quinta-feira, 9 de outubro de 2008

EYOC'08 SOLOTHURN: A ANTEVISÃO DE BRUNO NAZÁRIO


Desde 2005, data da primeira participação portuguesa no EYOC, que acompanha os jovens da nossa selecção. Este ano, fazendo equipa com Tiago Aires, Bruno Nazário lá estará uma vez mais na Suiça para, com a sua experiência e enorme qualidade técnica, orientar aqueles que vão dando os primeiros passos na modalidade. Antes da partida para terras helvéticas, em jeito de antevisão, falou para o Orientovar. Dessa conversa, feita de querer e ponderação, mas também com muito emoção e alguma amargura de permeio, aqui damos conta.

Orientovar (O.) - Acompanhou directamente as nossas selecções presentes no EYOC nos últimos três anos. Seria possível, sucintamente, estabelecer um balanço comparativo?


Bruno Nazário (B.N.) - É muito difícil fazer um balanço pormenorizado. Duma forma geral, penso que todos concordam que a tendência ao longo dos anos tem sido para uma melhoria progressiva dos resultados. Mais importante se torna essa melhoria se verificarmos que ao longo dos anos tem existido uma renovação nos atletas que participam no EYOC, o que mostra que a evolução não se tem cingido apenas aos atletas que participam no EYOC regularmente, mas também àqueles que vêm dos escalões mais jovens. Mas aquilo que saliento e destaco em todos os grupos que tenho tido o prazer de acompanhar desde 2005, é a dedicação e o empenho que colocam nas competições e sobretudo a forma de encarar as competições sempre com um pensamento de que é possível fazer melhor que no ano passado e de que os outros não são imbatíveis. Sem esta forma de pensar, jamais o Diogo Miguel teria sido Campeão da Europa.

O. - Na sua perspectiva, de que forma os bons resultados alcançados - nomeadamente essa extraordinária vitória do Diogo Miguel no Sprint em 2007 - constituíram mais-valias para a evolução da Orientação em Portugal?

B.N. - Sem dúvida que a vitória é sempre uma mais-valia. Para mim, pessoalmente, foi algo de extraordinário e que vai para sempre ficar como um marco na história da Orientação em Portugal. Aqueles que comigo partilharam esta emoção podem atestar que me foi impossível conter as lágrimas em muitos dos momentos que vivemos depois… Não posso, no entanto, deixar de dizer que o “depois” me deixou algo decepcionado, pois interiormente tinha assumido que isto ajudaria a criar melhores condições de treino para os atletas e que muitas portas de iriam abrir após deste resultado. Infelizmente tudo está como antes.

O. - Qual a importância deste tipo de contactos e experiências para os nossos jovens atletas?

B.N. - Este é um evento que proporciona duas coisas indispensáveis para que estes atletas jovens ganhem motivação e experiência para continuarem o seu processo de formação na modalidade. Por um lado, proporciona a ida a um ambiente competitivo, que lhes coloca o tipo de pressão que mais tarde encontrarão no JWOC ou no WOC. No entanto, embora a pressão competitiva esteja lá, o ambiente entre os atletas, por serem jovens, é sempre mais descontraído, o que proporciona o estabelecimento de amizades entre atletas de diferentes países. Por outro lado, proporciona o contacto com terrenos e mapas diferentes dos que temos em Portugal, o que lhes permite ganhar experiências diferentes. E isto faz toda a diferença, pois baseado na minha formação e na minha vivência da modalidade, este é um desporto em que a experiência é o principal factor de sucesso.

O. - Quais os critérios de selecção para este EYOC e qual a receptividade dos atletas?

B.N. - O processo de selecção dos atletas baseou-se na observação de 11 percursos da Taça de Portugal (desde o POM até ao Campeonato Nacional Absoluto), dos quais foram seleccionados os melhores 7 percursos de cada atleta. Após esse processo foram seleccionados os melhores 3 nos escalões de D16 e H16 (que tinham de realizar as provas de selecção em Juvenis) e 3 H18 (que tinham de realizar as provas em Juniores). Neste último caso existiram atletas, caso do David Sayanda, que ainda com idade de juvenis tiveram de fazer as provas de selecção em juniores, uma vez que o escalão de H/D 18 inclui atletas que em Portugal podem estar no último ano de juvenis ou no primeiro ano de juniores. O processo foi claro e com regras objectivas e foi aceite normalmente pelos atletas. Do ponto de vista técnico, uma vez que ainda não temos estrutura para realizar provas exclusivamente de selecção, penso que esta foi a solução mais adequada, sendo que foi alargado o número de percursos de selecção para proporcionar que os atletas mais regulares pudessem estar no evento.

O. - Quais as principais dificuldades sentidas na organização desta ida à Suiça?

B.N. - A principal dificuldade é a data do evento. Normalmente o EYOC realiza-se em fins de Junho princípio de Julho, altura em que os jovens estão em pleno período de férias escolares. A realização do evento em Outubro, com os atletas em início de ano lectivo, faz com que o número de dias de deslocação seja o mais reduzido possível, garantindo no entanto 2 dias para adaptação aos terrenos da competição. Caso o evento se realizasse nas datas normais, a deslocação certamente que seria em carrinhas, o que possibilitava uma maior disponibilidade financeira para pudermos estar mais tempo a preparar o evento e a possibilitar a tal aquisição de experiência por parte destes jovens e promissores atletas.

O. - O que espera da prestação destes atletas no EYOC 2008? Que proezas podemos esperar?

B.N. - Muito honestamente prefiro fugir um pouco à pergunta. Não porque não tenha expectativas nem objectivos que penso serem alcançáveis, mas porque não quero colocar qualquer tipo de pressão sobre os jovens. Mas, e isto direccionado a todos os que vão seguir o EYOC ‘online’ ou através do Orientovar, qualquer resultado no ‘top 30’ é algo verdadeiramente extraordinário, pois temos sempre de ter em conta o nosso estado de desenvolvimento e a escassez de oportunidades de treino que proporcionamos aos atletas. No final espero que, independentemente dos resultados, todos em Portugal apoiem não apenas os jovens em causa mas também todos os outros que cá ficam e que ambicionam um lugar na equipa nacional.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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