostentam um precioso medalhão em estanho maciço, com 9 cm de diâmetro e 250 gramas de peso. São verdadeiras peças artísticas criadas pela Artestanho, um dos patrocinadores do Grupo Desportivo 4 Caminhos, com quem mantém uma parceria desde 1999. Também as tradicionais bilhas e pratos de barro vermelho com incrustações de pequenas pedrinhas brancas deixam os felizes contemplados de olhos arregalados e um sorriso de orelha a orelha.

Mas as homenagens estendem-se ainda a alguns apoiantes e a dois grandes nomes aqui presentes. “Por esses quintais adentro vamos às raparigas casadas”. Fernando Mamede é um dos convidados de honra da organização, numa inteligente “piscadela de olho” da Orientação aos “manos” do Atletismo. E se vão havendo estradistas ou montanhistas que, pelos mais diversos motivos, se sentem atraídos pela Orientação e decidem experimentar a modalidade, corro o risco de não errar ao afirmar que o contrário é tão ou mais válido ainda. Com efeito, a iniciação à Orientação comporta atractivos que a tornam irresistível a todas idades e tipos de pessoas. E começando, difícil será parar! Daí que não espante ver nas provas de estrada, corta-mato ou montanha um número considerável de participantes provenientes da esfera da Orientação.

A última figura homenageada será Peo Bengtsson, um dos homens que, através da companhia sueca WWOP (World Wide Orienteering Promotion), mais tem contribuído para o incremento da modalidade um pouco por todo o mundo. “Amei a minha amada com amor”. A sua acção junto das várias Federações Nacionais, numa fase ainda incipiente, auxiliando na elaboração dos essenciais mapas, tem sido fundamental para que a Orientação venha a crescer de forma exponencial, gerando interesses e vontades e mobilizando um número cada vez maior de entusiásticos e acérrimos praticantes.


(continua)

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Norte Alentejano O'Meeting (V)

SE VOARAS MAIS AO PERTO

Cinco são os sentidos, está nos manuais! Neles reside a possibilidade dum maior ou menor contacto da pessoa com aquilo que a rodeia. Há ainda o sexto sentido, aquela percepção extra-sensorial que parece ser mais propriedade das mulheres do que dos homens e que nas concepções ocultistas estará também sedeado num órgão do nosso corpo. Figurada ou objectivamente, é bom que todos eles – sem excepção! - estejam suficientemente desenvolvidos. Sem isso, não há sentido de orientação que aguente.

Já fui favo de mel, cajado de pastor.” O Norte Alentejano O’Meeting tem em Arez a competição de Distância Longa. Destinada a atletas de todos os escalões e ambos os sexos, com distâncias variáveis, a prova integra a Liga Mundial de Orientação Pedestre (WRE) da Federação Internacional de Orientação (IOF) para atletas de elite. O terreno é duma beleza ímpar, típico de montado alentejano, com pequenos ribeiros rumorejantes de quando em onde, enormes e espectaculares blocos rochosos e uma grande quantidade de cercas que condicionam as opções e colocam entraves de ordem vária à progressão dos atletas.

A distância é de 15.200 metros e 9.800 metros, respectivamente, para as elites masculinas e femininas. É necessário, porém, considerar que estes valores são enunciados em linha recta entre os vários pontos do percurso, não levando em conta quer as opções do orientista, quer os desníveis do terreno. “Mas quem vencer esta meta, que diga se é linha recta”. Na prática, a distância acabará por ser substancialmente superior.

Para aqueles que “gravitam” na esfera estrita do Atletismo, não pode deixar de constituir motivo de enorme admiração a “performance” dum orientista de elite. Trilhar terrenos irregulares, superar desníveis, transpor obstáculos e efectuar mudanças bruscas e constantes de velocidade e direcção, mantendo um olho na carta e outro no chão, implica um apuro dos sentidos muito para lá do comum. “Agora é que pinta o bago.” É que não basta ser um corredor talentoso ou um bom leitor de mapas: é necessário ter “olhinhos nos pés”.

