domingo, 9 de novembro de 2008

AUGUSTO ALMEIDA: GRANDE ENTREVISTA (I)


Como pessoa, que definição faz de si próprio?

Há coisas que são mais fortes que tudo o resto. Primeiro, é a educação que recebemos no berço e as bases morais que herdámos da família; depois, há todo um conjunto de princípios inerentes ao nosso carácter e à cidadania que acabam por nos moldar. Somos frutos das experiências vividas, aprendemos com as coisas boas e más que a vida tem. Daí que, para mim, a disciplina, a capacidade de trabalho, o carácter e a honestidade sejam valores fundamentais, inquestionáveis. Tenho uma grande dificuldade em aceitar leviandades e falta de bom senso.

Já iremos abordar pormenorizadamente os seis anos em que esteve à frente dos destinos da Federação Portuguesa de Orientação. Durante este período, há algum momento que o marca particularmente, pela negativa ou pela positiva?

O pior momento foi em 2005, quando decidi demitir-me. Este processo iniciou-se em Fevereiro, com as negociações do IDP, e culminou com a demissão em bloco de todos os órgãos sociais da FPO, numa célebre Assembleia-Geral em Elvas, e com um minuto de silêncio. Melhor momento: Tantos... felizmente!

Quando em 2002 aceitou tomar as rédeas da Orientação em Portugal, sabia o que o esperava?

Sobretudo entre 2000 e 2002, por erros de gestão, a Federação Portuguesa de Orientação acumulou dívidas, descredibilizou-se, quase bateu no fundo. Quando aceitei o desafio de restituir credibilidade à FPO, sabia bem o que me esperava. Tive com o presidente anterior uma longa conversa onde foram escalpelizadas todas as situações. Honra lhe seja feita, Higino Esteves abriu-me o coração, nada escondeu acerca do que estaria em causa e quando avancei com a candidatura fi-lo em plena consciência.

Para além de méritos vários, o saneamento financeiro da Federação acaba até por nem ser o maior…

Na minha maneira de ver as coisas, é impensável viver acima da capacidade financeira de qualquer cidadão ou instituição. Daí que a primeira preocupação tivesse a ver com a resolução do problema financeiro. Foi feito! Depois, limpar o nome da Federação perante parceiros estratégicos fundamentais – autarquias, o Exército, o Instituto do Desporto -, para que voltasse a ser vista como uma entidade de bem. Também foi feito! A partir daí, criámos medidas tendentes a apostar nos jovens, quer através de facilidades na sua filiação na Federação, quer no apoio aos Clubes que com eles trabalham. Passámos de algumas dezenas para muitas centenas de jovens e com resultados que, felizmente, já começam a aparecer.

Esta gestão de rigor e contenção trouxe-lhe admiração mas, também, alguma contestação. Considera-se uma pessoa rígida e inflexível?


Nem uma coisa, nem outra. Mas é muito difícil dobrar-me. As minhas crenças não são meramente intuitivas. Têm por trás muitas horas de reflexão, de análise e de confrontação com outras soluções. Durante estes anos todos dediquei, pelo menos, quatro horas diárias à modalidade. São muitos milhares de horas dispendidos de forma voluntária, com o sacrifício e a compreensão da família, em prol duma causa. Claro que se optarmos por uma saída errada e nos demonstrarem que é, de facto, uma saída errada, temos de ser suficientemente flexíveis para corrigirmos a trajectória.

O ano de 2005 marca uma etapa na sua vida e na da própria Federação, com a suspensão do mandato. “Acabou-se a idade da inocência”, disse na altura. O que o levou a recandidatar-se?

Duma forma directa, clara e precisa: o actual Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Laurentino Dias. Quando descobrimos a mentira em que laborávamos face aos apoios do IDP, tentámos chegar ao diálogo com aquela estrutura. Não nos quiseram ouvir, recusaram-se terminantemente a receber-nos e só tivemos uma solução: demitirmo-nos em bloco. O Secretário de Estado Laurentino Dias chamou-nos de imediato, comunicou-nos que iria substituir as estruturas do IDP, pediu-nos que fizéssemos um memorando das nossas dificuldades. Comprometeu-se a resolver as nossas carências mais gritantes e efectivamente, doze meses mais tarde, cumpriu-o.

Neste seu segundo mandato, o Mundial de Veteranos (WMOC’08) passa por ser uma referência incontornável. Agora a frio, que balanço faz do evento?

Foi fantástico, mas nada que não fosse esperado. O desafio de organizarmos o Mundial de Veteranos nasceu precisamente por essas alturas conturbadas de 2005 e partiu de alguns elementos, sobretudo ligados ao COC [Clube de Orientação do Centro – Leiria]. Após a execução dum orçamento de expectativas, pareceu-nos um projecto aceitável e construiu-se a candidatura. Tudo se encaminhava para que fosse a França a organizar o WMOC’08 e foi uma vez mais Laurentino Dias a manifestar, junto da IOF, o empenho do Governo português no apoio a uma organização que nos honrasse a todos. Esse interesse do Governo e o seu compromisso em apoiar o evento, a par da nossa preparação e dum trabalho de casa bem feito, acabaram por ser determinantes. O resultado final é o que se vê mas, pelo meio, fica um trabalho fantástico, quase sobre-humano. E ficam cem mil euros para a Federação, em equipamentos e numerário, o que me permite deixá-la numa situação financeira muito agradável, com um fundo de capital muito interessante e que possibilitará aos futuros Corpos Gerentes o desenvolvimento dum projecto verdadeiramente importante para a modalidade.

Que será?...

Na minha óptica será um projecto direccionado aos atletas que apresentem maiores potencialidades. Mas terá de ser um projecto devidamente estruturado, pensado e plurianual. Só assim fará sentido.

(continua)

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