sábado, 18 de outubro de 2008

(DES) ORIENTAÇÃO



O DILÚVIO

O CPOC é um clube jovem nascido em 2002 e a sua primeira aposta internacional aconteceu em 2006.


Na sequência dum trabalho moroso e exigente na prospecção de áreas para o evento - e depois de analisarmos quase todo o concelho de Alcácer do Sal -, surgiram no caminho do Tiago Aires e da Raquel Costa as “pedrinhas” de Mora. E lá fomos nós à aventura de Mora e ao encontro duma equipa autárquica que nos desconhecia e que não terá acreditado nos números que lhes prometíamos.

Chegou a semana antes do evento e as previsões climatéricas foram-se pintando cada vez mais negras... Na véspera, era certo que choveria no sábado. Nada mais normal na Orientação. Desagradável para quem organiza mas já nos habituámos a viver com esssa possibilidade.

Nos terrenos do montado alentejano começámos a trabalhar cedo e a chuva chegou pouco depois. Quando os primeiros atletas partiram para a sua prova, chovia intensamente há pouco mais de uma hora e assim continuou por mais meia hora.

Nesse evento de Distância Longa, os maiores percursos tinham um ponto de controlo com troca de mapa numa zona remota do Monte da Casa Branca. Foi para lá que me dirigi para tentar captar o primeiro “feedback” dos participantes, mas tinha a nítida sensação, daquilo que ía sabendo das partidas, que tudo estava a correr sobre rodas.

Chega o primeiro atleta, o elite espanhol Pedro Pasion, que diz algo como “… duro, es duro”, e seguiu... Pensei que se ele já estava a achar duro e ainda tinha mais de metade pela frente... Depois veio o Santos Sousa e nesse momento toda a tranquilidade foi literalmente por água abaixo... “O ‘124’ está debaixo de água e há zonas onde é difícil passar porque estão cheias de água.” Ora, onde eu estava havia lama no chão, mas para além disso...

Perto de mim estava uma linha de água que cortava o mapa ao meio e onde toda a gente passava (a elite passava três vezes). Tínhamos tido inclusivamente o cuidado de colocar algumas tábuas fixadas, como ponte, para que os participantes dos percursos abertos não molhassem os pés. Fui imediatamente a correr para o ribeiro e senti um arrepio na espinha quando comecei a ouvir o trovejar da água a correr... Aquilo há duas horas atrás era um fiozinho com um metro de largura... Chego ao ribeiro e vejo zonas com um caudal assinalável e com oito a dez metros de largura nalguns sítios. Conhecia bem os percursos e sabia que eram locais de passagem de percursos mais difíceis. O caudal era largo mas não demasiado forte pelo que a passagem seria molhada mas não perigosa.

Corri então ribeira acima, até ao local de passagem dos percursos abertos. A ribeira partira-se em dois e corria forte. Meti-me dentro de água para avaliar o que poderíamos fazer, mas era quase inevitável o cancelamento destes percursos. A estrada passava perto mas uma vedação intransponível impedia o acesso pela estrada. Se tivéssemos ali pessoal da Organização, talvez pudéssemos ajudar as pessoas a atravessar…

A equipa contava com bastante gente e não foi difícil dar conta da situação a uma pessoa da equipa técnica e a outra das chegadas para mobilizar recursos para o ribeiro. Vi ao longe chegar um atleta da elite ao ribeiro e atravessar com água pelo pescoço... Outro, vi-o escolher um melhor local, não hesitando em mergulhar... Só ali, ganhou quase meio minuto ao primeiro atleta!

Começaram então a chegar os participantes dos percursos abertos. Ninguém se atrevia a enfrentar aquela água acastanhada. Fui para dentro de água fazer uma "parede humana" e dar confiança às pessoas para irem passando. Pouco tempo depois começaram a chegar elementos da organização. E lá se foi passando... Crianças ao colo, outros com água pela cintura, outros só a dar a mão. Trinta minutos depois do primeiro atleta passar, tínhamos uma dezena de pessoas da organização espalhadas ao longo da linha do ribeiro. Até os supervisores - Carlos Monteiro e Luís Sérgio - foram incansáveis a ajudar pessoas a atravessar.

Abandonei a zona de passagem dos escalões abertos e fui ver as outras zonas. Os Elites que voltavam para a segunda travessia já entravam sem hesitações, depois de escolher o melhor local para se lançarem. Mas a missão mais complicada foi claramente para as Damas Elite. A ribeira era cortada por uma vedação, mas tinha uns 20 metros de largura no local onde tinham de passar e havia zonas sem pé. Mesmo agarradas à vedação, e com uma pessoa da organização dentro de água a ajudar, não foi tarefa fácil.

De certeza que muitos terão histórias para contar deste evento. Uns assustados, outros cheios de adrenalina pela aventura que tinham ultrapassado. Mas os mais espantados terão sido os autarcas locais, que foram passando a mensagem até a fazerem chegar ao Presidente da Câmara Municipal de Mora. O edil em pessoa dirigiu-se a Pavia e viu com os seus próprios olhos como era possível, no meio daquele dilúvio, que estivessem 700 pessoas a fazer a prova, a chegarem sorridentes e bem dispostas, como quem termina um belo passeio ao Sol de Primavera... Que estava reservado para o dia seguinte!

Luís Santos

P.S. - O ponto ‘124’ só voltou a ser visto oito dias depois do evento, numa estreita linha de água já seca, a uns bons duzentos metros de distância do local onde fora colocado!



O Orientovar agradece ao Luís Santos o ter partilhado connosco este "pedacinho" delicioso retirado do seu álbum de memórias e, neste dia tão especial, envia-lhe daqui um sentido e forte abraço de parabéns por mais um aniversário.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

Almeida disse...

Foi "altamente". Acho que fui o 2º ou 3º atleta a partir e qd cheguei ao rio que era o que era, fiquei feito parvo a olhar para ele, e depois chegou um elite e passou a correr e lá decidi, bem que se lixe.