Muitos destes orientistas de elite são atletas de nomeada, sobretudo no que às provas de Montanha diz respeito. Não devemos esquecer que é nos países nórdicos, bem como na Suiça e na Áustria, que encontramos praticamente todos os grandes talentos da actualidade. O seu treino diário é desenvolvido em áreas com elevado grau de inclinação e todo e qualquer orientista encontra na montanha o seu terreno de eleição. “Só o forte resiste ao combate.” Ionut Zinca, o melhor orientista romeno da actualidade e atleta do Grupo Desportivo 4 Caminhos é disso um bom exemplo. O seu 6.º lugar na Taça do Mundo de Montanha aí está para o comprovar.

Os fisiologistas do desporto relacionarão esta proximidade entre a Orientação e as provas de Montanha com a enorme capacidade do orientista em desenvolver as suas prestações acima do limiar aeróbico. Uma prova de Orientação faz particular apelo ao trabalho de força e os grupos musculares envolvidos são sujeitos a mudanças constantes de velocidade e de ritmo. Este tipo específico de exercícios toma o nome de “fartlek” e constitui uma base essencial da preparação dos atletas, na generalidade, como forma de melhorar as suas prestações em prova. O termo, de origem sueca, define variações no treino, combinando a corrida lenta e contínua com “sprints” rápidos e breves, como se de uma brincadeira se tratasse. Quem sabe, Gosta Holmer, o seu inventor, não terá sido também ele orientista? “Tu gitana que adivinhas, me lo digas, poes no lo sê.”

No terreno, sobre um imponente bloco granítico, surgem agora dois observadores especiais: Fernando Mamede e Fernando Costa, o Director da Prova. Vou ao seu encontro. “Agora sabe bem este sossego.” A paisagem é duma beleza surpreendente e somos espectadores privilegiados dum evento ímpar, pela energia, emoção e espectacularidade colocadas em prova por todos os participantes. Referindo-se aos atletas de elite, Fernando Costa faz uma observação curiosa e plena de significado: “À beira dos outros, parece que voam baixinho”. Quanto ao ex-recordista europeu e mundial de 10.000 metros, revela-se igualmente fascinado com o desenrolar dos acontecimentos e confessa que poderá mesmo vir a experimentar a Orientação. Mas com uma condição: “Só se for acompanhado!”

(continua)

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

domingo, 13 de janeiro de 2008

Norte Alentejano O'Meeting (IV)

O PASTOR DE BENSAFRIM

Há muitos termos que são específicos da Orientação e com os quais não é fácil familiarizarmo-nos. Palavras roubadas às ciências, umas mais exactas do que outras. E alguns neologismos também, nomeadamente esse formidável “orientista”. Mas a Orientação também tem a sua gíria. Aqui, aquele que anda às voltas e não dá com o ponto é um “pastor”. Automática e assumidamente. Em Bensafrim como no Mindelo, na Freita como em Cantanhede, em Palmela como em Arez.

Para um “rookie” da Orientação, há algo que perturba, que mexe com os sentidos, que leva a equacionar naturais e legítimas aspirações. Nada pode ser mais “dilacerante” do que ver um orientista perdido, desesperado face à sua total incapacidade em encontrar o ponto pretendido. “Naquele lugar sem nome para qualquer fim.” Fazendo apelo a todas as capacidades e conhecimentos, desconstrói o percurso, procura reorientar-se e… nada! Cede à tentação de seguir outro orientista, na esperança de ser “guiado” até à “terra prometida”. Todavia, não raramente, volta a fracassar nos seus intentos e a angústia apodera-se completamente de si. Daí ao desânimo e à desistência vai um pequeno passo.

