terça-feira, 16 de dezembro de 2008

ESPAÇO CARTOGRAFIA: O MAPA DE IDANHA-A-NOVA OESTE


Um mapa é uma obra de arte e o cartógrafo é o seu artista. As mais das vezes incompreendido ou mal-amado, a ele é devido o respeito e a admiração que votamos aos criadores. É neste pressuposto que o Orientovar se orgulha de inaugurar um novo espaço exclusivamente dedicado à Cartografia. Periodicamente, aqui traremos assuntos relacionados com o fascínio do mundo dos mapas. Para começar, nada melhor do que uma análise apaixonante ao controverso mapa de Idanha-a-Nova Oeste. Que os comentários se possam pautar pela ponderação e responsabilidade de quem sente que tem algo a acrescentar ao debate, é o nosso maior desejo.


OS PRÓS…

Alexandre Reis
Cartógrafo e Traçador de Percursos


Estou interessado em "explicar" este mapa, até porque nestas alturas todos falamos sobre o que sabemos, o que julgamos que sabemos e até sobre o que ouvimos dizer que alguém disse. Efectivamente este mapa criou alguma discussão, quanto à suposta "corrente" do cartógrafo, mas a minha abordagem ao assunto não vai para a definição do meu estereótipo mas sim para um conjunto de circunstâncias que levaram ao produto final.

- O ISOM é claro e tem todas as medidas padrão definidas (ex.: pedra - 1m de tamanho mínimo);

- Na escala 1:10 000, o mapa tem de ser legível á escala definida para o tipo de competição. Essa definição é estabelecida pela IOF e não pelo cartógrafo que, quando faz um trabalho com demasiada informação, tornando-o de difícil leitura, recorre a uma escala mais ampliada.

- Particularidades da área cartografada, com grande densidade de pedra e com uma vegetação muito particular.

Na abordagem a este mapa, é exactamente neste ultimo ponto (vegetação) que se centra a discussão. Existe em 50% da área uma vegetação composta quase na sua totalidade por giesta, que perturba a progressão mas não a impede. É, também, uma área de pasto por onde se "passeiam" diariamente umas cinquenta cabeças de gado.

Aquando da execução do mapa, deparamo-nos com esta dicotomia: vegetação densa e uma enormidade de passagens, criadas diária e aleatoriamente pelo gado. Foi decisão nossa, apostarmos numa trama (V4 ou V5) para caracterizá-la. Quando fizemos as últimas passagens pelo terreno pareceu-nos a decisão ajustada, e não questionada pelo Supervisor. Na progressão em corrida era fácil a decisão de passar por aqui ou por ali, não reduzindo a velocidade de progressão.

Contudo, no dia da prova, surgiu um dado novo e completamente inesperado: o nevoeiro. Ora aquilo que parecia fácil (progredir pelas giestas), tornou-se mais difícil porque o raio de visão era muito reduzido não permitindo uma leitura geral da área, mas sim do pormenor. É aqui que está o cerne da questão: O atleta passa a ler metro a metro, dando importância a pormenores que por norma e por regra do ISOM são de ignorar, mas que naquele contexto parecem primordiais. Estou convicto que os mesmos atletas, no mesmo percurso e com bom tempo, fariam tempos muito melhores. De qualquer forma não podemos esquecer que também houve tempos de excelência naquelas condições!!!

Quero salientar, por último, que só num décimo do mapa (área envolvente aos 1º e 2º pontos) é que se verificava com maior intensidade este quadro. Todo o restante trabalho, assim como o mapa de domingo, não foram visados, considerando dessa forma (e conhecendo os nossos "atletas"), como sendo um tremendo elogio.


… E OS CONTRAS!

