sábado, 29 de Novembro de 2008

(DES) ORIENTAÇÃO


ORIENTAÇÃO: O VERDADEIRO CORTA-MATO

Ever tried?
Ever failed?
No matter
Try again
Fail better
........ S. Beckett


O céu estava cinzento-escuro, carregado de nuvens que tinham estacionado naquela zona, talvez a deliciarem-se com a vista. Sempre tinha sido um bom bocado a subir até chegar à Pedra Bela. Mas não havia tempo para a panorâmica, toca a despachar que já estava com dez minutos de prova e ainda não tinha partido. É incrível como até para chegar às provas um gajo se desorienta: desta vez o GPS mandava virar à esquerda quando a organização aconselhava a direita (ao que parece para facilitar o estacionamento). Pé fora do carro, chuvisco na tola, vamos lá a equipar, deixar os gafurinos no Baby-sitting, procurar a carrinha do clube por causa do chip e só depois fazer o aquecimento até à partida.

Tantas pedras, e algumas bem altas, para quem navega habitualmente em areias e dunas suaves do Pinhal, obrigava a uma maior concentração e esforço na compreensão do mapa: qualquer pequeno erro ou precipitação (além da chuva) paga um preço “físico” muito elevado. Mas lá se vai progredindo, contra o declive e a vegetação, contra o frio e o cansaço, contra o tempo e o outro tempo - o mau: o da chuva e do granizo (daquelas dificuldades que não aparecem no mapa). E então naquela altura em que nos aproximamos do final do percurso, que está quase a acabar o suplício, começamos a descontrair e a pensar que realmente custou um bocado mas está feito.

Faltam dois pontos: vejo a direcção que devo tomar para o ponto 17 e continuo até uma elevação donde vislumbro lá em baixo o caminho em forma de “U” onde estaria o objectivo. Nem olhei para trás, nem uma pequena dúvida ou desconfiança, vamos lá que até é a descer. A meio da descida toca uma pequena campainha: não deveria ser mais perto, ainda falta tanto?! Chegado à curva pretendida continuam as interrogações: deixa cá ver, o mapa era caminho ou estrada? Está ali outro que não aparece no mapa! Espera aí! Que lago é este? E aí a pancada é muito forte, não acredito! Que grande borrada! (um parênteses para referir que estou a fazer um esforço enorme para escolher outras palavras que não as que me saíram na altura)

Não digo que foi um balde de água fria por motivos óbvios, mas a sensação foi de uma profunda tristeza e angústia: sozinho no meio da mata, cheio de frio, de rastos e ainda ter que voltar atrás, a subir; pois! Não podia ficar ali, não é? É proibido desistir, tinha que descarregar o chip, tinha que ir para casa, os putos estavam à espera cheios de perguntas: Oh pai foste até qual número? Só chegaste agora?

Bem, dificilmente vou esquecer aquela rampa, não só pela dificuldade extrema com hora e tal de prova (água por todos os lados, até chuveiro gelado dos ramos mais baixos), como pelos “flashes” que nos passam pela cabeça num momento desses (as dúvidas, piadas disparatadas, os medos, caras de pessoas que só vimos uma vez, enfim). Então a chegada foi uma avalanche de sentimentos e emoções, um nó bem apertado na garganta: tinha conseguido, apesar de tudo tinha conseguido, tinha vencido. O que é curioso é como, mesmo ali no meio do burburinho e da névoa, eu continuava sozinho como na floresta – sozinho na minha vitória.

Ilídio Coelho
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