É frequente perceber entre os orientistas uma louvável relação de entreajuda. Haverá sempre aquele que, desperdiçando alguns preciosos segundos, não hesita em parar, inteirar-se da situação e procurar ajudar o colega. “Amigo, maior que o pensamento, por esta estrada, amigo, vem”. É uma postura que tem raízes no “espírito de corpo”, já que cada atleta se considera como parte integrante dum todo. Ao longo da prova, exemplos destes são observáveis com frequência e, no final, lá estarão à espera uns dos outros, satisfeitos por terem podido ser úteis. O diálogo é então aceso. Traçam-se nos mapas os percursos acabados de efectuar, estabelecem-se comparações e retiram-se as necessárias ilações na perspectiva de não repetir os mesmos erros em futuras oportunidades. Temos ali conversa para horas e horas…

Havia uma hora que havia uma vida”. Olho para o relógio e os ponteiros atingiram já o zénite. O calor aperta. Imagino-me a elevar-me no ar, a pairar sobre aquela mole imensa de atletas que, de mapa em punho, procuram levar a bom termo a exigente empreitada. Do centro da aldeia que se divisa ao longe, chegam-me os ecos da festa, agora que os primeiros a partir terminam já a prova. Trazida nas asas do vento, a música espalha-se no ar, entrecortada a espaços pelos gritos de incitamento de Francesco Isella, saudando estes verdadeiros campeões.

O Francesco é um dos convidados especiais da Organização. Veio de Milão e é, também ele, orientista. Tem um conhecimento profundo dos meandros da modalidade, identifica ao pormenor as qualidades técnicas dos melhores atletas, estabelece comparações entre o nível das provas que se realizam um pouco por todo o lado. E vai dizendo que é nos países do Sul, nomeadamente em Portugal, que mais se vive e sente a Orientação. Aqui, as provas, para além do elevado nível qualitativo, atingem uma dimensão de festa e de convívio. Os aspectos meramente competitivos são frequentemente relegados para segundo plano. “Ailé! Ailé!
” É o carácter latino a sobrepor-se à rigidez e formalidade dos nórdicos.

O crescimento da modalidade e a sua popularidade levam os responsáveis máximos da Orientação a ambicionar o estatuto de modalidade olímpica. Francesco reconhece que a sua singularidade constitui o grande entrave às naturais e legítimas aspirações: “Não é fácil convencer o Comité Olímpico, quando é praticamente impossível padronizar percursos e distâncias, quando é inviável para o espectador acompanhar o desenrolar das provas, quando a emoção dos duelos só se verifica a posteriori após a chegada e as contas feitas”. Duvida desse salto que, a verificar-se, seria determinante para catapultar a modalidade, conferindo-lhe visibilidade, generalizando a sua prática e guindando-a ao ponto que realmente merece. “Se o gageiro de outras eras subisse de novo à gávea”.

O terreno fervilha de energia e emoção. Não preciso de me esforçar em demasia para adivinhar quem são os atletas de elite, os mais jovens, os mais idosos e, naturalmente, os “pastores”. “A formiga no carreiro ía em sentido contrário”. Esta dispersão advém da multiplicidade de opções que cada orientista tem à sua disposição entre dois pontos, aqui residindo o fascínio da Orientação. As encruzilhadas vão-se sucedendo e são necessárias certezas, é imperioso ser firme e decidido para trilhar o caminho certo rumo à vitória. Que mesmo sendo apenas pessoal, não deixará de ter menos valor por isso. Como em tudo na vida!


(continua)

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

sábado, 12 de janeiro de 2008

Norte Alentejano O'Meeting 2007 (III)

FURA-FURA

Ponto… Ponto… Ponto… Ponto… Ponto… Traço. Onze horas da manhã no Continente e Madeira; dez horas nos Açores! Ao longo de mais de três horas, o sinal soará rigorosamente a cada minuto, dando início à etapa 1, a prova de Distância Longa. No final, serão 746 os orientistas de todos os escalões e ambos os sexos a concluir a prova, enquanto 39 ficarão pelo caminho. É a vida!

