quarta-feira, 15 de outubro de 2008

EYOC'08 SOLOTHURN: BRUNO NAZÁRIO PÕE PONTO FINAL NO ASSUNTO


É mesmo o ponto final no 7º Campeonato Europeu de Jovens de Orientação Pedestre. O Seleccionador Nacional Bruno Nazário, no seu quarto ano consecutivo de acompanhamento das jovens selecções ao EYOC, traça um balanço da edição de 2008, menciona forças e fraquezas da Selecção e fala em talento.

Pessoalmente, como é que viveu este EYOC'08?

Foi mais um momento especial na minha carreira como Seleccionador Nacional. Este ano o grupo mudou muito, tínhamos apenas quatro caras que se repetiam de anos anteriores e, sendo assim, este foi o EYOC onde existiu uma maior rotação de atletas. Apesar disso o espírito de grupo e a forma de encarar o evento manteve-se, com os atletas a encararem a competição de frente e sem medo.

Mesmo assim acho que as nossas meninas de D16 ainda não acreditam totalmente no seu potencial. Antes da Estafeta tinha pensado que um lugar nas 10 primeiras era possível de alcançar, mas depois de uma análise aos resultados da prova de Distância Longa, em conjunto com o Tiago Aires, vimos que se as coisas nos corressem de feição poderíamos chegar ao sonho de ir ao pódio, podendo assim alcançar o 6º lugar. Claro que elas não acreditaram à primeira, mas o decorrer da prova provou-lhes que tínhamos razão e foi uma emoção tremenda quando na segunda pernada vimos a Joana Costa a passar no ponto de espectadores com o grupo da frente. Temos um grupo de meninas muito homogéneo e penso que, com um pouco de trabalho específico para a Estafeta, poderemos alcançar um resultado histórico a breve prazo.


Os resultados dos nossos atletas enquadraram-se nas suas expectativas?

Sim. Tinha mencionado antes da ida que qualquer resultado no top 30 era algo de extraordinário, ainda para mais sendo este um dos EYOC’s com mais e melhor concorrência. Se analisarmos as listas de partida, conseguimos perceber que, das grandes potências mundiais, apenas a Suécia não participou no evento. Não menosprezando os resultados dos restantes atletas, acho que o resultado de maior destaque foi o alcançado pela Mariana Moreira na prova de Distância Longa. Analisando as coisas friamente, estamos a falar num resultado próximo do top 10 (14º lugar) numa prova de floresta, onde tipicamente temos mais dificuldades. Na mesma linha o resultado do David Sayanda também está em bom nível, sendo também o melhor resultado de sempre na prova Longa do escalão de H18.

Além disso, no Sprint tivemos o excelente resultado da Joana Costa (14º lugar), além do magnifico 29º lugar da Vera Alvarez, um merecido prémio para esta atleta tão jovem e que muito tem para dar à Orientação Nacional. Do lado dos rapazes as coisas eram bastante mais difíceis, pois qualquer segundo a mais resulta em muitos lugares perdidos na classificação final. Mesmo assim o João Mega realizou uma boa prova, sendo que bastava-lhe não ter falhado o ponto a seguir ao ponto de espectadores para puder entrar no top 20. Analisando os resultados percebe-se que, com apenas menos 15 segundos, ele conseguia esse objectivo. Em jeito de conclusão, acho que todos estão de parabéns e espero que esta deslocação tenha sido um factor de motivação para o seu treino e evolução durante esta época.

Estabelecendo um paralelismo com as restantes selecções em prova, como é que avalia globalmente o actual estado das nossas jovens selecções?


Globalmente, e de uma forma rápida e simples, acho que temos talento mas falta-nos o enorme “trabalho de casa” das restantes selecções. Ou seja, percebe-se que muitas das selecções presentes neste EYOC têm trabalhos de formação e captação de talentos muito intensos, o que depois se traduz em resultados já de um nível muito acima da média. Basta analisar os resultados para perceber que em todas as provas os tempos dos vencedores estiveram abaixo do tempo previsto pela Organização, sendo que, nalguns casos, essa diferença foi mesmo muito grande. De nossa parte sinto que existe o talento, talento esse que tem de ser trabalhado para depois se traduzir em resultados ao mais alto nível.

