domingo, 14 de dezembro de 2008

CAMPEONATO IBÉRICO: HOJE FALO EU!


Um velho aproxima-se. Os seus olhos pequeninos e vivos, na face redonda de pele corada e fina, contrastam com as mãos nodosas que seguram firmemente o guarda-chuva. “Quando é que isto começa?”, atira. “Já começou”, respondo-lhe, para logo acrescentar que “andam todos lá pelo monte há mais de uma hora”. E enquanto se afasta, ainda consigo ouvir a sua exclamação, num misto de preocupação e lamento: “Perdidos!?”

Os ponteiros caminham a passos largos para as onze. “Aqui em Idanha é manhã de nevoeiro, tarde de sólheiro”, atira-me a recepcionista do hotel quando me preparo para sair. Pois que fosse! Mas o presente é agora e este nevoeiro agarra-se a tudo, roubando-lhe a cor, minguando-lhe a vida. Nas partidas o clima é de apreensão. “Estou a preparar psicologicamente os meus meninos há mais de uma hora. Estão cheios de medo…”, confessa-me a Professora Maria de Belém. Vale sempre a pena este cuidado e esta atenção para com os mais novos.

Os sinais sonoros repetem-se a cada minuto e os atletas lá vão saindo para a prova de Distância Média, oito a oito, por vezes mais. Desço também ao encontro do desconhecido, torcendo o nariz aos valores de luz que a máquina fotográfica acusa. Cedo percebo que aquela entrada no mapa é tudo menos fácil. Sigo eu próprio ao encontro do primeiro ponto, mas desisto. A progressão revela-se particularmente difícil e o campo de visão, demasiado curto, impede-me de avaliar o que estará ainda à minha frente, se valerá a pena o esforço. Falho o caminho de regresso e embrenho-me num túnel por entre as giestas até desembocar no “vale dos perdidos”. De olhar suspenso num qualquer ponto, cinquenta ou mais almas deambulam por aqui numa imagem sombria que me leva ao encontro de Bosch e das suas “Tentações de Santo Antão”. Qual arcanjo vingador, Carlos Monteiro surge do nada com um grito de fé: “Quanto não vale esta reentrância que é mesmo uma auto-estrada!”

Vou almoçar e reparo com surpresa que, no mesmo restaurante, estão a terminar a refeição os atletas de Portugal e Espanha. Enquanto aguardo, aproveito a saída da selecção portuguesa. Pego na máquina, aceitam posar para mim e faço uma daquelas fotos de conjunto que ficam para a posteridade. Quando regresso, a sopa está na mesa. Penso que, com um bocadinho de sorte, os espanhóis sairão entretanto e farei também o registo deles para a posteridade. Mas a conversa vai animada num dos topos da mesa e ninguém parece preocupado com as horas. Levo mais tempo do que o habitual a deglutir os “lombinhos de vitela” com cogumelos (não por culpa dos cogumelos) enquanto prossegue a amena cavaqueira na mesa ao lado. Sobremesa, café, conta… Saio, mas não eles. Quanto admiro esta calma, esta descontracção que lhes está na massa do sangue.

Do lado de lá do balcão, a recepcionista espreita-me consternada. A chuva veio substituir o nevoeiro e, naquela tarde-noite de sábado, regresso precocemente ao hotel num estado deplorável. Um banho quente, duas chávenas de chá e duas partidas de snooker depois, e lá vou eu a caminho da Incubadora. Excelente ponto de encontro, ali se prolongam as emoções dum dia que já vai longo, se sacia o estômago, se aplaudem vencedores e vencidos. Sobem ao pódio os três primeiros classificados de cada um dos escalões da prova de Sprint. O prémio é um adufe. Que forma mais bonita de se promover toda uma terra, toda uma região.

