quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

TEMA DO MÊS: DESPORTO ESCOLAR


ORIENTAÇÃO - DO ESCOLAR AO FEDERADO

Contributos Para o Blog ORIENTOVAR


Tal como acontece na “sociedade civil” em Portugal, também no contexto do Desporto Escolar a Orientação é uma modalidade recente. Data de 1997 a primeira actividade de âmbito nacional do Desporto Escolar, então designada Campeonato Nacional de Orientação, disputada em Março no mapa de Almoster – Santarém.

Nesse mesmo ano lectivo de 1996/97, algumas das estruturas locais do sistema do Desporto Escolar - então designadas CAE’s - organizaram igualmente provas de Orientação, que tiveram como um dos objectivos definir o apuramento para o Campeonato Nacional. No CAE da Península de Setúbal, o ano lectivo de 1997/98 marca o surgimento do 1º Circuito de Orientação com a participação de diversas equipas escolares num conjunto de provas pontuáveis para um ranking.

“Forte dependência do tecido associativo”

No entanto, estes dados que representam marcos na história da modalidade em contexto escolar, não significam que não houvesse já algum trabalho realizado pelas escolas antes disto. A título de mero exemplo, a modalidade foi introduzida na ES de Palmela em 1993 numa época em que, não existindo ainda no âmbito do Desporto Escolar, surgiu integrada num projecto denominado Grupo de Orientação e Escalada no âmbito do então Projecto Viva-a-Escola.

Voltando ao período em que a modalidade começa a surgir no Desporto Escolar, diga-se que à época, e por a Orientação se encontrar ainda pouco enraizada no âmbito escolar, havia uma forte dependência do tecido associativo para a concretização das actividades escolares. É exemplo disto a primeira prova de Orientação do então CAE da Península de Setúbal, levada a cabo em Março de 1997 no mapa de S. Paulo e organizada pelo CIMO.


De resto, num bom exemplo de aposta de um clube no desenvolvimento da realidade escolar, a actuação do CIMO não se confinou a esta organização tendo sido decisiva a outros níveis no desenvolvimento da modalidade no concelho de Palmela. A sua equipa de cartógrafos produziu diversos mapas na região - ainda hoje utilizados pelas escolas - e já em Dezembro de 1994 o clube tinha organizado uma acção de formação numa das escolas de Palmela. Nesta acção participaram alguns professores que, de imediato, deram início a alguma actividade nas respectivas escolas e na sequência desse trabalho embrionário haveriam, anos mais tarde, de ser responsáveis pelo surgimento de alguns dos melhores valores da actualidade.

“Um caminho em crescendo”

De 1997 para cá a modalidade não mais parou de crescer no âmbito escolar acompanhando, de resto, a mesma tendência do contexto federado. Passando por diversas fases e momentos de vitalidade, também condicionadas por sucessivas alterações do modelo estrutural do Desporto Escolar e pelas concepções – por vezes diferentes – dos sucessivos responsáveis pelo Desporto Escolar a nível central, a modalidade percorreu um caminho em crescendo, aos níveis qualitativo e quantitativo, que a traz aos nossos dias tal como a conhecemos.

Actualmente a Orientação é uma das 30 modalidades que compõem o quadro das principais modalidades do Desporto Escolar, sendo uma das 14 que integram o grupo de modalidades com Quadro Competitivo Nacional, por oposição às que se encontram no grupo de modalidades sem quadro competitivo nacional. Significa isto que a Orientação tem um professor nomeado no cargo de Coordenador Nacional de Modalidade e prevê um quadro competitivo estruturado em 3 fases com apuramentos sucessivos de umas para as outras: fase local (corresponde normalmente a uma parte de distrito), fase regional (existem 5 regiões – Direcções Regionais de Educação) e fase Nacional. Esta última é o Campeonato Nacional, destina-se aos escalões de Iniciados e Juvenis e atribui títulos de campeão nacional individuais e colectivos em cada escalão/sexo.

