sábado, 20 de dezembro de 2008

(DES) ORIENTAÇÃO


A SINALÉTICA

A Orientação é uma modalidade com muitos encantos e capaz de proporcionar diferentes emoções em diferentes pessoas. Mas uma característica está sempre presente: não há duas provas iguais. Tal ainda é mais notório quando temos a oportunidade de nosdeslocarmos a outro país para praticar Orientação. Vamos andar em florestas diferentes, mapas realizados por outros cartógrafos com outras formas de trabalho, os percursos seguem ideias diferentes, os 'adversários' vão ser outros, enfim, é como se fosse um novo começo. E existem ainda todos os aspectos organizativos, e de certa formaparalelos ao evento em si, que também são diferentes. Nestes casos torna-se ainda mais importante estudar bem todas as informações que a organização disponibiliza, para que não sejamos apanhados de surpresa quando chegar a altura da prova…
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Foi com este espírito que eu, a Susana e mais um casal amigo nos deslocámos à República Checa no verão passado. Fizemos a nossa inscrição via Internet e consultámos todas as informações disponibilizadas no site da prova. Imprimimos tudo o que julgámos necessário e estávamos preparados para nos divertirmos à grande.
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Chegou o primeiro dia de competição e lá nos dirigimos para o local da prova. Foram cerca de 25 km (de carro) até ao estacionamento e mais uns 500 m (a pé) até à Arena. Como a partida era a 1300 m de distância (com 100 m de desnível) e nós éramos logo dos primeiros a partir, não perdemos muito tempo, preparamos o nosso material e dirigimo-nos para a partida. Chegámos lá com o aquecimento já feito e com tempo mais do que suficiente para absorver o ambiente. O local não era muito amplo, por isso era fácil observar todos os outros orientistas que lá estavam também à espera da sua partida.
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Passado algum tempo observámos algo curioso. Todos, ou a esmagadora maioria, trazia o seu porta sinaléticas. A grande diferença é que os outros atletas já traziam a respectiva sinalética lá dentro, mas os nossos estavam vazios. Entretanto chegaram os nossos amigos, que partiam um pouco mais tarde, também para verem o ambiente. Comentámos a situação da sinalética com eles e disseram-nos que era normal. Já oano passado quanto estiveram na Eslovénia a sinalética estava junto das listas de partida na Arena. Aliás, até já tinham a deles. Não nos tinham dito nada pois partiram do princípio (errado…) que já sabíamos. Voltar a trás não era opção, pois já não tínhamos tempo. Pensamos que com certeza haveriam sinaléticas suplementares junto dosmapas para quem se esquecia. Sem medos e vamos a isto!
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Chega a altura de entrar para o funil das partidas e lá vamos nós. Mas sinalética suplementar, nem vê-la. Entrar à fala com quem lá se encontra não é fácil, pois a barreira linguística é grande, por isso nem tentamos. Que grande maçada, vamos ter de andar sempre a desdobrar o mapa para ver o código dos pontos. Chega a altura de partir, pegamos no mapa e… é o horror. Não existe sinalética no mapa! Vejam bem a situação: É a primeira etapa da prova, uma prova completamente desconhecida, num país diferente, com pessoas com quem não é fácil comunicar, temos o mapa na mão com o percurso mas não sabemos o elemento onde estão colocados os pontos de controlo nem o respectivo código, e o relógio já está a contar!
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As pernas ainda tremem um pouco mas temos mesmo de continuar. Na cabeça passam uma grande quantidade de pensamentos sobre a situação, mas não há nada a fazer. É olhar para o mapa e navegar. Sobe-se o caminho, sai-se do caminho no limite de vegetação, ultrapassa-se o ponto mais alto e começa-se a descer em direcção ao bosque, já dentro do bosque procura-se a colina e no outro lado dessa colina tem umapequena depressão onde deverá estar o ponto. Chegando lá vejo a baliza. É bom, mas será a certa? Só me resta picar. Na saída temos de ter tanto cuidado como no ataque ao ponto. Verifica-se tudo para ter a certeza de que era mesmo aquele ponto. Neste caso bateu certo. E assim continuei sem grandes hesitações até ao número 8. Aqui chegado, tenho a sensação que o ponto deveria estar mais abaixo e um pouco mais longe, mas avisto um ponto. Aproximo-me e ele está num fosso como está desenhado no mapa. Olho para o mapa e para a área circundante e faz algum sentido. Coloco a bússola e a orientação dos elementos é a correcta. Um pouco a medo mas pico o ponto. A saída é feita a andar e a olhar com muita atenção para a bússola. Tudo bate certo. Continuomas falho o ponto seguinte, onde eu pensava que ele deveria estar não há nada. Olho para o mapa e vejo que realmente estou muito em baixo no esporão, subo o esporão e vem um atleta desalmado a perguntar pelo 145 (em Inglês). Avisto o ponto na base da falésia e rindo-me aponto na direcção da baliza. Sei lá eu se é o 145, o 123 ou mesmo o 749! Ainda me vem a ideia de confirmar com ele se realmente é o meu ponto, masnão vale a pena, vamos em frente. Daqui até ao fim fiz normalmente sem grandes erros e sem dúvidas nos pontos.
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Chegou o momento de descarregar o SI. O ritmo cardíaco não baixou muito dos 170 e tal do sprint final (era a descer). Introduzo o chip na estação, ouço o bip bip, sai o respectivo recibo e olho apressadamente para o papel. Claro que é completamente diferente do que estou habituado, está tudo em Checo e não consigo perceber àprimeira onde está o resultado. Felizmente, depois de uma verificação mais cuidada, vejo que não falhei nenhum ponto. Ufa, afinal até tudo tinha corrido bem. A Susana também teve a mesma sorte do que eu e não falhou nenhum ponto. Tudo acabou bem mas não ganhámos para o susto. Afinal as preparações da prova não tinham sido feitas como deve de ser. Ficou mais uma vez provado que a preparação da prova é muito importante.
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É engraçado que, mesmo assim, a Susana acabou por ter o seu melhor resultado neste primeiro dia. No meu caso foi o segundo melhor dia dos seis dias da prova. Será que afinal a falta de sinalética até nos ajudou? Uma coisa é certa, a concentração teve de ser superior… Só uma última curiosidade. Ainda bem que não foi no mapa do segundo dia. Sendo o mapa mais difícil que tivemos, com certeza que o resultado não tinha sido o mesmo.

Rui Botão
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1 comentário:

Vitor disse...

E porque não organizar-se de vez em quando uma prova sem sinalética para ninguém. Era capaz de ser interessante...aumentariam os "mp" mas com certeza seria uma boa maneira de se evoluir técnicamente.