Em termos organizativos, "trocar as voltas" à habitual sequência de provas e deixar o Sprint para o último dia acabou por ser indiferente quanto às nossas pretensões?

Acho que não. Para nós é melhor a sequência habitual das provas. Primeiro, porque os atletas chegam menos fatigados à prova de Sprint, o que faz com que as quebras que alguns deles sofreram fisicamente não se verifiquem. Mais importante do que isso, o facto de o Sprint, por ser a prova onde habitualmente os atletas portugueses obtêm melhores resultados, ser no início, faz com que os atletas ganhem uma motivação maior para o resto do EYOC. Mesmo assim, refiro novamente que os resultados obtidos são de bom nível e que os atletas se devem sentir orgulhosos por aquilo que alcançaram.

Como é que classificaria a Organização deste EYOC, comparativamente àqueles onde teve oportunidade de participar nos três anos anteriores?

De uma forma geral boa, mas com falhas em alguns aspectos essenciais. Desde logo, o facto de os “team-leaders” ficarem alojados em local diferente dos atletas, é algo que se deve evitar neste tipo de competições, por mais que não seja pelas idades dos participantes. Felizmente os nossos atletas foram responsáveis e souberam ouvir as instruções dadas por nós. Além disso, apesar de a alimentação ter sido sempre excelente em todos os dias, lamenta-se o facto de num dos dias, ao chegarmos ao local de refeições, toda a comida ter já acabado, tendo nós de nos remediarmos num restaurante anexo à base militar. Mal nenhum teria ocorrido se, em vez da refeição rica em hidratos de carbonos que iríamos comer na base, não nos tivessem dado hambúrgueres com batatas fritas. Enfim, a própria Organização lamentou o ocorrido, mas é algo mesmo a evitar. De resto gostei dos locais de competição, com um mapa e um traçado muito bom para a distância longa, um mapa mais pobre tecnicamente para a estafeta mas que proporcionou um bom espectáculo de Orientação, e por fim um sprint numa cidade belíssima e com percursos muito bem traçados.

Em termos práticos, que reais mais-valias se retiram desta experiência, quer individualmente, quer em termos duma orientação para o futuro das selecções?

De tudo o que vi e vivi neste Campeonato, o que mais me marca é o trabalho que está a ser realizado por várias selecções estrangeiras. Além das habituais - Noruega, Finlândia, República Checa, França -, temos uma Dinamarca a apostar muito forte na formação, uma Itália em processo de formação de vários atletas e, inclusive, a Espanha, que com o seu Centro de Alto Rendimento em Madrid (denominado BLUME) poderá vir a ter a médio prazo resultados de destaque. Acho que devíamos, após o WMOC, ter uma estratégia de desenvolvimento técnico, não só tendo em vista a evolução dos atletas para as competições internacionais, mas sobretudo o desenvolvimento do corpo de técnicos dos clubes para que estes possam fazer um trabalho de proximidade. Só assim o desenvolvimento da Orientação em Portugal se torna num processo sustentado. Além disso, se internamente se pensar em mais alguma organização de uma competição internacional, logicamente um JWOC ou um WOC, faz todo o sentido que se comece a formar atletas que estejam próximo do topo quando tivermos estas competições em Portugal.

O que é que se pode desde já prometer para o EYOC'09, na Sérvia?

Pessoalmente não posso prometer nada. Por motivos pessoais, não deverei ser eu a acompanhar a Selecção a esse Campeonato mas, na medida do possível, tudo farei para ajudar estes e outros atletas que se destaquem e mereçam estar na Selecção Nacional, a chegar à competição no melhor estado de forma física e técnica possível. Aproveito também para agradecer publicamente o trabalho intenso desenvolvido pelo Orientovar durante esta semana, numa cobertura muito boa daquilo que se passou na Suíça. Parabéns e que continue a trabalhar em prol da modalidade.

[foto gentilmente cedida por Tiago Aires]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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