domingo, 9 de novembro de 2008

AUGUSTO ALMEIDA: GRANDE ENTREVISTA (III)


Todo este esforço no sentido de dar visibilidade à Orientação tem sido desenvolvido de forma solitária. Como é que se convence a Comunicação Social a olhar também para a modalidade e a prestar-lhe alguma atenção?

É difícil, é mesmo muito difícil. Eu não quero ser injusto com ninguém, mas se há modalidades que podem pagar o avião, o alojamento e a estadia dum jornalista deste ou daquele meio de comunicação – e aí teríamos, concerteza, uma cobertura incomparável -, nós não o podemos fazer. Se não temos dinheiro para levar as nossas selecções completas nem nada que se pareça, não fazia sentido deixar um atleta para levar um jornalista. Mas temos um Magazine televisivo que, apesar do esforço significativo que representa para a Federação e para os próprios clubes, é uma boa fonte de divulgação da modalidade.


Há novos clubes e novos atletas enquanto outros desaparecem. Neste “vai e vem”, o tão esperado “boom” continua por aparecer. Porquê?

É verdade. Se nos lembrarmos que desde 2003, duma forma geral, a nossa Sociedade tem vindo a perder poder de compra, em muitos casos duma maneira perfeitamente dramática, será fácil perceber que, em tempos de contenção, as pessoas tenham de cortar naquilo que (por muito que me custe dizer) é secundário. E esta é, para mim, a razão fundamental da pouca adesão actual aos eventos e à modalidade. Felizmente, no caso dos jovens, esta situação coloca-se com menos acuidade. Os clubes que trabalham com a formação disponibilizam uma série de boas vontades, permitindo enquadrá-los e suportar custos vários. Logo que as condições sócio-económicas das pessoas melhorem, veremos o tal “boom” surgir duma forma quase imediata.

Abre-se agora um novo ciclo e vamos vê-lo ligado ainda à estrutura federativa, mas numa posição muito mais resguardada. Como é que vai ser?

Não vai ser! Por construção pessoal, a partir do dia 9 de Dezembro apenas falarei de Orientação com o futuro Presidente. Se há coisa que deteste na nossa “portugalidade” é a maledicência fácil, o “disse-que-disse”, o “comentou”… Não somos de apurar os assuntos, não somos de nos inteirarmos das realidades, de ir ao encontro das condicionantes ou pressupostos em que as coisas acontecem. Somos mais de “meter a boca no trombone”, berrarmos e depois escondermo-nos. E também não somos de assumir a nossa precipitação e pedirmos desculpas. Por isso não comentarei, não falarei, não direi!

Vai ter mais tempo para os seus pequenos prazeres, para os seus pequenos vícios. Que são?...

A sério que ainda não pensei… Agora vou dedicar, naturalmente, mais algum tempo à minha família, mas vai-me sobrar muito tempo. Sem falsas modéstias, sou um animal duma enorme capacidade de trabalho e vou ter que arranjar entretimentos alternativos para me dedicar. Escrever o Manual talvez me ocupe uma boa parte dos tempos livres neste primeiro ano. Sou incapaz de parar e vou ter de encontrar equilíbrios em mim, talvez nesta imensa área do voluntariado, do apoio à Sociedade, do dar algo de nós.


António Rodrigues é o seu sucessor. O que espera da nova Direcção da Federação Portuguesa de Orientação?

O fundamental é que a modalidade continue a crescer. Novas pessoas farão novas políticas, terão o livre arbítrio – pelo direito que lhes foi conferido – a decidirem e trabalharão com tanto interesse e dedicação como nós trabalhámos, não tenho disso dúvida nenhuma. Devem estar preparados para lidar com a maledicência, eventualmente com alguns insucessos e com muita falta de colaboração. É fundamental a transparência entre todos, as diferenças de opinião e de conceitos devem ser discutidas nos fóruns próprios e penso que as pessoas vão ser capazes de o fazer. Temos uma modalidade adulta – faz 18 anos dentro de um mês – estamos no bom caminho e o futuro da modalidade vai ser, concerteza, sorridente. Remar continuamente e sem desfalecimentos, durante períodos muito longos, é o que espera esta nova Direcção. Mas se navegarem em águas tranquilas, a modalidade navegará certamente. Desejo-lhes as maiores felicidades e os maiores sucessos.

No início, em “off”, disse-me que neste género de entrevista fica sempre muito por dizer. Ficou muito por dizer?

Ficou, concerteza. É impossível dizer tudo. Deixe lá ver, de importante, de importante… Ah, ficou por dizer uma coisa importante! Deixar aqui a minha gratidão a todos aqueles que, duma forma ou doutra, colaboraram com a Federação e com os Clubes no desenvolvimento da modalidade. Hoje o meu ciclo de amigos encontra-se maioritariamente dentro da Orientação, é um privilégio que agradeço à modalidade pela quantidade de amigos verdadeiros que me proporcionou. A todos agradeço a paciência que tiveram para me aturar – e eu não sou nada fácil de aturar! – e o privilégio de conservarem a amizade que nos une. No futuro iremos, seguramente, desfrutar mais dela. A todos quantos, mais anonimamente ou mais visivelmente, colaboraram neste trabalho imenso e que de alguma forma contribuíram para o seu crescimento e desenvolvimento, tenho que dizer, muito sinceramente, obrigado por tudo quanto deram. Sem eles, nada disto teria sido possível.

[fotos retiradas do site da FPO]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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