“A modalidade em que o nosso país tem obtido mais e melhores resultados desportivos”

Para além disto a Orientação é uma das modalidades com as quais Portugal participa regularmente nos Campeonatos do Mundo escolares sob a égide da ISF – International School Sports Federation, tendo inclusivamente organizado o evento de 2002. De notar que é talvez a modalidade em que o nosso país tem obtido mais e melhores resultados desportivos, tendo alcançado resultados de relevo a título individual e colectivo regularmente desde 2002. Os pontos mais altos foram o título de campeã mundial individual de iniciados para atletas integrados em equipas de escola alcançado por Vera Alvarez o ano passado, e o título de vice-campeão mundial alcançado pela equipa de juvenis da Escola Secundária de Pinhal Novo em 2006, equipa de excelência onde pontificavam nomes como Tiago Romão, Jorge Fortunato, Fábio Pereira, Mário Silva e André Pedralva.


Na base de dados de 2008/2009 do Desporto Escolar, estão registadas 47 escolas com grupo/equipa de Orientação. Para além destas, existem ainda escolas inscritas na base de dados com grupo/equipa de Multiactividades de Ar Livre, mas que se dedicam também à prática regular da modalidade conforme permitido e previsto no respectivo Regulamento Específico. Não sendo possível ter dados objectivos quanto a estas últimas, poder-se-á contudo estimar um número global a rondar as 60 escolas e mais de um milhar de alunos em actividade. Hoje em dia a representatividade geográfica da modalidade é abrangente, verificando-se a existência de escolas com actividade no Desporto Escolar em todas as DREs. É contudo no Norte e na região de Lisboa e Vale do Tejo que se concentra a esmagadora maioria dos grupos/equipa.

“Cerca de um terço eram federados”

Atendendo a que um grupo/equipa é a unidade funcional do Desporto Escolar em cada escola e que no caso da Orientação pode integrar alunos de ambos os sexos e diferentes escalões, aquelas 60 escolas podem significar um número bastante superior de equipas, sendo estas formadas por 5 alunos do mesmo escalão/sexo. A título de exemplo ilustrativo desta realidade, note-se que na primeira prova de apuramento de equipas para o Campeonato do Mundo 2009, disputada em simultâneo com o Troféu COA, estiveram presentes 14 escolas num total de 31 equipas.

Entre os alunos que integram os diversos grupos/equipa por todo o país, há um número indeterminado que se movimenta simultaneamente nos contextos escolar e federado, uma vez que os actuais regulamentos e ao contrário do que já se verificou, admitem essa possibilidade. Novamente utilizando como exemplo para esta realidade a prova de Coruche, verifica-se que dos 155 alunos inscritos para disputa do apuramento em representação das respectivas escolas, cerca de um terço eram federados e competiram também em representação do seu clube na Taça de Portugal. Das 14 escolas presentes, apenas 3 não tinham qualquer aluno federado.

“Da escola para o clube ou do clube para a escola”

Significa isto que já se verifica alguma articulação local entre clubes e escolas a este nível, constatando-se no entanto duas realidades distintas quanto ao sentido do fluxo destes alunos: da escola para o clube ou do clube para a escola. A situação mais habitual neste contexto de dupla participação no escolar e no federado, eventualmente de forma diferente do que se verifica em muitas outras modalidades, é os atletas terem os primeiros contactos com a modalidade e a sua formação base no contexto escolar, transitando depois os mais aptos e/ou motivados para os clubes.


A Orientação será, certamente, uma daquelas modalidades entre o espectro nacional em que é mais evidente dos pontos de vista quantitativo e qualitativo, a existência de valores seguros no panorama associativo provenientes do Desporto Escolar. Apenas para citar alguns nomes da região de Lisboa e Vale do Tejo, o leque de atletas que recentemente ocuparam posições de destaque nos rankings e pódios nacionais e que iniciaram a sua actividade no Desporto Escolar, inclui nomes como Raquel Costa, Patrícia Casalinho, Nélson Graça, Alexandre Alvarez, Miguel Silva, Mariana Moreira, Vera Alvarez, Solange Furtado, Gonçalo Cruz, Miguel Mouco, Paulo Pereira, Ana Filipa Silva, Catarina Eloy, Raquel Cardoso, Tiago Romão, Jorge Fortunato, Fábio Pereira, André Pedralva, Mário Silva…

“Uma dialéctica de que claramente beneficiam escola e clube”