Sábado, 9 da manhã. Um espesso manto de nevoeiro estende-se desde o Vale do Tejo e cobre esta parte norte do Distrito de Portalegre. Zé d’Aldeia sossega-me, “não tarda nada teremos sol”. Chego cedo à concentração, junto à Praça de Touros de Arez. A azáfama habitual, muita gente jovem e menos jovem, um espírito de festa indescritível. “Quanto é doce, quanto é bom, no mundo encontrar alguém”. No núcleo duro da Organização, José Moutinho foi dos últimos a chegar, trazendo com ele muitos dos preciosos mapas e a sinalética. Duas horas de sono e aí o temos, que a hora é de trabalho.

O tempo voa. Devemos arrancar para o terreno quanto antes. Na companhia de um dos responsáveis pela cobertura televisiva da prova, seguimos com José Mário Batista, mais um apaixonado pela Orientação e uma das “peças” importantes na dinâmica organizativa do Grupo Desportivo dos 4 Caminhos. Seguimos na carrinha do Clube até meio caminho, pegamos depois nas “trouxas” e toca a palmilhar por montes e vales. “Vá de folia, que há sete anos me não mexia”.

José Mário Batista conhece bem o terreno e busca os pontos onde passará o grosso dos atletas. Vai-se orientando pelo mapa, aqui e ali faz apelo à bússola em busca da “baliza” com o número 122. Pulamos aqui uma cerca, contornamos ali a linha de água, atravessamos mais além uma zona encharcada. A paisagem é fantástica e adquire mais cor e mais vida, agora que os primeiros raios de sol vencem o nevoeiro. “Recolhi sombras onde vira luzes de orvalho ao meio-dia”. Sobreiros e azinheiras concorrem com as giestas nas muitas abertas do terreno. Imponentes, as fragas graníticas pontuam o todo, tomando conta dos sentidos.

As onze horas aproximam-se rapidamente e está para breve a partida dos primeiros concorrentes ao Norte Alentejano O’Meeting. Enquanto aguardamos, vou conversando com José Mário Batista e sabendo do seu apego à modalidade. “Veio lá da terra um homem tentar a ventura”. Professor de Matemática, pegou na Orientação “para que as coisas não morressem”. Fala no trabalho fantástico desenvolvido pela Professora Maria de Belém, no empenho necessário para levar por diante um projecto desta natureza: “Não podemos pegar nos miúdos para fazer Orientação como quem faz ginástica ou vólei. Necessitamos de tempo para nos deslocarmos para o terreno. Acaba por ser tudo feito ao sábado, o que implica disponibilidade, tanto da parte de professores como de alunos.” Refere-se à articulação do Desporto Federado com o Desporto Escolar como “a verdadeira mola impulsionadora da modalidade” e lamenta que o Desporto Escolar não leve em linha de conta os calendários da Orientação, fazendo coincidir alguns dos seus eventos com outros já agendados e inviabilizando elevados níveis de participação. Mesmo assim, quando fala em 400 miúdos a disputar uma prova de Orientação ao nível do Desporto Escolar, fico com a certeza de que se está no bom caminho.

No horizonte começam a surgir os primeiros concorrentes. “Achégate a mim, Maruxa”. Não tarda nada, todo o terreno – mas mesmo todo! – estará tomado. Ali, em campo aberto, as condições são ideais para a prática de Orientação pelos jovens. Fazem-no em absoluta liberdade, sem constrangimentos ou medos de qualquer espécie. “Por vezes deparamo-nos com percursos muito fechados e sombrios. E aí não deixamos os miúdos sozinhos”, explica José Mário Batista, referindo-se aos tais percursos como “terreno do lobo-mau”. E percebo o importante trabalho de acompanhamento dos mais novos, um conhecimento adequado da psicologia infantil. Existe a preocupação em evitar traumas desnecessários quando o objectivo é cativar novos praticantes e não “atirá-los” para experiências negativas, que os levem a desinteressar-se pela modalidade.

À medida que vão surgindo os orientistas vou apreciando a sua presença, a conduta de uns e de outros, as opções que se revelam desadequadas, já que os vejo regressar por vezes ao ponto intermédio onde me encontro. Fascina-me a postura dos mais idosos, com os quais procuro identificar-me. “Um velho voltou e disse-me adeus, cantando e dançando debaixo do céu”. Será o seu porte sereno, simultaneamente empenhado e descomprometido, que me atrai? Ou estarei, instintivamente, a construir já uma projecção mental do meu futuro como orientista?

