segunda-feira, 27 de outubro de 2008

"ISTAMBUL 5 DAYS": A ANTEVISÃO DE MANUEL DIAS


Acabado de regressar de Toledo, onde venceu com brilhantismo o seu escalão do II Trofeo “Toledo Imperial” e cimentou a sua posição de líder do “ranking” nacional em H55, Manuel Dias está já de partida para Istambul. Na companhia de Jorge Simões, irá inscrever pela primeira vez o nome de Portugal nesta prova peculiar, competindo ao lado de seis centenas de atletas de 25 países. Antes da partida, Manuel Dias fala-nos de Istambul, duma viagem “molhada” há meia-dúzia de anos atrás, faz-nos a antevisão do que irão ser os “5 Dias de Istambul” e deixa um conselho: “aproveitem para ganhar agora, que eu não espero dar-vos muitas outras oportunidades...”

Istambul, Constantinopla, Bizâncio – três nomes para uma cidade com um passado carregadíssimo de história. Bastará lembrar que a sua tomada pelos turcos otomanos em 1453 (era então a capital do Império Romano do Oriente) marcou, segundo alguns historiadores, o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna na Europa.

Um super-sprint nocturno num dos maiores labirintos do mundo e uma etapa na Ásia são dois dos principais atractivos destes 5 Dias, que afinal... são quatro – de 29 de Outubro a 1 de Novembro -, já que duas das cinco etapas se realizam no mesmo dia.

Competir em dois continentes

A participação na prova turca - onde suponho que o Jorge Simões e eu vamos pela primeira vez inscrever o nome de Portugal - tem da minha parte, devo confessar, o seu “quê” de extravagante. Não vou a Istambul com a expectativa dos belíssimos mapas da Escandinávia, do norte de Itália, da Eslovénia ou dos últimos 6 Dias de França. Vou pelo facto bizarro de se competir em dois continentes e, no meu caso particular, na esperança de ver Istambul sem a chuva que marcou uma viagem turística em 2002.

A minha intenção de fazer a prova nasceu há pouco mais de um ano, quando vi a lista de inscritos para a edição de 2007. Uma excursão da World Wide Orienteering Promotion, de Peo Bengtsson, levou a Istambul nessa altura dezenas de suecos, noruegueses e finlandeses, conferindo ao evento um assinalável estatuto competitivo, reforçado com a presença de bons valores também da Letónia e Estónia. Entre os vencedores figuraram nomes bem nossos conhecidos do POM e do último WMOC, como Matti Railimo, Baiba Ozola e Torid Kvaal.

Na Floresta de Belgrado

Este ano, a concorrência é talvez de menor peso mas, no meu escalão, por exemplo, entre os poucos que conheço, há pelo menos dois nomes que honram qualquer pódio: o finlandês Vesa Turku e o eslovaco Stefan Maj, ambos com bom currículo também em provas portuguesas.

As primeiras 3 etapas decorrem na Floresta de Belgrado, uns 20 km a norte de Istambul. Uma pesquisa a “belgrad forest”, leva-nos ao encontro de belíssimas fotos de bosques. Há um bloguista que costuma ir para lá correr com o cão, usando um caminho de 6 km à volta de um lago. E há “quilos” de referências aos passeios de fim-de-semana para piqueniques e “barbecues”. Mas, olhando para os excertos de mapas de um desdobrável que trouxe já não sei donde, não creio que os rapazes da organização estejam a pensar oferecer-nos propriamente um passeio. O relevo parece no geral bem definido, com reentrâncias profundas nalgumas zonas e, noutras, com manchas de verde intransponível e bastante vegetação rasteira. Fossos, buracos e escarpas podem ajudar ou baralhar a navegação. A informação técnica confirma as dificuldades: há ladeiras com mais de 150 metros, uma profusão de depressões, pequenos regatos, arbustos agressivos e árvores caídas.



O labiríntico Grand Bazaar

A última destas três etapas, na sexta-feira, conta para o WRE e precede a aventura da noite no Grand Bazaar, a cujo mapa não temos depois direito, porque é uma espécie de “segredo de Estado”. Trata-se de um dos maiores mercados cobertos do mundo: 31 hectares, 61 ruas, 10 poços, 4 fontes, 2 mesquitas. Funciona de segunda a sábado, das 9 às 19 horas. As suas 4400 lojas recebem diariamente 250 a 400 mil visitantes e constituem um festival de cor, cheiro e animação, entre pratas, tapetes e especiarias. Um labirinto cheio de vida. O lugar indicado para levar a namorada de quem já não se gosta. “Querida, vai andando… Entro só aqui a comprar um pouco de gengibre e já te apanho.” É claro que nunca mais se encontram naquele dédalo infindável. “Mas eu já aqui passei, ou não?”. E sexta-feira à noite vai ser pior: com os estabelecimentos fechados, então é que as esquinas são todas iguais.

A Organização bem avisa que esta etapa costuma alterar as classificações das três anteriores. Parece que um dos maiores bicos-de-obra são os vários níveis a que prova se desenrola, com passagens superiores e inferiores. Para mim, que não estimo provas urbanas nem nocturnas, imagino que deve ser superdivertido... Conto com o Jorge Simões para salvar a honra da Pátria nessa noite. Eu me encarregarei de salvá-la nos momentos de copos e convívio em que, a julgar pelas fotos da página electrónica, o evento parece ser pródigo também. E nem é preciso que nenhuma odalisca me escolha a dedo para a acompanhar naquele número gago de dança no meio dos espectáculos para turistas, como aconteceu há seis anos, à frente de amigos e conhecidos.

Isto é que é modéstia!

Final do aparte. Voltemos à prova. A última etapa é numa ilha em território asiático, no mar de Mármara. Altas falésias sobre o mar e dois símbolos especiais: círculos pretos e cruzes castanhas. Em Maio na Bélgica as cruzes eram pretas, os círculos eram castanhos e foi uma alegre confusão. Três dos cinco mapas da Turquia são novos e têm a assinatura de Orest Kotylo, o que é sempre um certificado de garantia. O conhecido cartógrafo ucraniano já trabalhou em 16 países e desenhou, por exemplo, os mapas do WMOC 2006, na Áustria.

A minha presença em Istambul implica perder, no próximo fim-de-semana, o II Troféu do Sabugueiro que, antevejo, irá ser um dos pontos altos da Taça FPO Sul. Desejo ao Tiago, à Raquel e a toda a equipa do GafanhOri o maior sucesso nesta realização. E aos meus companheiros do melhor escalão do mundo (VM3) deixo um aviso: aproveitem para ganhar agora, que eu não espero dar-vos muitas outras oportunidades... Isto é que é modéstia!

Manuel Dias

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