domingo, 9 de Novembro de 2008

AUGUSTO ALMEIDA: GRANDE ENTREVISTA (II)


Foi na sua vigência que Portugal alcançou os melhores resultados, tanto no aspecto desportivo como no organizativo. Isto tem a ver com a natural evolução da modalidade ou são já as medidas estratégicas atempadamente implementadas a dar frutos?

A nossa modalidade gira na estrita esfera do voluntariado. Efectivamente temos gente muito boa, gente que tudo o que faz, faz na perfeição. Há todo um trabalho sustentado, muito positivo, muito consistente, que faz com que os resultados apareçam. Com a credibilização dos projectos surgem novas boas vontades e os clubes têm-se desenvolvido imenso. Há muita gente na qual eu me revejo pela sua generosidade, pela sua paixão e por todo o empenho que colocam naquilo que fazem. Gente que trabalha para um mesmo objectivo e que o faz de forma rigorosa, excelente, consistente. As boas vontades são fundamentais e têm de continuar a ser apoiadas.

Ao nível da formação, percebe-se que a Orientação pedestre está no bom caminho, mas não há correspondência com o que se verifica ao nível dos seniores, por exemplo. Este “fazer a ponte”, onde é que está a falhar?

Num desporto puramente amador, não é fácil estar ao melhor nível se não houver disponibilidade de tempo para treinar. Exceptuando as forças de segurança e as forças armadas, na generalidade das profissões não há condições para o atleta, de forma sistémica e continuada, treinar todos os dias. A vida não se compadece, as pessoas têm de estabelecer prioridades e acaba por ser muito difícil, depois nos seniores, os bons resultados continuarem a verificar-se. Acredito que vai aparecer, muito em breve, um grande resultado a nível mundial, não na Orientação pedestre mas sim na Ori-BTT.

Porquê esta diferença entre a pedestre e a BTT?

O facto de ser uma disciplina relativamente recente a nível internacional faz com que tivéssemos partido em pé de igualdade com todos os outros, o que é uma vantagem que não se verificou com a Orientação pedestre, onde saímos com 80 anos de atraso. Acresce o facto de termos um potencial tremendo na nossa população, por tradição, por cultura, por gosto de andar de bicicleta. A Ori-BTT tem já, duma forma integrada, um grupo de trabalho com um treinador profissional de ciclismo, precisamente porque vimos ali um potencial tremendo. E se o potencial existe, só há que lhe dar condições, que é o que estamos a tentar fazer.

Parece haver uma falta de estratégia na articulação com o Desporto Escolar. De quem é a responsabilidade? Do Ministério da Educação, da FPO, de ambos?...

Felizmente essa falta de articulação não existe mais e isso é que conta. Mas foi um drama e demorou, demorou, demorou… Em Julho do ano passado assinámos finalmente um protocolo com a Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular e os resultados estão à vista. Fizemos já quatro ou cinco acções de formação para professores, temos o triplo de Escolas a trabalhar com miúdos, as coisas estão a funcionar e a Orientação no Desporto Escolar vai crescer em flecha. Vamos encarar o futuro com optimismo porque o passado não conta. Os erros do passado servem só para aprendermos com eles.

A integração das Corridas de Aventura na FPO foi uma forte aposta sua, apesar da contestação que gerou. Acabou por ser uma boa opção?

Fomos os pioneiros em integrar as Corridas de Aventura na Federação de Orientação, seguidos de imediato pelos espanhóis e numa altura em que os franceses se preparam para o fazer e a própria IOF criou um grupo de discussão tendente à integração das Corridas de Aventura na Federação Internacional. A nossa modalidade é de muito difícil mediatização e pouco apelativa para quem assiste. Ao espectador escapa-lhe o jogo estratégico, as aventuras e as decisões tomadas no interior da floresta. Já as Corridas de Aventura, sendo uma variante colectiva, tem muito “show-off”, permita-se-me a expressão. Se mais não for, constitui um caminho fantástico para a mediatização da modalidade. É fácil montar actividades para a assistência onde exista alguma adrenalina controlada. Se devidamente moldada e bem estruturada, esta é uma disciplina devidamente estabelecida, super-apelativa e que está em crescimento.

As Corridas de Aventura não são a única forma de tornar mediática a modalidade e começam a surgir os “orienteering shows”, por exemplo. Concorda com este tipo de estratégias ou é um “puro e duro” da floresta?

Não, não. Concordo perfeitamente. O Tiago Aires tem um trabalho fantástico ao nível de joguinhos que têm a Orientação por base. Ele é a pessoa que neste momento está mais avançada em Portugal, que trabalhou mais, que pensou mais, honra lhe seja feita. Se ele nos facultar esse trabalho, irei introduzi-lo num Manual que pretendo trazer à luz do dia em 2009 e que irá ser distribuído por todas as escolas. É fundamental ter programas baseados no jogo para tornar a modalidade mais apelativa e dá-la a conhecer a mais e mais pessoas. Todas as alternativas são boas para despertarmos a curiosidade das pessoas e levá-las a experimentar a modalidade.

(continua)

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