(continua)

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Norte Alentejano O'Meeting 2007 (II)

TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM

Apuramos o sentido da responsabilidade, cultivamos o sentido estético, relevamos o sentido crítico, louvamos o sentido de Estado, transgredimos o sentido obrigatório e confiamos no sentido de orientação. Confiamos ou desconfiamos, que isto de “nem sempre nem nunca” tem muito que se lhe diga.

Algures, entre Nisa e Arez, estou prestes a iniciar-me no terreno. “Raiava o sol lá no Sul”. A chuva da manhã deu lugar a uma bela tarde e um céu intensamente azul, matizado de nuvens de fantásticas formas, empresta à paisagem as cores e o encanto só possíveis no Alentejo. Um verde, intenso, imenso manto de erva, estende-se aos meus pés, pontuado por milhões de delicadas flores. Contrastando na paisagem, as gigantescas rochas graníticas, de faces lisas e arredondadas, inertes, irrompem nas colinas. Ali, no meio do mais belo cenário, sinto-me um cavaleiro prestes a encetar uma formidável “caça ao tesouro”. Porém, não estou sozinho. Comigo está um grupo de alunos da EB 2,3 Sebastião da Gama (Estremoz), também eles fascinados com este primeiro contacto com a modalidade. A “comandar as tropas”, Carlos Cabral será o nosso monitor ao longo dos nove pontos que constituem o percurso, numa distância aproximada de 1700 metros.

Elemento do Grupo Desportivo 4 Caminhos, também ele orientista, Carlos Cabral sente e vive apaixonadamente a Orientação. As suas explicações técnicas prendem a atenção de todos. Aborda os tipos de terreno, que podem ir da mais esconsa floresta ao simples parque urbano ou às ruas duma qualquer povoação. Fala dos mapas e das suas escalas e ensina como são importantes os pontos de referência. Ajuda a orientar o mapa, indo ao pormenor da dobragem que facilita a sua consulta e ao acompanhamento do percurso com o polegar sobre a carta. Dispensa a bússola, referindo que numa fase de iniciação devemos simplificar ao máximo. E dá a possibilidade a cada um dos membros do grupo, alternadamente, ser o guia entre dois pontos. “Venham mais cinco…

Enquanto avanço, usufruindo duma forma privilegiada de lazer em íntima comunhão com a natureza, acompanho Carlos Cabral que vai revelando como nasceu a Orientação, há mais de 150 anos, nos meios militares escandinavos, e a forma como evoluiu para se transformar hoje numa das modalidades que mais tem crescido nos últimos anos no nosso País. “Agora sabe bem este sossego”. Compreendo que a preservação dum meio ambiente saudável passa por constituir um princípio fundamental da Orientação e que qualquer orientista prima por manter a natureza isenta de lixo e por tomar as medidas adequadas para evitar toda e qualquer forma de poluição. E fico fascinado com as potencialidades da modalidade como “desporto de família”, onde pais e filhos orientam atenções e esforços num mesmo sentido, comungando dum mesmo ideal, num mesmo espaço, ao mesmo tempo.

No centro da Avenida, no cruzamento da rua”. Terminada a fase “rural”, segue-se a fase “urbana”. Pela vila da Amieira do Tejo passaram ao longo do dia, treinando, alguns dos melhores orientistas da actualidade. E na Amieira confirmei o que já suspeitava: não há melhor forma de esquadrinharmos uma aldeia, vila ou cidade, do que com um mapa na mão, orientando os nossos interesses para aquilo que ela tem de melhor. O nosso monitor é agora o Marçal Guilherme e tenho a companhia da Carolina e do Rodrigo, ela com 7 anos, ele com 5. Fazem o percurso completo, prova provada que a Orientação é de todos e para todos.