Pedro Pasión Rodriguez
Seleccionador Nacional de Espanha de Orientação Pedestre


Quero, em primeiro lugar, destacar a eleição desta zona para uma prova de Distância Média, num terreno com uma complexidade técnica muito elevada pela sua riqueza de detalhes rochosos, desnível variado e também muitas cambiantes de vegetação. Em minha opinião - salvaguardando o nevoeiro que afectou a percepção do terreno, reduzindo a visibilidade do atleta e aumentando a possibilidade de se cometerem erros -, queria destacar os comentários mais comuns que escutei dos meus corredores e com os quais estou de acordo:

- Critério de legibilidade do mapa: O mapa apresentava um critério de representação detalhada, mas que em zonas muito complexas (rochosas) e de difícil representação se tornava ilegível do ponto de vista do corredor. Julgo que o critério deveria ter sido mais simplificado, obviando os elementos rochosos pequenos e apostando numa representação fiel do terreno nas zonas por onde se podia deslocar o orientista (trilhos pequenos, zonas brancas, áreas abertas, etc.).

- Vegetação e caminhos: A vegetação foi uma das chaves da prova, já que era determinante obviá-la e penetrá-la nalguns momentos da corrida. Penso que o critério não era uniforme em todo o mapa, uma vez que o verde raiado 407 nalgumas zonas era muito mais impenetrável que o correspondente ao símbolo, pelo que alguns corredores acabaram por ser “travados”, vindo ao de cima o factor sorte. Talvez pudesse ter sido representado com o 409 nessas zonas mais densas. No que toca aos caminhos, dizer que alguns (nas zonas de vegetação densa) estavam exagerados no mapa com o símbolo 507 ou 506 e no terreno se revelaram de progressão difícil, pelo que sugeriria que tivessem sido nalguns casos o 508 ou 509.

- Zonas pedregosas e afloramentos: Alguns afloramentos rochosos 212 dificultavam a corrida visto não de tratarem de áreas rochosas uniformes mas sim zonas pedregosas muito densas, tornando mais lenta a progressão. A minha opção iria antes para uma representação de terreno rochoso 210. Por outro lado, nalgumas zonas de vegetação densa, havia terreno rochoso 210 que não estava representado. Estas circunstâncias faziam com que o atleta se visse confrontado com situações de incerteza, sendo obrigado a reduzir a sua velocidade de corrida.

- Factor terreno próximo à povoação: Este creio que é um factor acrescido de dificuldade de representação num mapa, uma vez que os animais (vacas, ovelhas, etc.) e as próprias pessoas fazem com que as zonas de vegetação sejam especialmente alteráveis, se modifiquem com facilidade e que não estejamos perante uma vegetação puramente “natural” ou uniforme como ocorre em zonas de floresta distantes das povoações.

Gostaria de salientar que, embora existam normas ISOM para os nossos mapas e que devem ser respeitadas, cada cartógrafo tem uma maneira própria de interpretá-las, marcando um estilo pessoal. Esta circunstância deve ser levada em conta em provas de qualidade como este último Campeonato Ibérico, pelo que se impunha uma informação mais completa sobre o terreno e o mapa, detalhando-a no que concerne ao tipo de superfície do terreno, vegetação, relevo, detalhes particulares de interesse, etc. Desta forma, o corredor pode adaptar-se mais facilmente ao mapa e aos seus critérios, ganhando as circunstâncias da prova em objectividade . Outra ideia que proporia é que, num terreno tão especial como o de Idanha, se poderia fazer um pequeno “model event” relevante no que respeita ao terreno de competição.

Por último, gostaria de sublinhar que estes comentários resultam da minha própria experiência no terreno em tão-somente quarenta minutos de corrida, pelo que não deixam de constituir apenas uma impressão geral. Quero ainda agradecer a oportunidade de colaborar neste debate, esperando que os meus comentários sejam entendidos dum ponto de vista construtivo e possam contribuir para uma melhoria de nosso querido desporto.

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2 comentários:

Almeida disse...

Que grande novo espaço. Acho importantíssimo se fazer esta discussão, e por aqui nos comentários as respectivas opiniões.

Eu sinceramente, senti-me diversas vezes confuso com a vegetação do mapa mas ainda me falta uns aninhos para comentar estas coisas.

Rafael da Silva Miguel disse...

Boa iniciativa!

Eu senti um pouco de dificuldade em perceber o mapa, principalmente os verdes e alguns carreiros que nãio os consegui ver. Esta dificuldade deveu-se, de certo, ao novoeiro mas penso que no mapa estava mesmo confuso.
Isto principalmente na zona inicial, depois penso que já era um pouco mais facil a compreensão do mapa.

Rafael Miguel