Significa isto que casos tem havido de bom aproveitamento por parte de alguns clubes das dinâmicas do Desporto Escolar, dando-lhes seguimento e potenciando-as, criando-se assim uma dialéctica de que claramente beneficiam escola e clube mas, essencialmente, beneficiam os jovens atletas e o desporto nacional. Há alguns bons exemplos desta afirmação, sendo eventualmente o melhor exemplo o da recente relação entre as Lebres do Sado e as escolas secundárias de Palmela e Pinhal Novo, concretizada num ambicioso projecto infelizmente extinto mas que, enquanto perdurou, “produziu” um enorme conjunto de bons valores que continuam, em muitos casos, a correr nas nossas florestas em representação de diversos clubes.

Estas evidências, se outros motivos não houvessem, colocam em plano de destaque a necessidade de articulação entre ambos os subsistemas – escolar e federado, com vista ao desenvolvimento de sinergias de que ambos possam colher benefícios. Esta relação deve ser formalizada e estimulada a partir dos respectivos serviços centrais – FPO e DGIDC – embora apenas se possa efectivamente concretizar na prática ao nível local quando clubes e escolas levarem à prática esta intenção.

“Relação de estreita e franca colaboração”

É possível afirmar-se sem receio de errar que hoje, mais do que alguma vez no passado, Federação Portuguesa de Orientação e Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular, partilham a mesma postura e prática perante esta situação. Desde há dois mandatos atrás que a direcção da FPO aponta inequivocamente para o Desporto Escolar e para uma relação de estreita e franca colaboração entre estes subsistemas, como um vector essencial para o desenvolvimento sustentado da modalidade no presente e no futuro. Fruto desta posição, têm vindo a ser levadas a cabo uma vasta série de iniciativas e acções no sentido de promover uma efectiva divulgação da modalidade em contexto escolar e estimular a formação de professores e a prática de alunos.

Durante alguns anos, num esforço absolutamente infrutífero, procurou a direcção da FPO que esta acção fosse objecto de protocolo formal entre as duas instituições. Contudo, sem alguma vez negar a importância deste protocolo, nunca o Desporto Escolar conseguiu desbloquear as situações internas necessárias à sua assinatura, o que não impediu que a FPO levasse ainda assim à prática todas as suas iniciativas.
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Felizmente, desde há cerca de um ano que este cenário se alterou profundamente e que o Desporto Escolar não só afirmou categoricamente a relação com as federações como um importante factor de desenvolvimento, como passou rapidamente à revisão e assinatura do protocolo com a FPO. De resto, fazendo alguma justiça ao historial das diligências da FPO no sentido de concretizar a assinatura de um protocolo com o Desporto Escolar, foi precisamente a nossa federação a primeira com quem a DGIDC assinou um protocolo.

“Promover a aproximação às escolas”


Significa isto que, a nível central, a articulação é um facto e existe. Mas como se disse alguns parágrafos atrás, esta articulação a nível central será absolutamente estéril se não tiver correspondência efectiva a nível local, contexto onde tudo acontece… ou não!

Partindo do princípio verdadeiro e compreensível de que, para o Desporto Escolar, é irrelevante a modalidade levada a cabo nas diversas escolas desde que os alunos tenham oferta de prática desportiva, deverão ser os clubes de Orientação, no seu interesse e no da própria modalidade, a promover a aproximação às escolas. Sem prejuízo de que o mesmo se verifique também no sentido inverso - como tem acontecido por exemplo com as escolas secundárias de Palmela e Pinhal Novo no sentido de irem “colocando” os seus novos atletas da “era pós-Lebres” - devem os nossos clubes estar suficientemente sensibilizados para esta necessidade e organizar-se nesse sentido. Isto passa pela criação de uma estrutura que permita uma relação regular com as escolas da sua área de influência, particularmente com aquelas que se dedicam à prática da modalidade ou apresentam potencial para tal, como sejam a localização ou a presença no seu quadro de professores ligados à modalidade.