Chegada a hora de me instalar, Gracinda e Zé d’Aldeia abrem-me as portas da sua casa. “Em terras, em todas as fronteiras, seja bem-vindo quem vier por bem”. A hospitalidade e a simpatia do casal são comoventes. Após uma noite bem dormida, acordo com um cheirinho delicioso, que me faz lembrar algo mas que não consigo identificar com precisão. A Dona Gracinda fez questão de oferecer o pequeno-almoço. Sobre a mesa, entre iguarias da sua própria lavra - um doce de murtonho “do outro mundo” - o objecto da minha indefinição: rabanadas. Diz-me que ali lhe dão o nome de “fatias paridas”. E explica: “Nos tempos mais difíceis, quando alguém acabava de dar à luz, à falta de algo mais avultado, levava-se à jovem mãe aquilo que havia, precisamente as fatias paridas, que pãozinho, graças a Deus, foi coisa que nunca faltou”. Antes de sair para Arez e para o primeiro dia de competição, agradeço-lhe do fundo do coração mas “que não era necessário estar com esse incómodo”. “Qual incómodo”, responde-me com uma voz muito doce, quase velada. “Se não fosse assim, acabávamos por nem nos conhecermos”.

(continua)

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Norte Alentejano O'Meeting 2007 (I)


JUREI TER POR COMPANHEIRA…

Serenamente, regresso. O fim-de-semana está prestes a terminar e o trajecto para casa é feito sem pressas, ao correr do tempo, como se instintivamente me negasse a abandonar o Alentejo. Mergulhado nos meus pensamentos sigo em silêncio à medida que a tarde cai. Presa ao retrovisor do carro, a pequena “baliza” laranja e branca baloiça à minha frente, acenando-me. Fixo nela o olhar, esboço um sorriso nostálgico. Depois fito o espelho e olho para trás, bem lá para trás…

Manhã de sexta-feira. O dia acorda chuvoso e frio. Saio de casa rumo a Nisa e ao Norte Alentejano O’Meeting. “Somos filhos da madrugada”, penso. Quero chegar rapidamente à Amieira do Tejo mas as grossas bátegas de água aconselham prudência. Devo refrear o meu entusiasmo e esperar o tempo necessário para abrir essa verdadeira “caixinha de surpresas” chamada Orientação. Conheço-lhe os princípios e fundamentos, mas sei que estou apenas perante a ponta do iceberg. Necessito compreender o que a torna tão especial, qual poção mágica que confere o dom da eloquência aos que dela vivem e que transforma cada conversa num abundante manancial de excitante descoberta. Quero mergulhar nessa fonte também, sorver a sua essência, beber a sua alma.

Ali está o rio”. A partir da margem Sul espraia-se o meu adorado Alentejo, terra de sonho e de sonhos onde me perco e me encontro. Por agora estou perdido. Barragem, EN 359, nada… Regresso ao ponto de partida. Outra barragem, outra vez a EN 359 (!) e o resultado volta a ser negativo. Mais uma inversão de marcha e de novo no ponto de partida. À terceira é de vez. Lá dou com a barragem certa, com a estrada certa e chego à Amieira. Tanto engano para quem vem para uma prova de Orientação só pode ser prenúncio de “desastre”. Afinal, acabava de pôr em prática um dos princípios básicos da modalidade: “Se estás perdido, não persistas nos erro. Volta ao princípio e reorienta-te”. Como em tudo na vida!

A hora é de almoço. No “epicentro” desta fantástica Organização um homem merece uma menção especial. É Fernando Costa e é ele que me recebe de braços abertos, me apresenta ao “núcleo duro” e “menos duro”, que faz questão em integrar-me nessa fantástica “família” que é o Grupo Desportivo 4 Caminhos. Porém, agora, “o que faz falta é dar comer à malta”. Não me faço rogado. Sento-me à mesa, “aconchego” o estômago com uma divinal canja de frango caseiro e entrego-me às fatias de porco com feijão preto.