O céu carregado não prenuncia nada de bom. Às portas de Oledo as tendas com os mais variados artigos à venda dizem-me que é dia de mercado. Esgueiro-me pelas ruas e ruinhas da aldeia até chegar ao outro extremo, ao campo de futebol e à Arena. Na manhã fria, o vento sopra rijo de sul. A chuva não tardará. Enquanto isso, saio para o mapa. É um espaço muito bonito, pontuado de extensas clareiras, pequenos bosques, suaves elevações, aqui um muro, além um afloramento rochoso. Mas algo vem interromper a paz e a tranquilidade destes momentos únicos. Paredes-meias com o mapa, alguém se compraz em matar. É dia de caça e as sucessivas revoadas de tiros levam-me ao primitivismo da humanidade, requintadamente servido pelos avanços tecnológicos. E levam-me a temer pela segurança daqueles que, de mapa na mão, correm o risco de atravessar a ténue linha que separa a bondade da selvajaria.

Já na A25, telefona-me o Fernando Costa. Está preocupadíssimo porque não vai chegar a tempo de deixar no Aeroporto a Masha Semak e o seu treinador. Vários contactos com pessoal do Norte e nem um voluntário para o desenrascar. Paro na Área de Serviço de Mangualde, a Masha e o Valery transferem-se para o meu carro e arrancamos a toda a velocidade. Previno os filhos que não estarei em Ovar antes das oito. Pelo caminho fala-se de tudo e de nada. Valery fala pelos cotovelos. Que é um admirador confesso de Portugal, um adepto ferrenho do Dínamo de Kiev e um apreciador do bom vinho tinto português. Despedimo-nos no Aeroporto e marcamos encontro para finais de Fevereiro, em Mora, por alturas do POM. Não vou poder esquecer-me de levar duas garrafas de Granja-Amareleja DOC Alentejo Tinto Reserva 2001. Quero surpreendê-lo!

Tal como a vida, o Ibérico faz-se de pequenos nadas. Aos já referidos, poderia acrescentar a dura experiência do Manel, que de Idanha só conheceu o solo-duro do Pavilhão e a estreita e desconfortável marquesa do Centro de Saúde; ou da Ana, que afinal até corre se lhe apontarem uma camara; tem de ser é de televisão (!). Quando me preparo para eliminar o logótipo do Ibérico da barra lateral direita do blogue, olho para trás e sinto-me mais enriquecido. Mas o Ibérico ainda não terminou. Seguem-se dois dias de trabalho a compilar todo o material, a condensá-lo num texto, a escolher as mais belas fotos, a fazer tabelas de classificações e a enviar todo o material para a Revista de Atletismo. Só lá para o dia 6 ou 7 de Janeiro, ao folhear a Revista e ao apreciar o fruto do meu trabalho, aí sim, aí terminou o Ibérico. O Ibérico é vida. Que viva o Ibérico!

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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2 comentários:

Ana disse...

Na realidade, a ida para o primeiro ponto não devia ser nada fácil, para a maior parte dos atletas. Para mim, era só saltar um muro para o lado direito do triângulo, que afinal não era difícil, mas, teimosamente, a tendência é ir em frente, quando se sai do referido triângulo “Quando a gente anda sempre em frente, não pode mesmo ir longe...” De qualquer maneira teve outros aspectos positivos…
“Nada é perfeito”. Os caçadores estragam tudo e até podem matar alguma “raposa”, o que é pena, se ao menos matassem as “serpentes” que podem estar atrás dos muros, tudo seria melhor!
E as cores de Outono, que davam uma tonalidade especial à paisagem…
Quanto aos senhores da televisão, deviam estar equivocados, e não perceberam que o importante ali era o “Campeonato Ibérico”, ou então gostam mesmo do amarelo…vai-se lá saber porquê?!
O que valeu foi o “Pôr do Sol” que, com muita sorte, ainda podemos ver um por dia…

Ana

PS: As fotografias estão óptimas, mesmo as do nevoeiro, talvez por causa do contraste!
Não confundir corridinha com corrida!

Paulo Franco disse...

Que deleite! Muito bom...

Obrigado!

Paulo Franco