Existem contudo alguns erros que é necessário evitar neste processo, sendo os mais evidentes uma atitude de distinção hermética entre a escola e o clube quando os "clientes" são os mesmos e a pretensão de limitar esta relação ao mero acolhimento apenas daqueles alunos que demonstram mais aptidões e capacidades. Para o estabelecimento de uma relação com vista a um desenvolvimento sustentado, é importante não deixar a intervenção ao sabor de critérios casuísticos e não assentes numa estratégia definida e pensada. Com critérios casuísticos, mais não se conseguirá do que resultados também eles casuísticos.

Ricardo Chumbinho

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3 comentários:

Manuel Delgado disse...

Belo texto. Por ele felicito o Ricardo.

Julgo que a simples existência deste texto se deve à existência deste espaço. Parabéns Margarido.

Gostei muito de ler a parte histórica da mensagem, de perceber que a modalidade vem em crescendo no seio do Desporto Escolar e também de perceber alguns dos pontos de vista do Ricardo no que respeita ao Desporto Escolar. Dessa realidade, para além de saber que tem enfrentado alguns problemas e diversas mudanças, talvez nem sempre no melhor dos sentidos, não sabia nada. Agora sei um pouco mais, mas mesmo assim, não o suficiente para ir além de desejar e esperar que as ligações, que me parece ser saudável existirem, entre a orientação federada e o Desporto Escolar evoluam da melhor forma.

À extensa lista de promissores atletas e atletas com provas dadas que deram os primeiros passos na orientação por via do Desporto Escolar, que consta do texto do Ricardo, gostaria de acrescentar o nome da Maria Sá. A Maria que não só deu os primeiros passos como soube da existência da orientação através do Desporto Escolar, nesta época ainda não participou ainda em nenhuma prova da Taça de Portugal, mas continua a levar a orientação, como tudo na vida, incluindo os estudos, muito a sério. Uma vista de olhos no blog dela (http://my.opera.com/Joa-o/blog/) permitirá constatar que o "Erasmus" na Polónia não a desviou da orientação. Daqui vai um abraço para ela!

Estou certo de que este belo texto do Ricardo Chumbinho merecerá reacções construtivas de pessoas que, ao contrário de mim, conhecem e estão ligadas ao Desporto Escolar. Tratar-se-á provavelmente e quase em exclusivo de professores de Educação Física, embora eu gostasse muito de ver professores das outras disciplinas activamente envolvidos no Desporto Escolar. Não sei se isso não acontece porque o sistema não o permite ou o dificulta. Se for assim, talvez o sistema deva ser mudado...

Cardoso disse...

Óptima resenha histórica e excelente texto, que espero, seja lido por muitos dos nossos dirigentes desportivos.

Luís Cardoso

Fernando André disse...

Tema oportuno há muito esperado, parabéns Ricardo.
A colaboração estreita entre os dois sistemas é de importância vital para o desenvolvimento desportivo nacional com sustentabilidade e um futuro risonho a todos os níveis, tomando como exemplo alguns casos já referidos neste blog.
Há que operacionalizar o processo nas bases, entre as escolas e os clube das respectivas localidades e dar vida ao protocolo estabelecido entre as instâncias de topo.
Este processo de base já existe entre o TST e a Escola EB 2, 3 S. Rosendo - Santo Tirso, desde 1993, em que se aproveitam mutuamente as potencialidades das duas instituições.
A existência de um professor na escola que seja responsável pela organização de um Grupo/Equipa de Orientação é fundamental para que se realize, na prática, o protocolo existente. O professor pode ser de Educação Física ou de qualquer outra disciplina desde que tenha formação específica na modalidade.
Também é importante existir uma ligação forte com as autarquias locais para que se possa dar alguma sutentabilidade ao protocolo, no sentido de apoios a nível de alguns financiamentos, transportes, etc. Desde 2004 existe um projecto desenvolvido em parceria entre o TST e Câmara Municipal de Santo Tirso "Mexa-se comVida". Também existe um outro protocolo com a Junta de Freguesia Santo Tirso para apoio ao desenvolvimento de actividades para os jovens.
Penso que o mais complicado será esta dinamização das bases, mas se apostarmos na formação de professores conjugado com a existência de clube na próximidade da escola temos "meio caminho andado".
Parabéns ao Joaquim Margarido por mais uma vez estar na frente na divulgação da modalidade.
Oriabraço e Boas Festas
André