Para além da deliciosa paleta de sabores que me sacia o corpo, o almoço serve para alimentar igualmente o espírito. Fico a saber da importância da bússola, inteiro-me da sinalética, familiarizo-me com termos como topografia, desníveis, ressaltos. E adquiro uma ideia mais precisa da pesada máquina organizativa. Dos apoios à logística, dos percursos aos mapas. “Sete mil almas contadas laboraram a preceito”. Tudo parece montado ao pormenor, as hipotéticas falhas identificadas e as correspondentes alternativas devidamente equacionadas.

Agora é tempo de arrancar para Nisa, visitar o Secretariado da Prova e seguir para Arez, para um percurso de demonstração no campo. Será uma estreia, mas para tudo há uma primeira vez. “De não saber o que me espera”, a tarde promete!

(continua)

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO


[Nota: A dois meses do Norte Alentejano O'Meeting 2008, recupero as crónicas da edição anterior, recordando que constituem testemunhos vividos e sentidos da minha estreia na Orientação e, simultaneamente, uma homenagem a Zeca Afonso, nos 20 anos da sua morte.]

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

PUZZLE

Nos países nórdicos os condicionalismos climatéricos põem à prova a capacidade atlética e os conhecimentos técnicos dos orientistas. Inúmeras provas de Orientação em Esqui marcam a temporada de Inverno, altura em que os orientistas pedestres "descem" às regiões temperadas do Sul, nomeadamente ao nosso País, para treinar e competir. Porém, mal as condições o permitem, a Orientação Pedestre volta a ser "raínha e senhora".

A Noruega é um paraíso para os amantes da modalidade, e não só... A sua beleza selvagem e as paisagens de "cortar a respiração", tornam-na duplamente atractiva. A região de Sandefjord recebe anualmente, no início de Agosto, o Hovedløpet & O-landsleir, o Campeonato Nacional destinado a orientistas de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os 14 e os 16 anos. Quase mil jovens, de cerca de uma centena de clubes, encontram ali um espaço privilegiado de salutar competição e convívio, ajudando a vincar fortemente o seu apego à modalidade e lançando os mais capazes para a ribalta da Orientação Pedestre.

Vale a pena dar uma espreitadela pelo "sítio" da Organização, onde os mais dotados linguisticamente encontrarão todas as informações acerca do evento. Mas não só! Lá se encontra a página que proponho, proporcionando um momento de descontração e seguramente divertido. São três "puzzles" com diferentes níveis de dificuldade (lett utgave = nível baixo; vanskelig utgave = nível médio; krevende utgave = nível alto). Para aceder à página, basta clicar sobre a imagem acima. Atreva-se!

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

SIMONE NIGGLI-LUDER, A ORIENTAÇÃO VERSÃO "GLAMOUR"

Com 14 títulos mundiais, a orientista é, aos 28 anos, a desportista com mais títulos na história do desporto suíço. Um fenómeno.


« Eu, vedeta ? Não exageremos. Ainda posso passear por toda a Suiça sem ser incomodada.” Quem o diz é Simone Niggli-Luder, 28 anos, uma espécie de Federer da Orientação.

Definitivamente, ela tem mais “glamour” e consegue passar melhor a imagem do que o seu desporto de estimação. Além do mais, esta modalidade apresenta uma enorme desvantagem: Não figura no programa olímpico. Tal facto não impede Simone Niggli-Luder de ser uma verdadeira estrela na Suiça, sobretudo na parte alemã do País.

Fascinante

Palmarés único, visual apelativo. “Ver esta bela jovem, correndo sozinha na floresta, classificando-se à frente de todos os outros, as pessoas ficam fascinadas. Além do mais é inteligente, sabe falar”, analisa Stephan Sutter, chefe de redacção do “Schweizer Illustrierte”.

Catorze títulos mundiais: Na história do desporto suíço, nenhuma outra mulher se pode vangloriar de tal palmarés. Os dois últimos, alcançou-os recentemente em Kiev. O canal suíço-alemão SF, enviou uma equipa de televisão para fazer a cobertura do evento: “Fizeram-no pela Simone, evidentemente. Não foi por verdadeiro interesse pela nossa modalidade”, sorri Brigitte Wolf, porta-voz da Federação Suiça de Orientação. “Contudo, isto deu a possibilidade a Matthias Merz, também ele campeão do mundo, de ter direito a uns breves momentos de atenção. Não podíamos desejar melhor embaixatriz”.


