sábado, 4 de outubro de 2008

(DES) ORIENTAÇÃO


FOSSO ASSUSTADOR

Vão sendo do conhecimento da malta mais chegada (os que têm paciência para me aturar) certos episódios de que fui protagonista, mais ou menos rocambolescos, certamente caricatos a roçar o ridículo ou definitivamente hilariantes. Mas sempre fica qualquer coisa por contar, como alguém preconizava – “deves ter alguma carta na manga!”. Prefiro dizer que tive de me socorrer de “ficheiros secretos” pessoais e de máxima confidencialidade.

A cena desenrolou-se durante uma competição em Casal dos Bernardos, num pinhal de contornos bem agressivos, com mato de origem “amazónica”, fossos “perigosamente” camuflados, constantes altos e baixos, mas também uma quantidade enorme de caminhos. Este cenário na altura pareceu-me deveras assustador, apenas porque participava na minha terceira prova oficial, onde tudo ainda era novidade, mormente os pormenores dos terrenos que pisava ("maçaricada" ao mais alto nível).

Fazia equipa com a minha mulher num escalão aberto, perante uma prova de características diferentes do habitual, em que os concorrentes tinham a responsabilidade de escolher os percursos, pois os pontos não se encontravam ordenados. Tarefa nada acessível para quem mal dominava a sinalética. - “Melhores opções? Mas que raio significa isso? Cá para mim é sempre a direito e fé em Deus”.

O que aconteceu foi que baralhámos aquilo tudo, inventámos do que “melhor” existe em traçados de Orientação, que a “páginas tantas”, o ponto que nos faltava controlar, situava-se num trilho paralelo ao caminho onde nos encontrávamos, mas com a “pequena” contrariedade de haver uma verde “parede” de permeio (a alternativa obrigava a uma volta de quilómetro). Claro que para o casal da "espécie de orientação" isto não pareceu ser obstáculo de monta. O verde-escuro tinha o mesmo significado que o amarelo…ou quase. A zona assemelhava-se a um verdadeiro manancial de tojo “ulex” (naquela época ainda não tínhamos sido apresentados), no entanto, alguns recentes “exploradores” tinham conseguido delinear um “carreiro” rudimentar, onde mal passava um tipo magrinho e de lado. Nada que constasse no mapa mas, mesmo assim, partimos à aventura. Onde pode passar um português, concerteza passam dois ou três!

Percorremos umas dezenas de metros, rodeados de silvas até aos ombros, onde ao mínimo descuido – “arre que me piquei!”. Apesar da dificuldade, fomos progredindo com as cautelas necessárias, até que começámos a descortinar gente a passar no tal trilho que pretendíamos. Num momento fatal de desatenção (que pontinhos com dentes são estes no mapa?), não reparo numa falha de terreno que antecedia o caminho, páro de repente, e a minha mulher, que me seguia nos calcanhares, dá-me um ligeiríssimo empurrão, que foi o suficiente para me fazer escorregar e cair de costas mesmo em cima das silvas que atapetavam o exíguo carreiro. Fico deitado, com as pernas a bambolear para um fosso escarpado (aaaah…os tais pontos dentados!), completamente “forrado” por um imenso matagal que impedia vislumbrar a sua profundidade.

E agora? O “espécie” prostrado no chão em posição humilhante, a sentir ao mais pequeno movimento os picos a entrarem nas partes carnudas, a minha mulher incapaz de me levantar dado que não podia passar (as seis arrobas metiam respeito!), eu a não conseguir fincar as mãos no chão para me ajudar, pois tudo era espinhos e, para completar o cenário, tinha pela frente um fosso assustador, que poderia esconder o “abismo” sob a vegetação que o camuflava.

A cena não estava de modo nenhum para brincadeiras, tendo de imediato sido acometido por uns aflitivos suores frios (daqueles que não nos cabe um feijão…). A melhor hipótese seria forçar os pés na vegetação do fosso, mas…cuidado…e se tudo fosse oco? Mergulharia num mar espinhoso, com consequências imprevisíveis (arrepiante não é?...não saber interpretar o mapa!!!).

“Força Cláudia, puxa-me pelos braços!” – isso é que era bom, habituada apenas a pegar nas sacas do “Continente”. Eu bem me esforcei para me sentar, mas os meus abdominais andavam debilitados e qualquer pressão que fizesse era de imediato infiltrado nos lombos e “nadegueiros” por aquelas “agulhas” terríveis – quieto é que estava bem. E não aparecia vivalma para dar uma ajuda (ao tempo que andávamos no “pasto”, o mais provável era toda a gente ter regressado a casa).

Só havia uma solução. Num assomo de coragem, firmar as mãos no terreno pejado de silvas, berrar um chorrilho de asneirolas cabeludas para aliviar as dores, aguardar que a minha mulher me amparasse nas costas, depois de dobrado, para me poder levantar sem ter de firmar as pernas. Estas continuavam sem apoio, penduradas para o “aterrador” fosso, onde eu em desespero, já imaginava ser a entrada do inferno ou…do território dos duendes (sabia lá!).

Depois duns dolorosos e blasfémicos momentos (a justificar “bolinha”), consegui sentar-me, com as palmas das mãos latejando de tantas picadas, mas ainda tive de me arrastar um pouco para trás, sobre um autêntico “colchão de faquir” (novo sacrifício para os meus fustigados glúteos), para finalmente voltar à posição vertical (uff!!!). Terão decorrido uns cinco minutos no máximo, que para nós pareceram horas, tal a intensidade do “drama” (foi aqui que jurei a mim mesmo que iria emagrecer).

Transpusemos facilmente o fosso, pois nem era muito largo, mas não resisti a confirmar as suas profundezas, para avaliar o “perigo” a que tinha estado sujeito. Enfiei um ramo com mais de dois metros pelas silvas dentro, ao encontro do desconhecido e…nem queria crer…cinco centímetros? O fosso só tinha a profundidade que era visível, não atingindo um metro? Então estivemos nós ali tanto tempo, no limiar de um ataque de pânico, acabei todo espetado (não me pude sentar nos dias seguintes) e bastava colocar os pés no fosso? – “Isto é de perfeitos idiotas!” – desabafámos, rindo de alívio. “Ainda bem que não apareceu ninguém, seria uma vergonha” – comenta a minha parceira – “Esta cena vai connosco para o túmulo, combinado?” – “Ok mulher, tu mandas”.

Portanto já sabem, nada de comentários, esta “istória” fica apenas entre nós. Se ela vier a ter conhecimento que dei com a língua nos dentes, algo de “horrível” me pode acontecer e vocês não desejam isso, pois não?

Luís Pereira