Elegância

Por três vezes, em 2003, 2005 e 2007, Simone foi eleita desportista suiça do ano, o que contribuiu enormemente para a sua notoriedade. Foi descoberta na televisão, nessas cerimónias de gala, vestido elegante numa silhueta perfeita. Ao seu lado, tinha um tal Roger Federer. “Não sou ninguém, comparada com um fenómeno como ele”, diz. Relativiza também o facto de ser alvo das atenções. “Procuro, simplesmente, apresentar-me de forma correcta, não quero desempenhar nenhum tipo de papel. Os resultados desportivos são o meu único motivo de interesse.”


Mais do que em qualquer outro desporto, “cabeça e pernas” é uma fórmula que se aplica perfeitamente à corrida de orientação. É isto que fascina Simone. “Não corremos, apenas. Somos obrigados a pensar. Estamos sempre em contacto com a natureza, descobrimos novas florestas a cada prova em que participamos, nunca nos aborrecemos”, conta. “Ela sabe gerir o esforço para se manter lúcida e sintetizar perfeitamente as informações”, revela Baptiste Rollier, colega de Simone na selecção nacional suiça. Em prova, as partidas são dadas individualmente, a cada três minutos: nenhum concorrente deve poder seguir atrás de outro. O mapa com a indicação dos pontos de passagem é distribuído apenas no momento da partida. A surpresa é total. « É necessário analisá-lo sem parar, é um pouco como ler o jornal em corrida por uma floresta. E depois há inúmeros parâmetros. Não podemos, por exemplo, ligar simplesmente um ponto a outro: o relevo lê-se graças às curvas de nível marcadas no mapa. Em caso de erro, arriscamo-nos a ficar próximo duma ravina ou face a uma falésia. Simone, para além de todas as suas capacidades físicas, faz isto a uma velocidade incrível”, conclui Rollier.

Promoção súbita ao estrelato

Simone Niggli-Luder tornou-se verdadeiramente uma estrela em 2003. Ela tinha “açambarcado” – caso único – quatro títulos mundiais em Rapperswil (Suiça). “De repente, toda a gente reparou em mim”, recorda. Acções publicitárias celebrando os seus recentes feitos e os de Matthias Merz, em Kiev, fizeram-na aparecer com frequência em jornais e revistas.

“Poder utilizar a imagem de Simone Niggli, constitui a nossa principal motivação”, explica Alex Josty, porta-voz da “Post Finance”, um dos patrocinadores da selecção suiça. “Porém, a nossa campanha S-Cool visa igualmente promover este desporto junto das Escolas. Sob a condução de membros da selecção nacional, como Simone, as crianças participam em pequenos concursos: a corrida de orientação pode ser muito lúdica.”

Os bebés para depois

Nascida em Berthoud, próximo de Berna, Simone Niggli-Luder descobriu esta modalidade pela mão dos pais. “Eram apaixonados. Partíamos em família para a floresta, com as minhas duas irmãs mais velhas. Adorei de imediato. Fiz a minha primeira prova ‘a sério’ quando tinha dez anos.” Licenciada em Biologia, é casada há três anos com Matthias Niggli, que conheceu quando ele era… o treinador nacional suíço. Hoje, habitam em Munsingen, mas possuem igualmente um pequeno “território” na Suécia. Os países nórdicos constituem o paraíso da corrida de orientação.

“As florestas são maravilhosas, adoro treinar aí”. Simone Niggli-Luder, profissional de orientação na actualidade, espera prolongar a competição ainda por mais dois ou três anos. Depois, promete, terá bebés.


(Tradução do artigo “Simone Niggli-Luder, l’orientation version glamour”, de Bertrand Monnard, publicado em 01.09.2007 no “Le Matin Dimanche”)

JOAQUIM MARGARIDO